Até dia 26 de abril, o Teatro da Cornucópia apresenta o “esboço” de uma encenação dirigida por Luís Miguel Cintra a sete jovens atores. Anabela Ribeiro, Margarida Correia, Lara Mesquita, António Dente, João Reixa, Rui Westermann e Maria Menezes foram os escolhidos entre 45 candidatos. A ajudá-los tiveram Miguel Sopas, ator, encenador e professor. Atelier Narciso é uma peça do século XVIII para atores que se estão a formar no século XXI.

O cenário não está acabado e deixa a descoberto os bastidores. É intencional, estamos perante um projeto que se desenvolveu durante um mês uma ação de formação a jovens atores. A experiência de Luís Miguel Cintra foi o ponto de partida e Miguel Sopas auxiliou no processo. Apesar de já ser alguém experiente no mundo da representação, Miguel Sopas afirma que aprendeu muito neste processo: “Procurava renovar e reciclar novas informações e pôr em causa aquilo que a experiência nos vai dando. Foi bom conhecer atores mais novos, ver confronto com Luís Miguel com eles e comigo mesmo.” O ator encontra em Luís Miguel Cintra uma referência e a curiosidade de trabalhar com ele já era antiga.

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“O texto foi talvez o objeto mais complexo”. – João Reixa

Agora teve a oportunidade de estar num projeto onde se explora a inexperiência de jovens atores e tenta-se transformá-la em matéria teatral. Para Miguel Sopas, o texto foi o elemento mais complicado. A comédia Narcisse foi a escolha para este projeto. A tradução portuguesa do século XVIII foi desafiante também para os intérpretes mais jovens. João Reixa terminou a Licenciatura na Escola Superior de Teatro e Cinema em setembro do ano passado e não quis deixar a oportunidade de trabalhar com Luís Miguel Cintra de lado. A admiração pelo encenador já vem desde o dia em que viu pela primeira vez uma peça da Cornucópia, há dez anos. Fez a audição e foi um dos escolhidos. Para o jovem ator, o texto foi um dos fatores mais complicados: “O texto foi talvez o objeto mais complexo. É português do século XVIII, portanto é uma linguagem de época que já não se usa, portanto há intenções e coisas que são ditas muito complicadas de perceber.”

A história representada gira em volta de promessas de casamentos entre várias personagens. Há um espelho e um retrato determinantes e uma personagem, Valério, que vive perdidamente apaixonada pelos dois elementos, sem saber que são ele próprio. Miguel Sopas refere que:” A peça glosa o mito do narciso, a figura mitológica que se apaixona pela sua própria imagem. O mito está aqui muito mastigadinho e muito digerido para uma outra dinâmica todo um outro contexto, mas o essencial está lá. Esta é uma questão da imagem, da relação com a própria imagem e do conhecer-se. A peça aborda a forma comonos conhecemos a nós próprios ou não. ”  Fonseca, a personagem de João, é uma personagem que mostra a verdade e denuncia a fachada e o ridículo destas promessas. João destaca que a sua personagem “é um gozão de primeira”.

“Trabalhar com o Luís Miguel é um trabalho de proximidade” – Margarida Correia

Margarida Correia é Angélica, uma personagem manipuladora e que faz tudo para atingir o objetivo de se casar com Valério. Margarida não encontra semelhanças com a personagem em si, mas identificou-se com o projeto. “Trabalhar com o Luís Miguel é um trabalho de proximidade”, afirma a a atriz no 2º ano do curso de Teatro na Escola Superior de Teatro e  Cinema. Para Margarida, o mais complicado foi mesmo o género de teatro sugerido neste projeto, a comédia. Nunca tinha feito o género, mas levou a peito o conselho de Luís Miguel Cintra“O truque da comédia é levar a sério o que se está a fazer”.  Desta experiência leva a admiração por Luís Miguel Cintra e pela Cornucópia.

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Este projeto que pretende ser algo inacabado deixa os jovens atores com vontade de mais. “Espero que este momento seja uma espécie de presságio do que vem aí”, refere João Reixa que vai participar na próxima produção da Cornucópia: Hamlet.  Para o público fica a vontade de continuar a ver esta nova geração de atores nos palcos portugueses.

Fotografias de Luís Santos