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Entrevista a João Leitão: “Este não era o super-herói que queria ter tido quando era pequeno”

João Leitão, realizador do Capitão Falcão, sentou-se a uma mesa com o Espalha-Factos e falou-nos de um projecto que demorou 6 anos a estar acabado. No meio de piadas, risos e desabafos o jovem realizador abriu-se ao EF facilmente e contou-nos um pouco das peripécias vividas ao longo destes últimos anos.

O gelo martelava contra as janelas da Biblioteca Nacional em Lisboa, numa tarde atípica que tinha começado solarenga. João Leitão encontrava-se já sentado numa longa mesa de madeira rodeada de cadeirões em pele, respondendo a perguntas da imprensa. Quem não soubesse diria que tínhamos sido transportados para uma cena do Capitão Falcão. Naquela sala austera, que se assemelhava uma divisão de reuniões do Estado Novo, podia, a qualquer momento, entrar o herói português para defender a pátria e a nação.

No entanto não foi isso que aconteceu. Naquela sala tão característica tivemos a oportunidade de falar com o realizador da mais recente obra humorística do cinema português. João Leitão revelou-se desde logo bastante acessível e entusiasmado com o seu trabalho. Falando das dificuldades, os desafios e do orgulho que tem do projecto acabado, a entrevista foi-se prolongando e  se transformando, cada vez mais, numa conversa de café sobre cinema e a sociedade portuguesa.

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Espalha-Factos: Como é que nasceu esta ideia de criar um super-herói português?

João Leitão: Eu queria muito ter tido super-heróis portugueses quando era pequenino. Era um grande fã de banda-desenhada e essa era a génese do projecto: o de fazer um super-herói.  Depois também havia um outro lado: queria muito fazer uma paródia ao Estado Novo. Até já no Mundo Catita – uma série que escrevi e realizei – tinha lá um bocadinho disso mesmo, no primeiro episódio. Queria muito fazer isso… E como em Portugal já e muito difícil fazer um filme, quanto mais dois, juntei essas duas ideias. Este, definitivamente, não era o super-herói que eu queria ter tido quando eu era pequeno.  Era o (super-herói)  que eu queria ter agora para fazer, na mesma, a aventura e as artes marciais num filme com a estética dos anos 60, mas ao mesmo tempo estar a gozar com o Estado Novo.

EF: E é um herói entre aspas…

JL: Ah ele não é herói! O gajo é um vilão. Ele é horrível, má pessoa, burro que nem uma porta, não tem nada na cabeça, não há nada premeditado. É tudo por instinto e os instintos dele estão completamente errados.

EF: O Capitão Falcão é um fascista, que vive para proteger o Presidente do Conselho de Ministros e tem medo de feministas. Como foi o processo criativo desta personagem?

JL: Foi a melhor fase do processo. Não querendo menosprezar depois o trabalho com os actores e a pós-produção, mas foi o melhor processo. Eu comecei, primeiro, por escrever a série sozinho – os primeiros 3 ou 4 episódios-, mas depois, quando fiquei inseguro com o material que estava a escrever, fiz uma proposta à minha parceira de escrita, a Núria Leon Bernardo, e escrevemos o resto em conjunto. Escrevi já o filme com ela e o processo foi divertidíssimo, talvez a parte de que gostei mais porque a Núria tem imensa piada e faz-me rir e eu também a faço rir. O que eu me lembro desses meses era de irmos a um supermercado comprar chocolates e gelados e de estarmos numa sala a por uma personagem que nós odiamos nas mais estúpidas situações, a lixar-lhe a vida._MG_1229

EF: Sim… No filme temos por vezes momentos de compaixão pelo Capitão Falcão, mas depois ele volta a fazer algo tão estapafúrdio que o voltamos a odiar. 

JL: Sim, nós queríamos isso. Há ali aquela parte em que ele vai para a prisão que nós queríamos fazer um exercício com o espectador: meter alguém a sentir pena dele, só um bocadinho. Mas depois o gajo abre a boca… Ele merece estar na prisão, nunca deveria andar na rua. E uma das piadas do filme é esta promoção que estamos a fazer do Falcão como um herói, porque ele não o é. Ele é o vilão do filme… Eu sempre achei que os filmes de super-heróis viviam dos seus vilões. Eu gosto do Batman porque existe o Joker. E uma das coisas que queríamos fazer desde o início era meter o protagonista no papel de vilão e o antagonista no papel de herói. Isto permitiu-nos criar a origin story e ter a atenção narrativa no protagonista – que é normal num filme de super-heróis – mas de facto estás a fazer tudo ao contrário e a meter todas as cenas e diálogos no vilão, que é a coisa mais divertida. Eles são sempre mais divertidos que os heróis.

EF: Já mencionou a série. Este formato estava pensado para ser uma série de televisão, mas teve que reformular tudo para uma longa-metragem. Está satisfeito com o resultado final?

JL: Estou. Nós fizemos uma coisa, que na altura não foi uma decisão fácil, que foi deitar ao lixo tudo o que tinhamos. Especialmente devido ao cansaço, porque já estávamos no terceiro ano a tentar fazer o Capitão Falcão e havia uma tendência e uma tentação muito grande de: “vamos pegar aqui nos episódios e adaptá-los ao cinema”. Havia essa tentação. Mas não o fizemos, ainda bem que não o fizemos. Deitamos os oito episódios que tínhamos ao lixo e escrevemos um filme de raiz.

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EF: De facto o filme funcionou bastante bem com o argumento que tem, achou necessário este começar do zero?

JL: Sim, é isso. Funcionou porque não foi uma adaptação, uma cópia. Nós adaptamos a personagem, mas o argumento não, foi de raiz, do zero. E isso foi muito doloroso, é dificil estares numa altura em que tens de dizer a ti próprio: “Ok. Os últimos 3 anos não existiram”. Isso foi a parte mais dolorosa e estava mesmo, honestamente, quase a desistir. E sei que se não tivesse ao meu lado, nesse momento, a força que a Núria trouxe para o projecto que eu não tinha conseguido escrever a longa-metragem.

EF: O Estado Novo ainda está muito presente na memória dos portugueses. Apesar de ser um filme com um óbvio tom satírico, não sentiu, durante a realização deste projecto, que poderia ser mal interpretado? 

JL: Sim e ainda tenho. Ainda tenho um bichinho de medo que seja mal interpretado. Mas não só pelo lado óbvio, ou seja, que fascistas não vejam que isto é uma paródia. Isso é o mais óbvio. Mas, curiosamente, há um lado no Capitão Falcão que me assusta mais, que é o facto de ele ser misógino e homofóbico, que são duas das piores qualidades que uma pessoa pode ter em 2015 e são duas coisas que eu quero parodiar no filme, mas tenho sempre algum receio que alguém não apanhe essa paródia e que o use como estandarte. Há pessoas burras, e pessoas burras podem interpretar o teu trabalho como bem entenderem. Tenho algum receio, mas não me posso defender de todos os ângulos. Se fizeres comédia a defender-te de todos os ângulos fica uma coisa amorfa e não é comédia. A comédia não agrada a todos, é suposto ser polarizadora.

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EF: Este é um dos primeiros processos de desconstrução histórica do Estado Novo no mundo do entretenimento português. Acha que o fascismo ainda é um tabu na nossa sociedade?

JL: É. Infelizmente descobri isso. Pensava que não era tão tabu como é na realidade. A título de exemplo, foi impossível arranjar product placement para este filme. Impossível. Ninguém queria dar uma bebida, uma marca de carros, seja o que for, ninguém quer arriscar sequer a possibilidade, por mais ínfima que seja, de alguém, talvez, possivelmente interpretar isto como uma tomada de posição seja para a direita ou para a esquerda. Jogam muito na defensiva. Tenho pena que assim seja, mas ao mesmo tempo há uma vantagem que é o facto de como este projecto é um projecto  difícil de se fazer, nós, ao fazê-lo, estamos a fazer uma coisa diferente.

EF: Notou-se uma grande cumplicidade entre o elenco. Como foi trabalhar com actores como Gonçalo Waddington e José Pinto?

JL: Foi muito fácil. Havia um grupo base de actores que já se conheciam e que já trabalhavam juntos, nomeadamente o Gonçalo Waddington e o Tiago Rodrigues, que são parceiros de escrita. Por isso eu senti que estava a entrar num grupo que já se conhecia. Depois, ainda por cima, alguns actores que chamamos também faziam parte desse grupo de amigos e colegas, nomeadamente o Nuno Lopes e o Bruno Nogueira. Já os outros que não faziam parte desse núcleo era malta com quem eu queria muito trabalhar.  Eu queria muito trabalhar com o José Pinto, que fez de Salazar, queria muito trabalhar com o Miguel Guilherme, com o Matamba Joaquim, que era um actor que tinha visto numa peça de teatro e que tinha adorado, queria muito trabalhar com o Rui Mendes e o Luís Vicente. Por mim foi um prazer enorme, já que era quase como se eu, como director de casting, escolhesse aqueles com quem eu queria trabalhar. Ninguém fez leituras, não obriguei qualquer actor a fazer leituras.

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EF: O trabalho de actores está bastante bom, imagino que seja difícil para alguns deles arranjar o melhor tom e forma de representar neste filme, já que o género paródia facilmente pode cair num overacting. 

JL: Sim, há alguns papeis em que o truque era abordar aquilo como se fosse sério, a título de exemplo, o António Durães, que faz de D. Afonso Henriques. Eu sou um grande fã do António, há mais de 15 anos. Vi-o numa peça de teatro, O Triunfo do Amor, com a Paula Diogo e tinha para aí uns 15 anos, ou 18. Na altura lembro-me de ficar abismado com a força dele, um vozeirão em palco que me ficou marcado. Passaram 15 anos até poder trabalhar com ele, mas estava lá, eu sempre sabia que aquele era o D. Afonso Henriques.

EF: Finalmente, o que diria/faria o Capitão Falcão no Portugal de hoje?

JL: Eu acho que… Eu acho que o Capitão Falcão dinamitava o país inteiro se tivesse vivo hoje em dia. Mas felizmente acho que o Capitão Falcão seria preso, mal pusesse um pé em Portugal de hoje, porque apesar de nós termos um governo de merda ao menos não somos fascistas.

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O filme estreia hoje, 23 de Abril, em 52 salas portuguesas por todos o país.

Fotos por Inês Delgado

 *Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945

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