wallpaper4_1920

Capitão Falcão: um herói que vem salvar o cinema português

Passados 6 anos de um processo criativo complicado, Capitão Falcão, filme de João Leitão, chega finalmente às salas de cinema portuguesas. Na semana em que se comemora a liberdade em Portugal, estreia uma das obras mais hilariantes sobre o Estado Novo.

Capitão Falcão conta a história de um super-herói Português ao serviço do Estado Novo. Juntamente com o seu ajudante, Puto Perdiz, Falcão combate todas as ameaças à Nação, respondendo a um homem apenas, António de Oliveira Salazar. Mas estranhos acontecimentos e uma ameaça democrática começam a invadir a capital. Conseguirá Capitão Falcão salvar o dia?

Depois de muito batalhar, João Leitão consegue ver estrear a sua obra. Capitão Falcão foi um projecto idealizado para uma série de televisão e, já com o piloto e outros episódios gravados, o decorrer do plano e o futuro do mesmo acabou por se mostrar por vezes ingrato para o realizador, que viu o seu projecto a ser recusado pela RTP. Voltando à estaca zero e não desistindo, o realizador decidiu apostar numa longa-metragem e levar o herói menos heróico de todo o sempre para o grande ecrã.

capitaofalcao

E que grande transformação foi esta! A mudança de argumento e a sua adaptação ao cinema resultou da melhor maneira. Mantendo a sua ideia original e o seu tom de elevado nível de sátira social, Capitão Falcão promete divertir imenso o público português, pelo menos aquele que não se deixa insultar rapidamente. O curioso deste primeiro super-herói português é que ele representa tudo o que seria um vilão nos nossos dias: um fascista homofóbico que espanca comunistas e serve para proteger o Estado Novo. Mas a película está tão bem concretizada que João Leitão conseguiu dar a todos os minutos do filme um certo tom de paródia, ironia e crítica latente à sociedade portuguesa dessa época. Quem se deixa ofender por este filme é porque não percebe de História portuguesa ou é simplesmente estúpido.

E tão bom que é ver uma obra tão fresca e inspirada no meio do panorama cinematográfico português. Num ano em que os prémios Sophia – galardões de cinema dados pela Academia Portuguesa de Cinema – preferem premiar obras que tentam imitar e criar uma espécie de versão menor do cinema que se faz em Hollywood, é bom ver que ainda há filmes a sair cheios de vitalidade e que não precisam de ser feitos como versões menores ou maiores do que quer que seja. A longa de João Leitão é, sem margens para dúvida, um triunfo do cinema português e uma grande homenagem à comunidade humorística do país, entregando mais de 1 hora e 40 mintuos de sátira e ironia – ambas tão características da comédia feita em Portugal.

201103041941-capitao_falcao__portugal

Se o argumento está no ponto quem lhe dá vida também não poderia estar melhor. Capitão Falcão revela um excelente trabalho por parte do director de actores, que resultou na visível cumplicidade em cena. Gonçalo Waddington é extremamente engraçado como Falcão e prova conseguir encher todas as medidas de uma personagem que, podendo aparentar uma certa simplicidade, é sem dúvida um desafio para que se mantenha credível. José Pinto entrega-nos também uma engraçada representação de Salazar e rouba um dos melhores momentos do filme quando está no seu gabinete – todo animado – a fazer bolinhos e a ouvir a Aldeia da Roupa Branca.

Em termos técnicos denota-se no filme um grande cuidado e perfeccionismo. Embebendo muito do estilo das comics, Leitão traz para a cena muitos elementos desse universo, criando num jogo entre as personagens e o espectador, com interjeições e exclamações a saírem em balões coloridos. A fotografia é um dos pontos fortes da parte técnica. A imagem é lindíssima, principalmente nas cenas gravadas em exteriores  e, arrisco-me até a dizer, de um nível extremamente profissional. Há, num entanto, uma nuvem que paira sempre sobre a película. A falta de financiamento por vezes é notada na repetição de espaços e nos adereços usados, mas, verdade seja dita, muito já fez o realizador para contornar esta realidade que, infelizmente, é uma constante no cinema português.

Em suma, um filme português que merece ser visto. Merece ser visto não só cá mas em todo o lado. Um excelente produto de entretenimento e uma obra fantástica de humor português que arriscou, mas que se revelou numa enorme surpresa. Um filme que batalhou pela sua sobrevivência e um projecto que poderia ter dado muito mais se tivesse os apoios certos e o dinheiro necessário.

8/10

Ficha Técnica

Título: Capitão Falcão

Realizador: João Leitão

Argumento: João Leitão

Com: Gonçalo Waddington, João Pinto, David Chan Cordeiro, Dinarte de Freitas

Género: Comédia

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945

Mais Artigos
Lupin
‘Lupin’ ultrapassa estreias de ‘Bridgerton’ e ‘Gambito de Dama’ na Netflix