fatal-2015

FATAL ’15: as raízes de ‘MIA’

O FATAL anda a espalhar teatro académico pela cidade de Lisboa e o Espalha-Factos não podia ficar de fora do acontecimento! Desta vez foi o ArTEC – Grupo de Teatro da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa a ocupar a sala do Teatro-Estúdio Mário Viegas e a oferecer-nos uma peça inspirada nas cores e ritmos africanos, a partir da obra do escritor moçambicano Mia Couto.

Chegados ao Largo do Picadeiro, lá está ele, nas traseiras do Teatro Municipal São Luiz. As portas abrem exatamente à hora marcada e, ao entrarmos no Teatro-Estúdio Mário Viegas, não demora a sermos chamados à sala e ocuparmos os nossos lugares. MIA é o nome escrito nos nossos bilhetes. Perante uma plateia muito composta, ouve-se tocar uma sineta. O espetáculo do ArTEC vai começar.

África é o rio onde o grupo foi beber para montar esta peça. Os intérpretes estão vestidos de preto, têm os rostos cobertos por máscaras tribais e movem-se ao som ritmado de batuques. Mia está em casa.

E que mágica casa! É com frases curtas e distanciadas que nos é contada a história de um homem que se deitou a dormir na terra e não mais conseguiu levantar a cabeça. Esta havia criado raízes! Raízes que davam a volta ao mundo!

11149335_404605579712205_6200592426029539360_n

A apresentação da história é deliciosamente cativante! O espetador é agarrado desde o primeiro instante à teatralidade que o grupo aplica na narração da curiosa história de Mia Couto. Entregam o texto com eficiência e vontade, mas o protagonista é o movimento!

A linguagem corporal é rainha nesta peça! Torna-se quase hipnotizante o efeito visual conseguido pelo movimento observado nos atores. A coreografia está no ponto em todos os momentos e funciona em perfeita articulação com os adereços que tão bem servem a história! Seja quando todos os vizinhos se juntam para tentar cavar, desenterrar e cortar as raízes da cabeça do homem que adormeceu, seja o próprio trabalho de entrelace na montagem das ‘raízes’ sobre o homem (que está muito bem em palco, há que ser referido), ou mesmo simplesmente nas entradas e saídas em cena! É fenomenal mesmo, tal o efeito visualmente poderoso conseguido nesta conjugação entre coreografia e adereços (que também precisam de ser positivamente destacados: a Lua, para onde a cabeça do homem é transplantada no final da história, está absolutamente linda).

Para dizer a verdade, seria complicado tornar aborrecida a história que explica como nasce o primeiro poeta, o primeiro homem com a cabeça na Lua. A história de Mia Couto é encantadora. Mas o grupo da Faculdade de Letras de Lisboa agarra-a a da forma certa e aproveita todo o potencial que ela tem para se transformar num maravilhoso espetáculo. Este é o ponto alto da peça, sem dúvida alguma.

11017370_404605683045528_1817400085141698064_n

Na transição para a segunda parte, não somos capazes de deixar de notar uma descida na energia e qualidade daquilo que nos é apresentado daí para a frente, comparativamente ao que vimos para trás. As opções de estruturação da peça, a cargo de Marcantonio Del Carlo – que dirige o ArTEC desde a sua fundação, há mais de 20 anos -, não se revelaram as mais apropriadas. A peça aponta falhas quanto à integração das diferentes partes que a constituem num todo coeso, capaz de entreter e nunca descativar o espetador ao longo de todo o tempo que dura. Há também uma necessidade de melhor ligação e transição entre os diferentes momentos que a constituem, como uma performance inteiramente musical, a declamação de entradas de um diário ou cartas que nos embrenham no universo de Mia Couto e ainda um momento humorístico com um personagem cómico e muito ‘clownesco’.

Há vários momentos muito cómicos na peça (começando logo com todos os suspiros e gritos por alento esperados de um homem cuja cabeça cresce raízes), e este personagem traz um novo elemento a MIA: a interação com o público, que se alia à descontração e à-vontade com que se apresenta em palco, arrancando mais uns quantos risos à plateia. Contudo, não está colocando no momento mais indicado – o enquadramento de um ‘comic relief’, isolado do restante conteúdo da peça, mesmo quando ela está prestes a terminar. Um bom personagem em não-tão-bom timing.

11056080_404605643045532_8396529611659298070_n

Ainda num outro plano, temos a música enquanto referência central de toda a peça. Muito bem aproveitado o facto de vários elementos do grupo tocarem instrumentos – desde cordas e sopro à percussão. O acompanhamento instrumental das cenas funciona muito bem, transportando o espetador para a atmosfera das mesmas e adicionando criatividade e entusiasmo à equação. O mesmo efeito não é conseguido com os números exclusivamente musicais, onde se passa para a interpretação de canções com vozes, vozes estas que seriam perfeitamente dispensáveis na apresentação, correspondendo ao ponto mais baixo da peça – as letras cantadas funcionariam muito melhor se apenas declamadas enquanto acompanhadas pelo instrumental, como no restante tempo da peça.

Com tudo o que se possa apontar, MIA é um espetáculo que transborda de criatividade! Com um fio de conduta relevante e cheio de potencial, o ArTEC opera não só uma sincera homenagem a Mia Couto mas uma peça diversificada que procura conjugar as mais variadas formas de arte. Um trabalho louvável que merece ser notado e elogiado pela entrega e talento com que os 22 jovens que constituem este grupo nos presentearam. Aplaudamos o teatro académico!

Fotografias de João Ramalho retiradas da página de facebook Marcantónio del Carlo Fãs

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.

Mais Artigos
tweetstorms
Super Follows. Nova funcionalidade do Twitter vai permitir subscrição de conteúdo exclusivo