Uma vez, ligado ao canal de música VH1, onde estava a dar uma programação de fim de semana dedicada exclusivamente ao rock dos anos 80, o presente redactor presenciou um videoclip musical com o nome de Epic. O que estava a dar era e é aquilo que provavelmente será o maior êxito comercial dos Faith No More, fruto da sua mistura exímia entre uma sonoridade metal, embrenhada numa melodia funk e ornamentada com um estilo rap radical. Não foi a primeira incursão no género, mas é bem capaz de ter sido a primeira que estava realmente sublime.

Como alguém que vinha da escola do hip-hop e agora começava a dar os primeiros passos na educação mais rock, os Faith No More, novos e perigosos, atuaram naquele momento como uma espécie de farol… até se ouvir o resto do espólio. O que se veio a encontrar não foi um simples percursor para o rap-rock, mas algo ainda mais profundo: jazz, lounge, metal, punk, pós-punk, funk, gospel, hip-hop, bossa-nova… O ecletismo não parava. A perversão e a mescla de géneros era lunática, bizarra e quase sempre funcionava, por muito ridícula que fosse a premissa. Desde os Metallica até aos Nirvana, inúmeras bandas prestaram as suas devidas homenagem e menções à troupe de Mike Patton: os Faith No More são um dos mais importantes pináculos da geração alternativa e uma das bandas mais significativas a surgirem na música nos últimos trinta anos. Sem exagero.

Com Epic estávamos em 1998, no auge da fama da banda, e daí seguiram-se discos marcantes como Angel Dust e King For Day… Fool for a Lifetime. Depois o fim. Um ano após Album of The Year, em 1988, os Faith No More decidiram separar-se alegando uma vontade de investir noutros projectos pessoais (entre os quais, os lunáticos Tomahawk, liderados por Patton). Assim, foi com bastante entusiasmo que o mundo da música reagiu à notícia de que a banda, revigorada e de pilhas recarregadas, regressaria aos palcos. Isto no já distante ano de 2009.

Seis anos volvidos e algumas tours bastante discretas serviram para voltar a provar aquilo que já toda a gente sabe: uma verdadeira reunião só faz sentido com material novo a ser lançado. A banda pareceu concordar e eis que surge Sol Invictus, o sétimo registo e um revigorante regresso que na verdade já fazia mais falta do que parecia. Ao todo são dez canções que formam um conjunto pujante, mais coeso do que estaríamos habituados, mas bem pensado e perfeitamente concentrado. Os Faith No More trocaram aqui um pouco do ecletismo lunático e mostram que têm um conceito e uma direcção e acima de tudo, fazem-nas funcionar.

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Logo nos primeiros segundos da faixa de abertura, Sol Invictus, encontramos logo uma ambiência praticamente exclusiva a esta banda. Uma assombrosa linha de piano, que corre na linha entre o perverso e o feliz, introduz a voz demoníaca de Mike Patton, que rapidamente muda para um tom melodioso, fruto de um dos mais prendados aparelhos vocais vistos no rock. Não há que enganar, os Faith No More estão de volta. E uma prova ainda maior disso é a fantástica Superhero, que de certa forma, serve para exemplificar o que este Sol Invictus representa: 40 minutos de incríveis linhas de baixo tiradas dos melhores momentos da História do metal, uma atmosfera gótica ditada pelo sempre relevante piano e riffs de guitarra que nos fazem sentir muitas saudades do funk metal dos anos 80 e perguntar-nos o que andam a fazer os Living Colour e os Jane’s Addiction.

Liricamente, Sol Invictus coloca-se muito na mesma linha de trabalhos anteriores. Aqui, Mike Patton continua a explorar os recantos mais negros e sádicos da sua mente, dando-nos imagens mentais bastante negras e até macabras, que podem ir do mais abstracto para um registo de crítica social. “Like an American drug/Makes a mean cock grow/…kill a priest/Makes a superman of glass” – grunhe Patton em Superhero.  É especialmente entusiasmante ver como a banda depois conjuga estas letras com uma sonoridade, que apesar de ter o seu peso, está longe de ser hostil e consegue até encontrar o seu funk.

Apesar de tudo, os Faith No More sempre foram muito rítmicos e capazes de nos oferecer algumas melodias verdadeiramente orelhudas. Separation Anxiety é um bom exemplo: o fantástico trabalho de baixo (um dos pontos mais fortes do disco) de Billy Gould, simultaneamente pesado e ritmado abre bem o caminho para os versos de Patton que são entregues esquizofrenicamente entre um registo gritado, quasi-rappado e afinadamente cantado. E o que dizer do épico refrão de Motherfucker? Talvez que não é o mais apto para se ouvir se são daquelas pessoas que gostam de cantarolar nos transportes públicos.

Voltando à primeira parte do disco, é preciso ainda destacar Cone of Shame, uma das faixas mais sinistras e atmosféricas do disco, distinguida ainda por uns cinemáticos latidos de cães que introduzem o climax verdadeiramente macabro e Edgar Allan Poe-esco da faixa, que brinca um pouco com o post-hardcore. Contraposta com esta imagem, surge Rise of The Fall, que com a sua onda nouvelle vague francesa, acaba sendo uma espécie de carta fora do baralho, oferecendo até chance para bailado. Mas claro, num beco sujo e escuro.

O que é verdadeiramente bom neste álbum e que faz com que seja um dos melhores lançamentos do ano é que é um disco cujo som mostra como uma banda consegue dominar a sua identidade e voltar a soar fresca e perigosa sem necessariamente ter de ser arrojada. Isto ganha todo um novo significado quando estamos a falar de uma das bandas mainstream mais experimentalistas que já existiram. Sol Invictus pode ser colocado na linha de álbuns recentes como Wasting Light e … Like Clockwork na medida em a simplicidade e a abordagem directa ao assunto compensaram grandemente. E a bem dizer, há quanto tempo não se ouvia um disco como este? Bandas da estirpe dos Faith No More são já uma espécie rara e num mundo por vezes inundado de revivalismos fúteis e estéreis, ainda bem que ainda há quem saiba fazê-lo como deve ser.

Nota: 8,5/10

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.