Em dia de liberdade, a Barraca estreou uma peça sobre o fundador de Portugal: Afonso Henriques. Encenada por Hélder Costa, com interpretações de Adérito Lopes, João Maria Pinto, Rúben Garcia, Sérgio Moras e Samuel Moura, contou ainda com a participação de 20 alunos do Curso de Artes do Espectáculo do Instituto para o Desenvolvimento Social. A peça aproveita a conquista e formação do reino de Portucale para fazer uma crítica à sociedade atual. 

Já passaram uns bons aninhos desde a formação de Portugal como país. Afonso Henriques é uma figura incontornável da nossa história. Desta vez, o primeiro rei português sobe a palco para nos relembrar que os anos passam, mas há problemas que são intemporais.

O elenco entra pelo público e a primeira fase da peça inicia-se: é preciso criar unidade no reino. As disputas são inúmeras, desde as desavenças com a sua mãe às intrigas criadas pelos fidalgos. Para o encenador Hélder Costa“Aquilo começou com a necessidade de criar a unidade entre aqueles baronetes, porque o povo está sempre a querer a unidade, os outros é que não e utilizam a divisão para dominar. ” Também no século XXI é feita essa busca através de organizações não governamentais, dos Governos ou da União Europeia.

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Numa segunda fase, surge um outro problema, para se formar um reino é necessário o pagamento de uma bula ao Papa, mas como será possível se Portugal não tem recursos para o fazer? Surgem cardeais e interesses numa crítica que se estende aos dias de hoje, em que o pagamento à troika é equiparado a esta bula. Por fim, existe uma luta pelo pluralismo cultural. Em cena, aparecerem castelhanos, muçulmanos e portugueses. Hélder Costa refere que hoje em dia existe uma necessidade de aproximação das culturas, que é constantemente violada, como em casos como os refugiados que morreram no Mediterrâneo.

Estas são as três partes de uma história sustentada por uma linguagem irónica como é hábito de Hélder Costa. Para o encenador, o humor é fundamental no teatro e podemos encontrá-lo também no dia-a-dia. O encenador dá exemplo: “Se você não se ri do discurso do Cavaco Silva é porque já está tão triste que não lhe dá vontade de rir, mas o humor está lá. ” 

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A peça Afonso Henriques é um exemplo de como as personalidades da História podem fazer um confronto com atualidade. Energia, coragem e determinação são as três condições que Hélder Costa aponta para a formação de uma figura histórica. Ao longo do espetáculo, Afonso Henriques (Ruben Garcia) é exposto como um inovador que conseguiu a mudança pelo confronto com a sua mãe Teresa, com a igreja e à própria corte. No final, há um conselho para o seu filho D.Sancho que una o que ele conquistou. D. Sancho acaba por cumprir a promessa e torna-se o povoador.

A peça que já estava a ser pensada desde a Guimarães- Capital Europeia da Cultura teve a presença especial de 20 alunos estagiários do Curso de Artes do Espetáculo. Os alunos tiveram papéis determinantes na peça, como figuras do povo, D.Afonso VII, o cardeal, o Papa, entre outras personagens. Hélder Costa acompanhou os alunos e afirma que há talento. O único pensamento que lhe ocorreu sempre foi :“Vou pô-los a fazer”. Ao longo dos ensaios tentou ensinar com delicadeza, porque o objetivo era estimular a aprendizagem e suscitar o gosto pelo teatro.

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A peça estará em cena até dia 5 de julho na sala 1 do  TeatroCinearte. Quanto há estreia de hoje, para o encenador foi clara a escolha: “Foi de propósito! Esta é a marca de como para nós é o 25 de abril. “

Fotografias de Luís Rocha