Poderosas Cover

Poderosas… ou nem por isso?

Estreou no passado dia 18 de maio a nova telenovela portuguesa da SIC, Poderosas, escrita por Patrícia Müller. A promoção não foi intensa, mas despertou a atenção dos espetadores.

Contudo, na primeira semana, as audiências foram claramente descendentes e nem mesmo com a alavanca chamada Mar Salgado a nova aposta conseguiu convencer.

A trama da novela gira em torno de José Maria Sousa Ataíde, um homem manipulador, sedutor e calculista. A personagem é interpretada por Rogério Samora e pode ser vista como uma versão masculina de Luiza Albuquerque de Ninguém como Tu, da TVI. Ele é o alvo das Poderosas, as mulheres que no passado foram enganadas por ele. Do clã Sousa Ataíde fazem ainda parte Homero (Rui Mendes) e Miguel (Jorge Corrula) – um núcleo que poderia ter saído de um filme como Vigaristas de Bairro, de Woody Allen. Os três homens farão de tudo para ficar bem na vida, nem que para isso tenham que trair os próprios familiares. Destaque para a personagem Miguel, o charlatão mais novo e que é responsável por algumas das tiradas mais cómicas desta telenovela.

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A história de Poderosas começa em 1987, com alguma tensão dramática à volta de Amélia, a personagem interpretada por Soraia Chaves. Envolta em mistério, esta acabou por se tornar uma das figuras centrais dos dois primeiros episódios da história, até ao momento em que fecha o pacto com as restantes ‘poderosas’ – Luísa (Joana Ribeiro) e Jacinta (Maria João Luís). Soraia Chaves prova que já não é apenas a “menina bonita” que vimos em O Crime do Padre Amaro ou Call Girl e reafirma-se como uma das melhores atrizes da sua geração – tal como já tinha acontecido quando protagonizou Dancin’ Days.

No primeiro episódio, 15 minutos foram dedicados inteiramente à viagem de Marina (Margarida Marinho) e José Maria à Malásia. As imagens aí gravadas pareceram adequadas, num bom trabalho de realização e direção de fotografia, replicando a especial atenção dada aos primeiros episódios em outras produções da SP Televisão. Contudo, foram 15 minutos um pouco dispensáveis para o desenrolar da história e que quebraram completamente o ritmo da trama. Para além do clichê que todo este tipo de imagens e histórias de amor nos sugere, não foi relevante o facto de as cenas se passarem fora de Portugal, ficando no ar a ideia de um certo pretensiosismo por parte da produção.

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No seu regresso à SIC, Margarida Marinho veio provar porque é que é uma das atrizes mais desejadas em Portugal. A expressividade e identidade que imprimiu à sua personagem fazem com que esta ganhe um interesse extra por ser interpretada por si. Não há o estereótipo da rica malvada, nem da vítima perdida de amores pelo vigarista. Do drama à comédia, da felicidade para a tristeza, Margarida Marinho consegue passar por vários registos em poucos minutos, mostrando que Marina é uma personagem bastante real e humana. De destacar a cena da discussão entre Marina e Luísa no primeiro episódio, possivelmente a melhor do capítulo de estreia. Brilhante trabalho de ambas as atrizes, sobretudo de Margarida Marinho.

Maria João Luís está, em Poderosas, igual ao que já nos habituou – uma atriz de excelência, camaleónica e que, mais uma vez, interpreta uma mulher tão diferente das suas anteriores personagens. Enquanto isso, Joana Ribeiro prova que é uma aposta ganha na ficção. Contudo, acaba por não se afastar da Mariana de Dancin’ Days ou da Margarida de Sol de Inverno. A culpa não é (só) da atriz, pois todas estas personagens têm traços em comum. Mais uma vez, Joana Ribeiro é a filha da protagonista, uma menina rica, um pouco mimada e rebelde, sem uma figura paternal por perto. A atriz faz ainda par romântico com Tomás Alves, este no papel de Dinis Lourenço, resultando um casal um pouco aborrecido – pelo menos à partida. O típico amor à primeira vista, que surge de uma forma inesperada – através de um acidente – e rodeado de coincidências. Onde é que já vimos isto?

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Mas se este casal acaba por não ter tanto impacto, o mesmo não se pode dizer de Gonçalo (João Jesus) e Inês (Sara Barros Leitão). João Jesus é mesmo um dos grandes destaques da novela, no papel de um rapaz que à partida seria apenas uma personagem ligeira, por estar constantemente alcoólico, ‘baldar-se às aulas’ e ‘andar com umas miúdas’. Mas depois percebemos que Gonçalo tem muito mais do que isso. É revoltado, problemático, infantil e não consegue esquecer a morte do pai, refugiando-se nas graçolas e no álcool para não pensar nos seus problemas. A relação que rapidamente surge entre Gonçalo e Inês mostrou-se espontânea e genuína (são hilariantes os diálogos onde os dois estão juntos). Sara Barros Leitão, que à semelhança de João Jesus tem sido reconhecida pelo seu trabalho em cinema, veio novamente provar a sua versatilidade, agora em televisão, num papel mais cómico e muito bem conseguido.

Dos núcleos secundários ainda há muito para acontecer, mas nestes primeiros episódios, destaca-se o desempenho de Julie Sergeant como Virgínia. Na sua primeira cena em Poderosas, a sua interpretação soou demasiado teatral e exagerada. Mas, depois, fomos conhecendo outras facetas da personagem. A cena passada no estúdio do Queridas Manhãs, onde Virgínia é considerada uma das melhores figurantes na ‘arte de bater palmas’, foi uma das mais engraçadas destes primeiros capítulos. Por outro lado, Pedro Sousa, Adriano Luz, Dânia Neto, Rui Melo e Lia Carvalho trazem-nos personagens diferentes dos seus trabalhos anteriores, todas elas bem conseguidas.

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No que toca ao guião de Poderosas, existem incoerências na história. Por exemplo, no caso de Luísa e Dinis, que foram amigos de infância, as suas famílias sempre se relacionaram, mas não havia qualquer tipo de relação e nem se reconheceram? Estas e outras pontas soltas ficam por explicar e fazem com que o desenvolvimento das personagens não seja o melhor.

A nível técnico, a SP Televisão e a SIC continuam a primar pela qualidade e coerência estética. Algumas escolhas de realização não são as mais originais e a iluminação de Poderosas acaba por ficar um pouco aquém de Mar Salgado. Contudo, Poderosas prova que as telenovelas podem estar a aproximar-se de uma qualidade estética mais cinematográfica (ainda que existam muitos aspetos a melhorar). A banda sonora é interessante, embora em alguns momentos tenha havido excesso de músicas num curto espaço de tempo. Já o genérico afasta-se do que é habitual na televisão portuguesa. Os atores  são os protagonistas e o design sugere fortes inspirações na saga 007. Com um tema original criado propositadamente para a abertura, esta peca especialmente por ser demasiado longa, apesar de bem conseguida.

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Poderosas ainda não é uma aposta ganha da SIC, mas pode vir a ser. Os primeiros episódios são, em algumas partes, um pouco confusos e com falta de ritmo – tudo melhora bastante no episódio três, depois de feito o pacto entre as ‘poderosas’. As audiências também ficaram aquém das expetativas, contudo, há que ter em conta o fator novidade – esta novela inaugura a segunda faixa da ficção nacional na SIC – e o público fidelizado das novelas concorrentes na TVI. Poderosas tem ainda um longo caminho pela frente para se afirmar como uma novela capaz de fazer com que a SIC consolide, definitivamente, a liderança da sua ficção nacional. Ainda assim, vale pela simplicidade e diferença em relação ao que se tem feito até agora.

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