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Entrevista EF. Catarina Wallenstein: “Quem é que eu sou daqui a um ano? Tenho essa curiosidade”

Queria ser cantora de ópera, mas acabou atriz! Nos palcos já trabalhou com Jorge Silva Melo e na sétima arte com Manoel de Oliveira. Ela é Catarina Wallenstein. A atriz que dá cara a mais uma personagem do universo Tennessee Williams, falou com o Espalha-Factos sobre o que tem sido o seu percurso. No seu camarim do Teatro São Luiz, onde até dia 26 de abril se pode ver Doce Pássaro da Juventude, Catarina falou da sua passagem pelo teatro, sobre o ‘doce pássaro’ que está a representar e sobre o teatro em Portugal.

Espalha-Factos: Como começou esta aventura pelo teatro?

Catarina Wallenstein: Esta aventura pelo teatro começou porque eu queria ser cantora de ópera. Eu estava numa escola chamada Fundação Musical dos Amigos das Crianças. Comecei aos 15 anos a ter aulas de canto com a minha mãe, que é cantora de ópera lírica. Eu queria ser cantora de ópera e fui para o atelier de teatro do Liceu Francês onde andava. Especificamente porque tinha a consciência que queria trabalhar o corpo, a presença e a construção de personagem. A ideia é ser uma intérprete completa, nesta ideia que a ópera é um espetáculo total em que tem tudo.

EF: O que te fez gostar tanto de representar e do teatro?

CW: Não sei concretamente. Lembro-me de uma conversa engraçada com a minha mãe no final de uma peça. Eu fiz dois anos esse atelier de teatro no Liceu Francês.  No segundo ano era um espetáculo mais difícil, andávamos a fazer  o Equívoco de Camus e a personagem era dura. Eu lembro-me de chegar ao final do primeiro espetáculo e da minha mãe me dizer: “Sabes, se ela for dura sempre da mesma maneira do princípio ao fim, tu não tens por onde crescer. Por isso tu podes, naturalmente dentro das contradições, podes deixá-la crescer, dar-lhe uma paleta de cores mais variada.” E o segundo espetáculo foi completamente diferente. Eu não sei bem identificar em quê. Claro que não foi na consciência de construção de personagem como eu tenho agora e que se vai tendo cada vez mais.  A personagem ganhou dimensão, deixou de ser uma coisa de dizer um papel para passar a ter um corpo e cabeça, tinha de ser mais humana. Lembro-me de um misto de fascínio e de poder. Eu aqui posso de facto ser o que eu quiser. É uma questão de eu ir descobrindo o que eu quero.

“É muito interessante o lado da inconsistência e da incoerência de nós próprios seres humanos”

EF: Hoje já há uma construção de personagem muito diferente dessa altura?

CW: Hoje há uma ginástica que nós criamos. Vamos passando por uma personagem e depois outra e outra. Há coisas básicas que nós nos perguntamos: como o que ela fala, como é que ela se mexe, porque é que ela se contraria. É muito interessante o lado da inconsistência e da incoerência de nós próprios seres humanos, então em palco quanto mais incoerente melhor.

EF: Isso também vai depender dos encenadores e dos autores que interpretas?

CW: Vai depender do encenador, vai depender da linguagem , vai depender de quem eu sou naquele dia. Por exemplo agora vamos repor A Gata em Telhado de Zinco Quente, vamos repor para o ano, mas já estou super ansiosa, porque penso: “Quem é que eu sou daqui a um ano?”

unnamed Gata em Telhado de Zinco Quente ©Jorge Gonçalves

EF: O público também te conhece pelos teus papéis em cinema. O que muda assim tanto do teatro para o cinema?

CW:Não sei se é o que muda para um ator em geral. Para mim, o tempo de trabalho dos ensaios de uma peça é o tempo de falhar e recomeçar e falhar e recomeçar outra vez. Na altura do final da carreira do espetáculo ainda não é um trabalho terminado. Na reposição do ano seguinte continuará a não ser um trabalho terminado. Esse lado dessa experimentação toda e desse tempo alargado de falhar e tentar e insistir e expor-se e não sei o quê está balizado no cinema.

EF:Relativamente aos Artistas Unidos, a colaboração começou em 2011 com a peça Não se Brinca com o Amor. O que mudou na tua relação com o teatro?

CW: Não sei porque eu não fiz muito teatro fora dos Artistas Unidos.  O que muda em relação ao teatro é que passo a fazer teatro, que era uma coisa que eu queria muito e que não estava a fazer. E é uma família que eu adoro. É mesmo uma família funcional, rígida, tudo uma coisa ultra profissional, mas afetivamente as pessoas estão muito ligadas umas às outras.

unnamed (3)Não se Brinca com o Amor ©Jorge Gonçalves

EF: E a peça atual? Que Doce Pássaro da Juventude é este?

CW: Para começar eu acho que é um espetáculo delicioso. O meu papel é relativamente pequenino, chama-se Heavenly, é uma jovem mulher já amargurada, vivida e foi impedida de viver o amor da vida dela. Teve o azar de contrair uma doença, por isso não vai ter descendência. Foi privada das suas asas, portanto ela já está morta, embalsamada praticamente e está nas mãos de um pai político que a usa como símbolo da juventude e da castidade.

“A Heavenly é uma personagem muito engraçada porque aparece muito pouco mas falam dela o tempo todo”

EF: Que diferença Heavenly pode fazer na peça?

CW:A Heavenly é uma personagem muito engraçada porque aparece muito pouco mas falam dela o tempo todo. É um motor de vários núcleos da peça, do protagonista, que é o Chance, que vai à cidade onde ela mora de onde ele vem para estar com ela. O conflito é mesmo esse, ele vem para estar com ela e não vão deixar ficar com ela nem vê-la. O pai quer usá-la como símbolo da castidade para ser aprovado nas suas campanhas políticas. Portanto, ela é uma bandeira, ela é um símbolo.

unnamed (1)Doce Pássaro da Juventude©Jorge Gonçalves

EF: Qual foi o desafio desta vez?

CW: Foi o trabalho mais na imobilidade e muito de corpo. Talvez a amargura de trazer um peso vertical, ou seja, não é uma amargura inquieta , mas é uma amargura que dá peso nos pés, uma verticalidade, alguma dureza e foi por aí que tentei trabalhar.

EF: Disseste numa entrevista que não tinhas visto filme Gata em Telhado de Zinco Quente na altura da estreia, já viste o filme?

CW: Ainda não vi!

EF: Ainda não viste?

CW: Ainda não, porque entretanto vamos repor. Eu não quero ver porque inconscientemente me pôr a copiar ou a julgar ou a dizer: “Ah, podias ter feito isto assim como ela ou não devias ter feito isto assado.” Acho que o trabalho tem de ser independente. Tenho medo de ser influenciada. Tenho mesmo medo. Seja por colegas que vêm ver que dizem isto ou aquilo, porque foi tão grande e não estou absolutamente segura do que estou a fazer e qualquer coisa vai alterar o rumo que eu e o Jorge Silva Melo desenhamos. Ele é quem eu de facto devo o primeiro respeito e a primeira confiança, não posso deixar de confiar em mim ao deixar de confiar nele.

EF: O filme do Doce Pássaro da Juventude também não viste?

CW: Não! Não vi, mas esse acho que vou ver porque é um papel pequenino e não é muito grande e estou mais segura daquilo que estou a fazer.

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EF: Os portugueses têm-se agarrado ao universo do Tennessee Williams?

CW: Acho que Tennessee Williams é um teatro que funciona. Acho que chega ao público mais intelectual mas também chega às pessoas que não estão tão habituadas a ver teatro. Tem temas, tem profundidade, mas é acessível e é muito vibrante é muito rápida. Há muitas coisas a acontecer e as encenações do Jorge Silva Melo têm também puxado muito por esse lado de confusões, barulhos aqui e ali , que é extremamente contemporâneo e nós estamos muito habituados a muita informação, a um bombardeamento, não é?  E este teatro tem esta rapidez e tem sons de todos os lados e cenas em simultâneo. Acho que por exemplo há pessoas menos habituadas a ir ao teatro ou a ver cinema português e dizem: “Ah, ás vezes é muito parado a arte e é uma chatice e os planos longos do Oliveira ou é um bocado chato ou muito teatral. Aqui não há esse lado porque de facto é uma coisa muito dinâmica.”

“Graças a Deus não tive a noção de que estava a trabalhar com o Oliveira”

EF: Trabalhaste com o Manoel Oliveira. Como o recordas?

CW: Graças a Deus não tive a noção de que estava a trabalhar com o Oliveira. Claro que tive a noção, mas não fiquei a prender.  Levantava-me para ir para a rodagem, filmava toda contente e não pensava muito: “uau é o Oliveira!” Pronto, estava contente, mas não foi assim uma coroa de louros. Na altura não pensei na responsabilidade. O filme foi montado e estreou e fomos ao Festival de Berlim, que era o ano do centenário, percebi que o filme estava em todos os festivais. Aí apercebi-me um bocadinho da responsabilidade, da quantidade de público e da expectativa.

EF: Foi bom ser depois…

CW: Foi porque o medo não me castrou. Na altura, não estava a pensar nisso na rodagem. Na rodagem estava concentrada com o que me estava a pedir com o ambiente que existia, com o texto que era preciso aprender, a marcação, a luz, o vento, o som, o normal. Ele fazia uma coisa muito engraçada, não sei se fazia sempre, mas numa longa que fiz aconteceu. Dirigia ao milímetro o corpo e mais ou menos a coreografia, três passos olhas para a direita, para a esquerda, inclinas a cabeça, o olhar, mas não dizia um olhar triste. Então de repente eu estava a habitar com os sentimentos da história e da maneira como ele lia a história e com um corpo que não era efetivamente eu que criava, porque ele tratava o cinema como um quadro vivo.

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EF: E como tem sido trabalhar com o Jorge Silva Melo?

CW: Uma maravilha! Eu gosto muito dele. É uma cabeça extraordinária, é incrível ouvir as histórias, o lado dramatúrgico, a visão dele.

EF: Ainda nesta peça, na folha de sala ele falava da generosidade para com os atores…

CW: Exatamente. Eu como atriz sinto o contrário. Eu sinto que ele confia muito em mim, mas sinto que tenho de confiar cegamente nele.

EF: E como vês o teatro em Portugal?

CW: Olha vejo menos do que queria! Os apoios estão a desaparecer por isso há menos teatro do que se queria, mas porque eu tenho estado a fazer estes últimos anos e não tenho conseguido ver muita coisa. Quando estamos em ensaios é tarde e noite, tarde e noite. Portanto eu não tenho visto tanto teatro. Claro que há muitos grupos e há pessoas novas e a batalhar e sem dinheiro. Há companhias antigas a perder subsídios, a fechar portas portanto há coisas escandalosas a acontecer e há perseverança e esperanças também a lutar. Acho que essencialmente não é uma questão só do meio teatral, é uma questão do meio artístico hoje em dia. Este Governo não está minimamente interessado em apoiar a cultura. De resto os outros anteriores também não e acho que a cultura é sempre negligenciada. Acho que agora as pessoas devagarinho começam a procurar finalmente mais teatro e mais cinema português.

“isto é um país que cria muito por metro quadrado”

EF: Existe bom teatro português?

CW: Claro que existe extraordinário teatro, extraordinários atores, extraordinários realizadores, as equipas técnicas são incríveis, há cenografias, pintores e poetas… Quer dizer, isto é um país que cria muito por metro quadrado. As pessoas criam muito e há pouca sede de saber o que se anda a criar. Durante algum tempo talvez se criássemos muito uns para os outros. Mas acho que está devagarinho a haver mais curiosidade de um público mais jovem a assistir às criações portuguesas em geral das várias áreas.

EF: E como atriz muito jovem, que conselhos dás aos atores mais jovens?

CW: Vão ao teatro! Vejam muito teatro, porque é isso que nos alimenta, não é? É saber o que esta população de hoje em dia está a dizer sobre este mundo de hoje em dia, como se escolhe falar, como se escolhe fazer luz, que tipo de atores é que eu gosto, que tipo de atores é que eu não gosto. Há todo um mundo por descobrir e acho que é importante fazer-se a escola. Não tenho nada contra, e toda a vida na escola do cinema houve realizadores que iam buscar atores que nunca tinham feito nada, não tenho nada contra, mas acho que a escola é uma condensação de experiências pelas quais acabaremos por passar no mercado de trabalho.Toda uma condensação de experiência que naqueles anos de escola nos aceleram os processos para estarem mais prontos e é para isso que serve.

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EF: Quais vão ser os teus projetos futuros?

CW: Tive esta maratona toda e a partir de maio é o deserto. Não faço ideia. Sei que repomos Doce Pássaro em janeiro do ano que vem e sei que faremos a Gata e fevereiro aqui em Lisboa. Portanto não sei como vai ser até lá. Voltar com a Gata a Lisboa vai ser importante. Muita gente que não conseguiu ver. Eu estou muito ansiosa. Como é que eu vou fazer aquilo daqui a um ano? Quem é que eu sou daqui a um ano? Tenho essa curiosidade.

Fotografias de Beatriz Nunes

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