Jimmy P

A festa do hip-hop nacional no Coliseu dos Recreios

A sexta-feira passada foi dia de festa para o hip-hop português no mítico Coliseu dos Recreios, em Lisboa. O Festival Hip-Hop Sou Eu tinha apostado em nomes de topo e num cartaz eclético e o público correspondeu, fazendo-se chegar cedo. Por volta das 19h45, já eram centenas aqueles que aguardavam na Rua das Portas de Santo Antão para entrar na sala de espetáculos, o que acabou por resultar num Coliseu composto.

Mic check, 1, 2, 3. Cabos ligados, luzes a postos, caps para a frente e para trás, o grande palco estava preparado para receber um serão de hip-hop inédito. A plateia era jovem e heterogénea, os lugares da frente já estavam devidamente ocupados.

Os primeiros a subir ao palco dão pelo nome de MGDRV. O ambiente ainda estava morno, mas o trio, constituído pelos rappers Skillaz e Yo Cliché, acompanhados nos pratos pelo produtor e DJ de serviço Apache, fez por alterar isso. Atentos ao que se faz lá fora, em termos de hip-hop contemporâneo, os MGDRV são possuidores de um rap mais alternativo, que funde outros estilos como o trap e a música electrónica, e puseram a multidão a “abanar a cabeça”.

ProfJam

Na senda dos MGDRV, pelos característicos instrumentais trap, ProfJam, o rapper português atualmente sediado em Londres, foi o que se seguiu. ProfJam é um animal de palco e demonstrou isso num dos concertos mais intensos da noite. O MC sente cada palavra que diz, cada rima que concretiza, cada verso que emana. Acompanhado pela sua comitiva da Astro Records – a editora independente/grupo de artistas onde se insere – começou a atuação com Nuvens, um tema mais antigo do rapper, antes da projeção mediática da Liga Knock Out e antes de navegar para um estilo de instrumentais mais moderno e desviante.

Deu ainda voz a Mike El Nite, rapper e DJ que o acompanhava na mesa de mistura – DJ on the fuckin’ mic, o lema do artista enquanto vocalista – para interpretar Mambo nº 1, um hit que contagiou o público, que entretanto já começava a despertar.

Em mais uma amostra do ecletismo do festival, Plutónio foi o representante de um rap mais africano, mais ligado aos PALOP e às comunidades africanas dos subúrbios lisboetas. Talvez fosse o artista mais outsider dentro de um cartaz com rappers que seguem mais ou menos uma linearidade musical e que se assumem como parte de um movimento “Hip-Hop Tuga” que começou há mais de 20 anos, mesmo com artistas com esporádicos laivos electrónicos modernizantes na sua música. Mas não foi por isso que deixou de mostrar o seu valor, com uma performance competente e que acabou por conquistar a audiência de forma gradual.

Subúrbios são uma constante quando se fala de rap português, sendo os da capital alguns dos mais produtivos. O eixo 2725 – código postal de Algueirão/Mem-Martins, em Sintra – vê-se cada vez melhor representado no panorama musical. E como já não é surpresa para ninguém, Bispo e GROGNation souberem dar a performance adequada ao nível da sala onde tocavam.

Bispo

Bispo, rapper que se encontra a preparar o primeiro álbum, depois do EP BispoTerapia, editado o ano passado, tem crescido a olhos vistos, tenho alcançado um certo núcleo duro de fãs, não só na sua zona de influência direta, mas também um pouco por todos os palcos que pisa. 2725 é universal, diz o próprio artista, e a sua Mentalidade Free não o deixa prender-se a nenhum espaço geográfico. Apesar disso, e como a grande maioria dos artistas presentes – incluindo grandes nomes de longa data do hip-hop, nunca tinha ascendido ao palco do Coliseu dos Recreios.

Realizou-se um sonho e Bispo, visivelmente feliz, chamou a avó ao palco, que, ao ver o neto atuar pela primeira vez, emocionada, cantou as letras que sabia e tinha na ponta da língua.

Os GROGNation são já uma referência marcada na nova escola do Hip-Hop português. O seu profissionalismo é notório. Depois de duas mixtapes e um EP editados nos últimos anos, o seu rápido crescimento e o seu enorme talento permitiu que subissem, no verão passado, ao palco do MEO Sudoeste, no Moche Room. Já percorreram o país de lés-a-lés, este ano estreiam-se no Sumol Summer Fest, mas nunca tinham atuado no Coliseu.

Grognation

Deram sem dúvida um dos mais intensos e melhores concertos da noite, o público já conhece os seus cinco Shot’s de Grog favoritos e tem as letras bem memorizadas. Bem coordenados, os cinco elementos apostaram – como todos os seus colegas de palco – nos seus maiores sucessos e singles, o que resultou perfeitamente ao vivo num concerto onde temas como Distante, Casa dos 20 (com a participação no Coliseu do veterano NBC) e Dropa Fogo não faltaram.

Tekilla foi o host da noite – uma das clássicas funções de determinado MC num evento de hip-hop – mas ainda teve tempo para lançar para partilhar versos com o público. Em sintonia com DJ Madruga, interpretou o seu último single Contra Factos, mas também rimou a sua parte de Sinónimo, entre outras faixas.

Mas a noite não estava nem sequer perto do fim. Dillaz foi o artista que substituiu no palco o apresentador do evento. O rapper é um fenómeno e, por entre refrões cantados, rimas bem conduzidas com o flow característico ou instrumentais boom-bap (além das temáticas que retrata na sua música) encantou e seduziu um batalhão de seguidores, criando a sua própria devota legião de fãs. Embora com uma carreira curta, já esteve em digressão por esse país fora e conta duas mãos cheias de êxitos. Se Olhares para o Caminho, Não Sejas Agressiva, Pedras no meu Sapato, Agarra Q’é Ladrão ou Até que Aprendas foram apenas alguns dos temas interpretados por Dillaz e pela sua crew de MC’s e DJ.  O rapper mostrou a razão de ser considerado uma das maiores promessas do rap português. O público sabia as letras de cor e não se conteve a entoar os refrões que ecoaram pelo Coliseu dos Recreios.

Dillaz

Foi de Jimmy P a penúltima atuação da noite. Com um disco novo na bagagem, Fvmily F1rst, o rapper fez-se acompanhar pela sua banda de músicos que têm o exigente trabalho de converter instrumentais produzidos à moda antiga do hip-hop – recorrendo a samples – para música tocada ao vivo por instrumentos musicais. Jimmy P, dotado de um talento equivalente à sua humildade, tem a experiência de palco e sabe pôr um público a saltar, a bater palmas, ou até acompanhar uma coreografia improvisada. Não faltaram os singles e os êxitos – O Que Vai Ser, Warrior, Storytellers, e, claro, On Fire, para delícia do público feminino.

Jimmy P

O esquema clássico de DJ’s e MC’s voltou para o último concerto do Festival Hip-Hop Sou Eu. Mundo Segundo e Sam The Kid subiram ao palco debaixo de aplausos. A dupla de veteranos MC’s e produtores vai lançar um álbum em conjunto, este ano, que promete encher as medidas dos fãs e cumprir todas as expectativas. A fasquia está alta – e eles sabem que nós sabemos disso. Contudo, e apesar de não terem nenhum projeto editado em conjunto, até ao momento, os dois artistas têm vindo a atuar como dupla nos últimos anos, interpretando os maiores êxitos de cada um, dos seus discos pessoais, ou em grupo, como no caso dos Dealema (onde Mundo Segundo é rapper e produtor de instrumentais) e um tema revelado há dois anos, aquela que foi a primeira música a tornar-se pública deste álbum ainda por sair, Gaia-Chelas.

Ora Sam The Kid, ora Mundo Segundo. Não Percebes, Bate Palmas, 16/12/95 (com a Sofia original em palco), Era uma Vez, Poetas de Karaoke e Crise de Identidade, entre muitos outros; estiveram presentes todos os grandes temas, para grande alvoroço da multidão.

E trouxeram convidados. NBC, mais uma vez chamado ao palco, para cantar os refrões de Raio de Luz e Juventude é Mentalidade; e Maze, pertencente à Escola dos 90, juntamente com Mundo Segundo e para interpretar o clássico Brilhantes Diamantes.

Mas o melhor ainda estava para vir, Mundo e Sam The Kid deixaram-no quase para o fim – a primeira vez ao vivo de Tu Não Sabes, o recém-lançado single do álbum em conjunto (e a primeira música com versão de estúdio a a ver a luz do dia), que o público já abraçou como um clássico e que conta com centenas de milhar de visualizações no YouTube, apenas escassos dias após o lançamento. A união entre Gaia e Chelas concretizou-se da melhor forma.

E é esta união entre Gaia e Chelas que se celebrou no Coliseu dos Recreios, esta união entre Lisboa e Porto, esta união entre diferentes estilos e gerações do Hip-Hop nacional, que se fez entre artistas e público numa das maiores salas de espetáculo nacionais. Chegámos ao fim cansados, depois de muitos braços no ar, muitas letras cantadas a acompanhar os artistas e um elevado número de headbangs ao estilo do Hip-Hop, mas felizes com o serão que tínhamos passado.

Fotografias de Beatriz Silva

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