“À medida que a imprensa continua a descascar [Multi-Love] pelo seu moinho de conteúdo, quero apenas dizer que esta não é uma crónica da minha vida durante o ano passado. Este álbum é sobre o amor e a música e o mundo em que vivemos neste momento. Escrevi estas músicas sobre vocês, não sobre mim. Não é exactamente um disco egocêntrico, é sobre a celebração e a estranha verdade. Eu acredito que a criatividade terá um papel a interpretar nalguma espécie de revolução, e estou convencido de que a classe dominante não teme coisas como o terrorismo ou o fundamentalismo, mas sim a coesão, a empatia e o pensamento lateral. E foi sobre isso que quis escrever o álbum”.

São estas as palavras que se leem na página oficial de Facebook dos Unknown Mortal Orchestra, numa publicação assinada pelo próprio Ruban Nielson em divulgação do seu novo álbum. Uma reacção incomum para uma rede social do género, que surge mediante uma resposta da comunidade mediática a Multi-Love, aparentemente inapta aos olhos do vocalista e frontman da banda.

Infelizmente para Nielson, a sua eloquência não iliba o seu trabalho de escrutínio, muito menos com um raciocínio discursivo desta superficialidade. Felizmente para ele, no entanto, a sua mensagem flácida, débil e em grande parte datada é suportada por uma base musical sólida e incrivelmente fértil, e o pouco que tem a dizer é repetidamente ofuscado pelo muito que tem a mostrar.

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Não querendo dizer, obviamente, que Multi-Love satisfaz por inteiro o anseio que a espera de dois anos impôs: a amálgama lo-fi do début e a equilibrada destreza de II continuam a deixar saudades de um tempo de menor confusão na cabeça de Ruban Nielson. Mas onde lhe falta familiaridade, o terceiro registo dos Unknown Mortal Orchestra compensa em diversidade, perspicácia e ambição a mãos cheias, que para seu proveito têm o agradável hábito de se interligar impecavelmente. Multi-Love desliga-se da velha fórmula “guitarra – baixo – bateria”, e é ao invés disso bordado em reluzentes tons de sintetizadores que se manifestam ora doces, ora amargos (mas quase sempre na vanguarda), desde as pequenas e saltitantes teclas da introdução da faixa-título aos órgãos avolumantes nos refrões de The World Is Crowded. Perguntar-nos-íamos para onde foram as guitarras se Nielson não nos deixasse tão frequentemente entretidos com aquilo que as substituiu.

A abordagem composicional também parece ter-se alterado, apesar de, no seu núcleo, as frases e estruturas melódicas fazerem jus ao tributo da capa de Multi-Love ao passado da banda. Nielson, que antes procurava explorar as suas melodias pop da forma mais intrincada e enigmática possível, não oferece agora tanta resistência, exibindo orgulhosamente os seus abrasivos power refrains e ‘la-la-las’. Músicas como Ur Life One Night, Can’t Keep Checking My Phone e The World is Crowded saltam as entrelinhas, buscando uma aproximação muito mais imediata, instintiva ou apelativa.

Quando o disco se afasta destas nuances, os danos são imediatamente sentidos – sendo a mais ensimesmada Extreme Wealth and Casual Cruelty o mais chamativo exemplo – mas não deixa de haver espaço para algum atrevimento da parte dos Unknown Mortal Orchestra, que em constantes floreados de delays e reverbs, compressões e overdubs, não se refreiam em deixar a sua marca d’água em Multi-Love.

Continua a soar estranho, não obstante, que para tanta garra e ousadia melódica os UMO continuem a deixar tanto por desejar a nível lírico. É certo que as letras nunca foram o maior trunfo do grupo, e que ainda assim se encontram aqui e ali os indícios da esperteza aforística e tongue-in-cheek de Ruban Nielson (Short Screen, Can’t Keep Checking My Phone), mas desta vez o principal compositor da banda veio com uma mensagem para espalhar. Uma mensagem tocante e universal, mas também banal, gasta e nem um pouco impressionante. “Multi-love/Checked into my heart and trashed it like a hotel room” clama Nielson, na primeira de muitas das suas reclamações sobre o amor e o quão “loucos” ele nos deixa.

Mais à frente, “She wants you, and love don’t come into the equation”, com todo o realismo de um B-movie mal rascunhado, ou o preciosismo lírico de “Love dissolved in acid rain/Tears are falling down”. Ainda que destes versos soltos não se faça geralmente regra, a verdade é que músicas com o tratamento melódico e os refrões explosivos a que teve direito Puzzles mereciam linhas bem mais inspiradas.

Com todas as pedras que se possam atirar às suas partes algo desconexas, ideias por aperfeiçoar e escolhas duvidosas, que nunca se diga que Multi-Love incorre no aborrecimento. Muito pelo contrário, cada música é uma imersão numa infinidade de ideias, pensamentos e influências de que os Unknown Mortal Orchestra se servem– o hip-hop, o jazz, o barroco e até o próprio pop – e mesmo que os resultados nem sempre sejam os desejados o que há de menos bom é geralmente sobreposto pelo que há de melhor. Multi-Love pode não ser superior a nenhum dos seus predecessores, mas continua a representar um passo em frente para os neo-zelandeses e a prova de que o poço está longe de se esgotar. Mantenho que quanto mais espaço tiver Nielson para brincar, melhor. Talvez o poliamor que descreve nas suas palavras chegue ao nível daquele que soa na sua música.

Nota: 7.2/10