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“Why Make Sense”, de Hot Chip: Fazer sentido para a pista de dança

Vindos de Londres, já no início do milénio, os Hot Chip são um dos projectos de música de dança mais inconfundíveis que surgiram na paisagem recente. Uma ambiência peganhenta, decididamente retro; um banho de luzes vermelhas e púrpuras; cornucópias sonoras enfeitadas pela voz relaxada de Alexis Taylor; as letras pseudo pirosas e os constantes apelos ao ritmo e à dança, à boa moda do fim dos anos 80. São estes alguns dos elementos que fazem da banda inglesa uma das mais reconhecíveis dentro do saturadíssimo género que é o indie disco.

Operários febris da música de dança em formato ao vivo e verdadeiros engenheiros de som na sua componente de estúdio, os Hot Chip têm sido donos de um rol consistentemente prendando de álbuns. Why Make Sense é o primeiro do conjunto em quase três anos e continua a explorar de forma bastante inteligente, os caminhos outrora trilhados, que soam progressivamente mais frescos. Apesar disto, o álbum número seis apresenta-se como um esforço mais controlado de uma banda que desta vez jogou pelo seguro. Talvez demasiado, até.

Os Hot Chip voltam a trazer-nos um conjunto de canções que atuam como um lifting ao R’n’B e ao disco meloso dos anos 80/90. A típica piroseira lírica e as ondas celestiais de sintetizadores abraçam-se num disco, que apesar de familiar, às vezes deixa-se cair mais no ritmo do que propriamente na habitual predileção às camadas de melodias que a banda gosta de engendrar. Para ouvir isto, atentar no break beat contagiante em Cry For You, que de resto, é dotado de um muito bem construído refrão e uma secção rítmica dinâmica, a lembrar alguns dos melhores momentos de Made in The Dark, disco de referência no espólio da banda.

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Já a faixa de abertura, Huarache Lights, mais soa como um “guess who’s back“, reunindo todos os elementos mais reconhecíveis da banda, entre os quais, o típico uso sempre muito inteligente, da táctica dos crescendo, que é capaz de induzir até os mais cépticos a abanar a anca. Single engenhoso e que põe os ouvintes em sentido: “quem sabe, não esquece“. A seguir, Love is The Future e o ritmo fica mais morno a favor de uma familiaridade que nem um breve verso de rap faz esquecer.

Mais à frente, destaca-se o duo dinâmico da banda. Os gémeos siameses (por serem a faixa 5 e 6) White Whine and Fried Chicken/Dark Knight são óbvios destaques. A primeira pode ser considerada uma das mais fantásticas baladas R’n’B dos últimos anos, com o seu tema-assunto humorístico e simultaneamente universal e pessoal, reminiscente de um John Grant ou um Josh Tillman (por estes dias, mais conhecido como Father John Misty). Já a segunda são os Hot Chip a vestir o fato de gala, com provavelmente a canção mais elegante do disco, que funciona toda ela como um crescendo emocional ornado por uma bela salva de sintetizadores. Entretanto, Need You Now, assim de repente, parece querer piscar o olho ao clássico Play, de Moby.

A este ponto, Why Make Sense já passou no teste e é indubitavelmente mais um disco com o selo de qualidade. A atmosfera nocturna e sempre colorida dos Hot Chip mantém-se intacta, e a noção de ritmo e contágio nunca é introduzida de forma gratuita e em detrimento de outros elementos. A música dos londrinos continua a ser equilibradamente cerebral, com uma gestão saudável de recursos e um uso muito sóbrio de certas tendências na música de dança que rapidamente poderiam virar cliché e lugar comum. À parte da imagem e tom revivalistas (e até esses, que já são marcas praticamente exclusivas à banda), os Hot Chip conseguem distanciar-se mais uma vez de qualquer par. Talvez esteja agora na hora de se distanciarem para outras potencialidades. Ou não… Por agora, dança-se.

Nota: 7,5/10

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.

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