thee-oh-sees-pic

Mutilator Defeated at Last, de Thee Oh Sees: gigantes em desfile

Gosto de imaginar que foi feliz o dia em que o californiano de Rhode Island, de nome John Dwyer, pegou pela primeira vez numa guitarra para gravar música. Iniciava um percurso musical com tanto de prolífero quanto de arrebatador, com o ímpeto do garage rock nas solas, a fúria punk a correr-lhe pelas veias e uma ligeira onda de psicadelismo  na mente. Corria o ano de 1997, e duas décadas, catorze lançamentos e um número mais do que razoável de mudanças de nome e alinhamento desde então conduziram-nos a este ponto: vindos de uma série de impressionantes (ainda que nunca completamente convincentes) álbuns, eis que os Thee Oh Sees nos trazem Mutilator Defeated at Last que, apesar de ainda pedir aperfeiçoamento, é possivelmente o melhor trabalho do grupo até à data.

Do modo a que já habituou, a banda de São Francisco não poupa no peso, abrangência e agressividade dos seus riffs, que se perpetuam não raro por músicas inteiras em sucessivas e hipnóticas reproduções. Algo que já não é novidade, e que demonstra a astúcia dos Thee Oh Sees em apoiar-se no seu lado forte, minimizando os prejuízos: aquilo que lhes falta em termos de progressão (alguém ainda tem de explicar a Dwyer e companhia que uma malha repetida por quatro ou cinco minutos não bem é uma música), eles compensam em moeda de mutilação. Veja-se, para exemplo, os incansáveis motifs da introdutora Web, a dilacerante Withered Hand ou a brutal intensidade de Lupine Ossuary.

CF-055cover

De facto, os verdadeiros progressos aparecem não na criatividade, mas na execução, técnica e sonoridade adoptadas pela banda. As guitarras apoiam-se na distorção grave, espessa e pesada que caracterizou alguns dos maiores bangers da discografia dos Thee Oh Sees, complementadas por um baixo mais presente na mistura e infinitamente melhor trabalhado e uma bateria incisiva, com os pratos sempre à mão. Se tanto aqui como no predecessor Drop as inclinações instrumentais pediam uma produção um pouco mais cacófona, não deixa de ser refrescante ouvir com maior clareza os assombrantes sintetizadores por detrás da voz sempre tão aguda e indescodificável de John Dwyer.

Mutilator Defeated at Last também se abre à exploração de novas tendências, que na sua maioria resultam muito bem quando aliados à sonoridade típica dos californianos. O frenesim de Lupine Ossuary, por exemplo, não é muito diferente daquele encontrado em muitos discos de metal, enquanto que a raiva punk de que há pouco falávamos é inteiramente canalizada na faixa Rogue Planet, e Turned Out Light não resiste em lembrar nuances de um blues mais encorpado do que apologético. As maiores surpresas vêm, no entanto, com o chegar da segunda metade do disco, e o abrandar do ritmo vertiginoso até aí mantido. As músicas mais paradas, que em esforços anteriores ainda sabiam a filler ou a uns Thee Oh Sees a jogar fora de casa, adquirem aqui personalidades muito suas – falo dos entorpecentes órgãos em Sticky Hulks ou da elegância dos arpeggios de Holy Smoke.

http://www.youtube.com/watch?v=Skc0ohXHLro

Apesar de ainda não ser desta que recebemos dos Thee Oh Sees um disco verdadeiramente estelar, seguro será dizer que encontramos em Mutilator um grupo mais firme, menos negligente e a fazer aquilo que melhor sabe. Os seus melhores momentos podem não ter tanto poderio quanto o material mais sonante de Floating Coffin ou Carrion Crawler/The Dream, mas como uno Mutilator Defeated at Last é igualmente pungente e está acima em eficácia, perícia e entrega. Se é aparente que o máximo potencial da banda ainda não foi alcançado, e a julgar pelo ritmo do seu output, sugiro que esperemos pelo próximo ano. Enquanto os Thee Oh Sees souberem jogar as suas cartas, é provável que continuemos a ter sorte.

Nota: 7.6/10

Mais Artigos
Baby Yoda
Baby Yoda tem nome revelado em ‘The Mandalorian’