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IndieLisboa’15: a virtude de uma vida idílica

No quarto dia do festival mais independente de Lisboa, o Espalha-Factos teve a oportunidade de ver Rabo de Peixe, filme de Joaquim Pinto que foi alvo de uma nova montagem. E ainda, já em plena noite de domingo, um dos últimos trabalhos de Alex Ross Perry, Listen Up Philip.

Estes são dois filmes completamente diferentes mas há em ambos uma procura pela natureza, a calma. Há um buscar por experiências idílicas de felicidade e se em Rabo de Peixe temos um documentário sobre uma população nos Açores, em Listen Up Philip temos um escritor neurótico que tenta encontrar refugiu no campo. O primeiro filme é uma sincera e lindíssima homenagem à vida e tradições de um povo tão resistente como as rochas do atlântico onde vivem. O segundo é uma comédia desbocada que promete meter toda a plateia a rir.

Rabo de Peixe – 8.5/10

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Joaquim Pinto – que se encontrava presente na sessão no Cinema São Jorge -, em conjunto com Nuno Leonel estreiam agora a versão alargada de Rabo de Peixe. Um director’s cut que nos revela muito mais das íntimas imagens e de uma população portuguesa que vive para o mar e no mar. Este é um documentário fantástico e um cinema do ultra real. Pinto e Leonel conseguem encontrar inspiração nas mais pequenas coisas e Rabo de Peixe é a prova disso mesmo.

Antes de tudo este é um retrato quase mágico dos habitantes de uma pequena aldeia na ilha de S.Miguel. Os realizadores conseguiram captar a essência dos seus modos de vida e conseguiram integrar-se no meio das suas tradições e hábitos. A forma tão familiar como as pessoas já tratavam a câmera era adorável. As crianças riam-se, os idosos olhavam com curiosidade e os pescadores queriam-se mostrar ao olhar atento da lente.

Acompanhando não só a vida de Pedro, personagem principal, mas a de toda uma população, este documentário mostra-nos até as tradições mais antigas que vão definindo estas pessoas – descendentes de árabes – de uma forma tão real, mas tão bonita que é impossível ao espectador ficar indiferente. O que liga os habitantes de Rabo de Peixe a Portugal é o mar e é ao mar que eles dedicam a vida. Uma vida árdua, uma vida honesta e trabalhosa… Mas uma vida que comunga do elemento mais característico de toda uma nação.

Listen Up Philip – 7,5/10

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Uma das mais recentes obras de Alex Ross Perry e, depois de Color Wheel ter feito parte da secção competitiva do IndieLisboa de 2012, Listen Up Philip promete fazer a plateia rir com o seu argumento perspicaz, acutilante e até algo erudito, num quase tom de auto-bajulação.

Philip é um insensível neurótico, um escritor nova iorquino com um ego tão grande quanto as suas inseguranças. A pessoa que ele mais ama na vida é ele próprio e descarta namoradas como se se tratassem de camisas. Num tom muito à Woody Allen, o argumento de Perry vai seguindo a vida deste sujeito tão odioso – Jason Schwartzman está irrepreensível – mas ao mesmo tempo vai dando um lado cada vez mais humano a esta personagem que, no seio da plateia, vai gerando os mais díspares sentimentos, um misto de contradições entre o amor e ódio.

Se o argumento e a direcção de actores é, sem margem para dúvidas, os pontos fortes do filme, a realização é talvez o ponto mais fraco, ou talvez o que cause mais estranheza. Alex Ross Perry já denota um certo profissionalismo o que nos leva a considerar que a escala de planos usada neste filme foi intencional. Mas sendo assim intencional, Perry tomou das piores decisões na concretização deste projecto. O espectador nunca tem noção do espaço, o plano de Perry é sempre demasiado fechado, cerrado e cansativo. Ele leva até à exaustão o uso do grande plano e o público ressente isso. O filme torna-se mais pesado sem necessidade.

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