fotos de ensaio do espectáculo Tábua Rasa
fotos de ensaio do espectáculo Tábua Rasa.

‘Tábua Rasa’: quatro criadores e um palco em branco, onde podemos entrar!

Tábua rasa deriva do latim tabula rasa, que se referia a uma tábua de cera onde nada estava inscrito. De 21 a 23 de maio, António Cabrita, São Castro, Xavier Carmo e Henriett Ventura vão ter o desafio de inscrever no palco do Teatro Camões uma colaboração que dura desde 2014: Tábua Rasa. Os quatro foram tudo neste espetáculo, que consideram simples, íntimo e que pretende chegar ao público. 

Xavier e António já se conheciam e tinham a vontade de trabalhar juntos. São e Henriett formavam duetos com cada um deles respetivamente. As vontades e os duetos juntaram-se e surgiu Tábua Rasa. Atualmente António e São colaboram no projeto acsc, onde já desenvolveram trabalhos como Play False ou Wasteland. Xavier e Henriett são bailarinos da Companhia Nacional de Bailado. Os criadores propuseram a peça a Luísa Taveira que abraçou Tábua Rasa na casa da CNB. Depois, foi começar a trabalhar.

Tudo começou em julho de 2014 e durante este período têm feito residências em períodos curtos. O desafio estava lançado e a cena em branco. Aos poucos teriam de ir escolhendo um caminho, São Castro deu-nos algumas pistas sobre o começo: “Folha em branco, começar do zero, vamos criar qualquer coisa do vazio, alguma coisa dos impulsos simples, da vida, para criarmos e para sermos genuínos, para sermos humanos, indivíduos. E claro, é um espetáculo de dança.”  Xavier Carmo também esclarece que uma das premissas foram os estímulos, a origem do movimento que acabamos por ver na peça: “Muito do trabalho que acabámos por desenvolver teve por base  uma pesquisa dessa substância impalpável que nos faz mexer e que nos transporta de um lugar ao outro, o que faz um braço mexer assim e não assim”.

Xavier Carmo no ensaio de Tábua Rasa“Muito do trabalho que acabámos por desenvolver teve por base uma pesquisa dessa substância impalpável que nos faz mexer e que nos transporta de um lugar ao outro, o que faz um braço mexer assim e não assim”.

Na peça dançam a solo e dançam em duetos, mas a cumplicidade é bem expressa. Todos concordam que a partilha foi determinante e cada um conseguiu dar um pouco de si. “Cada um trouxe um bocado a sua bagagem. Para além do que cada um trouxe, também é importante ver o que cada um colheu. Todos trouxemos uma impressão pessoal, por outro lado essa impressão pessoal sofreu contágio das impressões dos outros”, esclarece-nos Xavier. O bailarino ainda acrescenta: “Acho que todos nós bebemos um bocado uns dos outros e temos dito isso bastante. Passámos todos por papéis diferentes, desde a ensaiador, a diretor, a coreógrafo, a intérprete uns dos outros”.

O tema da peça também lhe deu espaço para se imprimirem nela, a criação, algo em branco que necessita dessa intervenção. “Obviamente que nós lançámos as sementes para a peça e depois ela depois de alguns tempos começou-nos a dizer o que é que nós tinhamos de fazer e por isso é que eu acho que funcionou, porque a peça depois começou a ter uma vida, que nos foi dizendo e ditando : ‘olha agora vamos por aqui’, e não houve esta luta que às vezes pode existir entre criadores, e que eu já tive em processos complexos de luta de egos, no fundo”, destaca António Cabrita.

O resultado também viveu de experiências de movimento e intimidades de casal. “O nosso processo era chegar ao estúdio e o Xavier tinha uma ideia e lançava: ‘Ah, vamos experimentar’. Depois dessa ideia surgiam coisas. Foi como se tivéssemos a explorar, mas com consciência que estamos a construir uma peça, mas sem essa pressão”, revela-nos António. Depois houve a parte humana que para os criadores deve estar sempre na dança, São Castro desvenda alguns dos contributos: “Esta coisa da dança pode ser um bocadinho abstrata, mas nós pretendemos e pelo menos foi o nosso objetivo, que tudo aquilo que nós estivéssemos a fazer estivesse intimamente ligado a cada um de nós. Aliás, os estímulos que nós fomos criando ao longo do tempo e no início foram tudo estímulos de histórias individuais e de coisas muito humanas: a primeira memória da tua infância ou a primeira vez como casal que demos a mão. Foram tudo coisas da nossa própria natureza”.

Duetos no ensaio de Tábua Rasa: “Mera e simplesmente nós somos pessoas que nos encontrámos e isto surgiu. Para mim, a peça é mais forte do que eu e é mais forte do que cada um de nós. Forte nos sentido de ela existir para além de nós”. – António Cabrita

Por isso, o resultado tornou-se tão natural, como diz São: “A própria estrutura estruturou-se”. “A gente criou este espaço e Tábua Rasa é algo externo a nós. Mera e simplesmente nós somos pessoas que nos encontrámos e isto surgiu. Para mim, a peça é mais forte do que eu e é mais forte do que cada um de nós. Forte nos sentido de ela existir para além de nós,” completa António Cabrita.

Para este espetáculo, o palco tem uma plataforma branca um pouco elevada e São Castro destaca a importância deste espaço: “Há uma aceitação do outro no espaço, porque este espaço é importante para nós. Este cenário está aqui e começam a acontecer coisas, é um espaço de evidência. O facto de estar um bocadinho elevado não é para nos elevar, mas é para elevar o próprio espaço”.

São Castro no ensaio de Tábua Rasa: “Este cenário está aqui e começam a acontecer coisas, é um espaço de evidência. O facto de estar um bocadinho elevado não é para nos elevar, mas é para elevar o próprio espaço”

Este cenário vai também chamar o público a fazer parte dele, os criadores quiseram proporcionar essa experiência ao público e por isso, a lotação vai estar limitada a 150 lugares, mas todos no palco. “A própria forma como vimos a peça e a distância a que o público está na cena é a distância que nós como criadores estamos no espaço do estúdio”, refere António. A peça tem detalhes em gestos e respiração que se tornava obrigatório que o público estivesse perto. “Nós temos uma conversa entre nós, mas a nossa conversa também é dirigida para o público. Nós queremos que haja qualquer coisa com ele [público]. Nós abrimos isto e exatamente abrimos o público perto para dizer: ‘vem cá , quero conversar mais de perto contigo’ “, diz São. Xavier encara também esta proximidade como uma viagem.

Henriett Ventura no ensaio de Tábua Rasa: “Eles [público] vão ver uma cena íntima, mas vão perder um bocado a intimidade. Não é uma cena tipo tv,estou mais dentro do filme e estão quase a ser puxados”.

Este transporte que os criadores optaram por dar ao público faz parte da sua própria escrita do espetáculo: pensar no público. Neste processo de comunicação, António explica: “Tu pensas no público, estás a comunicar com alguém. Estás a comunicar com pessoas. Tu no fundo estás a fazer vivê-las esta experiência. Neste caso é uma coisa mais íntima. Mas nem toda a dança parte desse pressuposto, porque a dança hoje em dia deixou de ser dançada e passou a ser pensada e para isso eu costumo dizer: ‘se queres fazer isso, escreve um livro e não dances.’ ” 

E porquê ir mesmo ver Tábua Rasa? A resposta de São é imediata: porque é uma conversa não só entre os criadores, mas também com o público: “Acho que  há muita gente que se pode identificar de alguma forma com algumas coisas e com pequenos momentos. Quem gosta de ver dança, vem ver uma peça de dança. “

 Fotografias de Bruno Simão

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.

Mais Artigos
Príncipes do Nada
Príncipes do Nada. Catarina Furtado acompanha a luta dos refugiados em todo o mundo