O pano abre e nas traves das luzes estão pendurados os sete bailarinos que compõe o novo espetáculo do coreógrafo Victor Hugo Pontes. A imagem inicial é das mais marcantes de todo o espetáculo. Ali, em suspensão, a queda é evidente, mas quando e como irá acontecer? O momento em que se libertarão de tudo é incerto.

Como já tem sido típico deste coreógrafo, o palco não é algo plano mas sim um espaço de exploração do movimento a diferentes níveis e dimensões. Desta vez, apresenta uma rampa em onda, semelhante a um parque de skate. Depois de subir a rampa nada mais existe, apenas o abismo e o vazio onde os bailarinos tantas vezes vão cair.

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O primeiro bailarino deixa-se cair com barulho. Um a um os outros seguem-no. Fall é o nome do novo espetáculo do vimaranense Victor Hugo Pontes, que se estreou em no Rivoli em novembro do ano passado e que já passou por Guimarães e Braga. A vez de Lisboa chegou, e entre 27 e 30 de abril, a queda foi explorada no Teatro Municipal Maria Matos. Depois de Fuga sem fim (2011), A Ballet Story (2012), ou de Zoo (2013), Victor Hugo Pontes voltou a explorar uma temática humana: a  queda como algo intrínseco à própria existência.

“Em Fall, será mais imediato observar a queda física do que a outra queda- uma é concreta e terrena, a outra é metafórica e insubstancial-, embora não se tenha traçado uma linha de fronteira. Desde logo, porque “caímos de amor” tal como “caímos no chão”, ou “caímos por terra” no fim da vida da mesma maneira que as folhas das árvores “caem por terra” no outono, que em inglês se diz fall.”

Quedas, saltos, força e pegas, muitas pegas. Estas são as palavras que retratam a coreografia. Já há algum tempo que não assistia a um espetáculo de um coreógrafo português que se centra quase unicamente em lifts e em equilíbrios que exigem um elevado grau de força. Neste espetáculo, retrata-se o ato, deliberado ou não, de cair e da capacidade, ou não, de se ser capaz de se pôr a pé.

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O carácter visual é extremamente forte e marcante. Victor Hugo trabalha as suas peças sempre à volta do mesmo tipo de movimento que já conseguimos definir como seu. Os bailarinos já começam a tornar-se familiares nas suas peças e isso ainda facilita mais a identificação de um espetáculo como sendo da sua autoria.

A perfeição de Marco, a leveza e agilidade de Anaísa e a força de Valter merecem destaque neste espetáculo. As acrobacias quase circenses fazem-nos fechar os olhos aos pequenos detalhes que falham. A exigência física deste espetáculo e a forma como arriscam levam a que se desculpe estas falhas, uma vez que num espetáculo centrado em quedas e em suspensões é impossível prever todos os passos.

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O desenho de luz é algo marcante. A harmonia com que se relaciona com os movimentos dos bailarinos leva a direccionar o olhar do espectador sem ditar nenhuma regra específica ou uma ordem. A música já não causa tanto impacto. Há silêncios e quebras que talvez sejam desnecessários mas a incerteza da queda leva também a que por momentos pareça que o mundo pára e nada se ouve ou sente.

Por vezes, a coreografia torna-se um pouco repetitiva e conseguimos prever o movimento que se segue. Num espetáculo onde se primazia a queda, talvez fosse de esperar mais imprevistos e suspense. No entanto, não nos podemos esquecer que os interpretes são pessoas, pessoas que por mais que estudem o movimento e trabalhem o corpo, vão humanamente precaver-se de uma queda com lesões. O limbo entre o cair de forma controlada e o cair sem intenção é levado ao extremo em Fall.

Os bailarinos acabam presos ao chão, com a vida virada ao contrário. Se no inicio a força da gravidade parecia não existir, chegado ao fim do espetáculo ela está mais presente que nunca e a queda é iminente.

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Para além de Fall, Victor Hugo Pontes apresentou Cair, um espetáculo para crianças.

Fall está nos antípodas de Cair. Em Fall, estamos sempre e queda, no Cair, procura-se um lugar onde não se  cai e onde não existe gravidade.”

Direção e Coreografia: Victor Hugo Pontes

Cenografia: F. Ribeiro com fotografia de João Paulo Serafim

Desenho de luz e direção técnica: Wilma Moutinho

Música Original:  Rui Lima e Sérgio Martins

Interpretação: Anaísa Lopes, Ángela Díaz Quintela, António Torres, Daniela Cruz, Diogo Almeida, Marco da Silva Ferreira, Valter Fernandes