O Teatro Maria Matos propôs-se como espaço para debater, observar e experienciar a performatividade de género, num ciclo com oito espetáculos, cinco conferências, dois workshops e uma festa de encerramento no LuxFrágil. Gender Trouble estreou a 5 de maio e está disposto a “reconfigurar o pensamento e as formas de ação em torno do género e das sexualidades” até dia 24 de junho.

Faz 25 anos que Gender Trouble. Feminism and the Subversion of Identity, da filósofa Judith Butler, foi publicado. A obra “continua a marcar não só a investigação académica, e os movimentos feministas e LGBTQI (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgénero e Intersexo), como também a criação artística”, refere Salomé Coelho, uma das curadoras.  Butler afirma que o género não é uma categoria ontológica, mas que se constrói, sendo, em última análise, uma performance. Salomé Coelho afirma que: Com este conceito, Butler questiona as normas institucionais, legais e culturais que estabelecem uma coerência discursiva entre sexo, género e desejo. Por outras palavras, Butler desafia o pressuposto de que existe uma correspondência entre um sexo específico, uma determinada identidade de género e um desejo pelo “sexo oposto”.”

Conferências

Das cinco conferências programadas, restam três. Dia 19 de maio, a palestiniana Shahd Wadi, doutorada em Estudos Feministas na Universidade de Coimbra, irá apresentar “uma intervenção no seguimento da tese, intitulada Corpos na trouxa: Histórias-artísticas-de-vida de mulheres palestinianas no exílio, em que aborda as narrativas artísticas, produzidas no contexto da ocupação israelita da Palestina”, enquanto Carlos Motta “parte do seu trabalho e de outros artistas da América-Latina, para reflectir sobre a imposição violenta da sexualidade”. No dia 26 de maio, Ann Pellegrini, professora de Estudos de Performance e Análise Social e Cultural na Universidade de Nova Iorque, fará apenas uma abordagem geral aos pontos em comum entre os Estudos de Performance e os Estudos de Género e Sexualidade. O dia 2 de junho é da própria Judith Butler, que “nunca deixou de marcar presença no debate acerca do género e da sexualidade e continuou a inspirar académicos, feministas, artistas e ativistas pelos direitos das comunidades LGBTQI”. As conferências, transmitidas em direto por streaming, são de entrada livre (sujeita à lotação da sala), mediante levantamento do bilhete no próprio dia, a partir das 15h, tendo início às 18h30.

Espetáculos

Cascas d’OvO, de Lander Patrick, é o próximo espetáculo, dia 21 de maio, às 21h30. “A peça é definida por uma tensão, categorizando a relação entre dois homens através da negação”. No dia 23, às 21h30, Striptease e Bomberos con grandes mangueras, de Pere Faura, compara de maneira irónica e divertida o acontecimento teatral com a arte de despir-se e revisita o imaginário pornográfico como prática coreográfica. Dia 30 e 31, das 11h30 às 13h30 e das 15h30 às 17h30, Rosana Cade apresenta Walking:Holding, promovendo “um desafio aos preconceitos e uma homenagem à individualidade e às diferenças de cada um”. Também no dia 31, às 21h30, Vera Mantero e Mariana Tengner Barros apresentam duas peças, uma misteriosa Coisa, disse o e. e. cummings e Après le Bain, respetivamente. Nos dias 6 e 7 de junho, às 11h e às 17h, Mette Ingvartsen usa, em 69 Positions,  “o seu próprio corpo como território para explorar questões não resolvidas sobre a sexualidade nas práticas artísticas contemporâneas”. Para terminar, de 18 a 24 de junho (exceto 22), Hermaphrodita, de Karnart, sobe a palco. “Se HERMAPHRODITA, o poema, acolhe na alma do seu autor [Eugénio de Castro], separados pelo suicídio do único, os dois feros e hostis irmãos, HERMAPHRODITA, o espetáculo, expõe dos mesmos a alma, una em corpos despojados, nus — também pelo direito à dignidade de todas as minorias de género”.

Workshops

Os dois workshops programados têm datas marcadas para dia 30 de maio e 6 e 7 de junho. Drag King é um workshop que permite aos seus participantes explorarem a sua masculinidade, “descobrindo a sua construção e brincando com ela, na perspetiva de ocupação desse lugar no espaço público”. Das 11h às 17h, é lecionado em espanhol por M en Conflicto, por um preço único de 7€. The body as a sound post-gender instrument introduz, durante dois dias, os seus participantes “na arte da performanceenquanto instrumento político, através da modificação dos corpos com recurso a diferentes tipos de próteses e da criação de identidades híbridas, que procuram ultrapassar dicotomias como natural/artificial, homem/máquina, humano/animal, homem/mulher, hetero/homo, arte/vida, ciência/pré-tecnologia, entre outras”. É lecionado em inglês e tem um preço único de 10€.

Vídeoarte e Festa de Encerramento

Dia 24 de maio, das 15h às 20h30, o programa Vídeo & Género, compilado por Teresa Furtado, “junta oito artistas de renome internacional, cujo trabalho no vídeo e no cinema experimental é influenciado pelo pensamento butleriano, ao questionar, subverter e recriar as normas, representações e práticas de  género e sexualidade, fazendo emergir novos discursos culturais identitários de subjetivação e autodeterminação”.

A festa de encerramento do ciclo Gender Trouble terá lugar dia 18 de junho, no LuxFrágil, e o -mente desafia oito artistas “a criar um objeto artístico de oito minutos dedicado ao tema do ciclo que agora encerra. Cada artista responde num formato à sua escolha, sujeito apenas às condições do espaço e aos desafios do tema. O LuxFrágil trata da festa com DJ à medida”.