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Lost In Translation #1: The Knick

No estrangeiro, há várias excelentes séries que se destacam mas que não têm, por algum motivo, tanta visibilidade em Portugal. Na rubrica Lost In Translation, o Espalha-Factos traz esta semana à ribalta The Knick, uma série sobre os primórdios inovadores da cirurgia numa Nova Iorque de há um século.

Uma viagem de carruagem com um homem a injetar-se no pé. Uma cirurgia arriscada onde somos expostos a uma cesariana primordial, resultando na morte da mãe e do feto. O médico responsável pela operação a suicidar-se com um tiro na cabeça. E o ano 1900.

O cenário é Nova Iorque. A série é The Knick. E, a julgar pelos primeiros minutos do episódio piloto, não é para os fracos de coração.

Como tantas outras séries na televisão internacional, segue as intrigas de um hospital norte-americano. Mas com uma diferença: este é do virar do século, e os seus médicos estão na vanguarda da investigação e inovação cirúrgica. É, como o doutor John Thackery (trazido à vida por Clive Owen) faz questão de referir, um “mundo com possibilidades infinitas”. E, no caso deste êxito de Steven Soderbergh, muitas delas são deliciosamente mórbidas.

A série parte de uma premissa interessante, à qual deverá provavelmente o sucesso que está a ter na televisão estrangeira. Nega ser apenas mais uma história de médicos bem-parecidos envolvidos entre si e a resolver casos com a ajuda de todo o aparato tecnológico, recursos financeiros e conhecimento científico moderno. The Knick prima por mostrar um mundo mais real da medicina numa perspetiva histórica.

Aqui, os recursos são escassos, os conhecimentos médicos ainda estão a ser desenvolvidos, e os médicos (a par e passo com os doentes) também são afetados nas suas tentativas de avançar e testar os limites da Medicina. Aliado a tudo isto temos um enredo bem construído, com relações interpessoais intrigantes no cenário de uma Nova Iorque energética, cheia de emigrantes e modernização.

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No entanto, são óbvios os preconceitos e os obstáculos sociais característicos da época. As mulheres continuam a ser relegadas ao lugar de enfermeiras ou esposas, e o médico Algernon Edwards (protagonizado por Andre Holland), com todas as suas credenciais e conhecimento, continua a ser ostracizado por ser afro-americano. Os oficiais do governo são corruptos, os administradores do hospital também, e os doentes sem dinheiro sofrem na rua.

Podemos desenhar paralelismos a outros conhecidos médicos da televisão: é impossível não comparar a dependência de cocaína do Dr. Thackery com a dependência de Vicodin do Dr. House (imortalizado por Hugh Laurie). Além do mais, ambos são médicos brilhantes, algo arrogantes e cujo intelecto permite que brilhem no mundo da medicina. Podemos até especular que os espectadores, após o final da série House M.D., sentiam a falta de um personagem ao estilo de Gregory House. E quem melhor do que este John Thackery?

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O produtor Steven Soderbergh tem explorado de forma exímia os detalhes do que era viver numa Nova Iorque do início do século XX, com o enfoque na ação deste fictício Knickerbocker Hospital. A receção tem sido favorável: Matt Fowler, do website IGN, considerou a sérieimpressionante e intensa” (…) difícil de ver, por vezes, devido às cenas gráficas e conteúdo deprimente, mas provocando sempre reflexão e incrivelmente bem executada”. À data deste artigo, o website Rotten Tomatoes tinha a série avaliada pelos fãs em 9.7 / 10. O Metacritic também fez uma crítica positiva, com 75/100. Além disto, a primeira temporada incluiu uma nomeação de Clive Owen para um Golden Globe em 2015 e arrecadou três Satellite Awards.

Porquê então a falta de visibilidade em território nacional? Bem, é certo que a série ainda está a ganhar terreno, tendo terminado a primeira temporada apenas em outubro de 2014. Mas, ainda assim, numa altura em que tantas pessoas acompanham séries fora da televisão, seria expectável que mais aficionados já tivessem tomado conhecimento desta intriga que anda a cativar cada vez mais nos Estados Unidos. É natural que uma essência patológica combinada com uma fotografia extremamente gráfica contribuam para desencorajar alguns espectadores, mas é provável que, caso a televisão nacional aposte na série, esta venha a construir uma comunidade sólida de fãs. Não seria, de resto, um conceito inteiramente novo (muito embora se possa argumentar que inova surpreendentemente na união de elementos históricos com a perspetiva científica) – em Portugal existe já um grande número de fãs tanto de séries médicas (como Anatomia de Grey ou Clínica Privada) como de séries históricas (como Downton Abbey).

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Os curiosos ainda vão bem a tempo de se atualizar na primeira temporada antes da estreia da segunda, cuja produção começou em fevereiro deste ano. Apesar de não existir ainda data de estreia, podemos especular que, à imagem do ano passado, a nova temporada terá início algures no final do verão ou no outono de 2015. Por aqui, esperamos para ver o que mais acontecerá no “circo” do Dr. Thackery.

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