Quem começou a acompanhar o Festival da Eurovisão apenas no novo milénio pode já estar habituado às mais espalhafatosas interpretações – trocas de roupa, truques de magia, fogo de artifício, fantoches, máquinas de vento poderosíssimas – e pode mesmo achar, olhando para o longo arquivo do festival, que antigamente era uma coisa mais séria. Mas por trás da dignidade das orquestras e das apresentações politicamente corretas, em inglês e francês, sempre houve espaço para a actuações disruptivas. Em semana de festival em Viena, o Espalha-Factos faz uma colectânea de algumas das mais memoráveis.

  • 1981, Reino Unido

Buck FizzMaking Your Mind Up

http://www.youtube.com/watch?v=2YPw5S-hctw

Há quem diga que a atenção da Eurovisão se deixou de se focar só nas canções por causa da canção britânica de 1981. Num ano muito renhido, os Buck Fizz representaram o Reino Unido e venceram, não graças a uma canção que muitos ainda não consideram ter sido a mais forte do concurso, mas à maneira como a entregaram à Europa – bamboleantes, e a terminar com menos roupa do que tinham começado. O truque das saias irritou muitos concorrentes, mas valeu-lhes o primeiro lugar. Nesse ano, Portugal enviava o igualmente bizarro Playback de Carlos Paião, mas ficaria em penúltimo lugar.

 

  • 2006, Islândia

Silvia Night – Congratulations

http://www.youtube.com/watch?v=LEos9VLtgFU

Nem sempre haverá bom ambiente entre delegações europeias, mas uma postura como a de Silvia Night em 2006 dificilmente ajudará. Congratulations foi a canção mais “full of herself” do ano – um ano em que Lituânia levava We Are The Winners – e a letra fazia explicitamente troça de todos os outros: “I’ll freaking win / too bad for all the others”, “My song – totally cool, not yesterday’s news / it is hot okay, really not too gay“. Além do tema, que poucos acharam engraçado, a própria Silvia não caiu nas graças, com um mau-humor nos ensaios que se tornou histórico, e onde chegou a lançar uns “fuck you” a quem assistia. Em Atenas, os agudos histéricos e a coreografia atabalhoada não convenceram a Europa, e Silvia nem chegou pisar o palco da final. Aos votantes na Europa, mandou mais uns “fuck you”.

 

  • 1979, Suíça

Peter, Sue & MarcTrödler und Co

http://www.youtube.com/watch?v=iAq5u34wOUc

Peter, Sue & Marc ficaram na história da Eurovisão como o grupo que mais vezes participou no festival – quatro, uma em cada língua oficial da Suíça. Ainda que se tenham tornado um grupo bem-sucedido fora do contexto eurovisivo (coisa rara), provavelmente a sua atuação mais memorável foi a que levaram a Jerusalém em 1979. Trödler und Co traduz-se mais ou menos como Sucateiro e Companhia, e fala sobre uma banda que faz música com o que encontrou no jardim da avó. E como não basta dizê-lo, o grupo levou as palavras à letra, tocando com sacos de plástico, tesouras de podar, tampas de caixotes do lixo e um memorável solo de regador. Ficaram em 10º lugar, atrás do português Sobe, Sobe, Balão Sobe.

 

  • 1987, Israel

Lazy BumsShir habatlanim

http://http://www.youtube.com/watch?v=L2oOiI55-g4

Israel frequentemente usa as suas canções eurovisivas como um ato político, mas a canção que o país enviou ao festival de 1987 na Suíça quase provocou uma crise governamental. Numa das primeiras atuações puramente humorísticas da Eurovisão, o grupo de comediantes Lazy Bums levou à Europa a canção do vagabundo, traduzindo à letra. Fala sobre o dia a dia pouco glorioso de um desempregado, e enquanto um dos humoristas canta uma quadra, o outro circula pelo palco em tropelias aleatórias. O refrão – “hupa hule, hule, hule / hupa hule, hula, hupa pa” – significa o mesmo em hebreu do que em português: absolutamente nada. O ministro da cultura israelita ameaçou demitir-se caso a decisão de enviar a canção fosse para a frente, mas acabou por recuar. Os israelitas terminaram em oitavo lugar.

Até à grande final de sábado, fica a conhecer mais 16 apresentações bizarras nos palcos eurovisivos.