Há 4 dias que deixei Kvitfjell e foi na última noite que as senhoras Auroras Boreais resolveram aparecer. Dançavam em tons de verde no céu estrelado, proporcionando-me os 10 minutos mais bonitos da minha existência. Embora esteja fora do tema de hoje, há necessidade de partilhar esta imagem.

Escrevo-vos agora de Bergen, a segunda maior cidade da Noruega, famosa não só pelas casas do antigo porto (Bryggen), desde 1979 consideradas Património da Humanidade pela UNESCO, mas também por ser umas das cidades mais chuvosas do Planeta, com uma média de 270 dias de chuva por ano. Para minha sorte, o Sol brilha desde que cheguei.

Hoje já todos partiram, sou a última de 13 pessoas a pisar solo Norueguês. Parece um acto de resistência visto assim, uma recusa a partir, mas caso seja, não foi feito conscientemente. Voei de Oslo para Bergen na terça-feira, um voo com tanto de curto como de fascinante. Arrisco-me a dizer que 70% da viagem foi a sobrevoar montanhas completamente cobertas de neve.. a certa altura duvidei da minha sanidade mental e perguntei-me se seriam nuvens, mas não, eram mesmo montanhas.

Desde que me conheço como viajante que desejo viajar sozinha. A verdade é que se não pensarmos muito no que isso implica, parece só ter factores positivos: fazemos os nossos horários, as nossas escolhas de destino, comemos o que queremos e quando queremos, enfim, somos livres e o plano é não ter plano. Mas há o outro lado também. O não ter ninguém à nossa espera, o sermos sempre só nós, o ver algo fascinante e não poder partilhar o momento, o não ter ninguém para discutir factos interessantes ou até coisas completamente irrelevantes.

Por outro lado, se não formos boa companhia para nós mesmos, quem será? Ao som de música ou ao som da cidade percorri provavelmente todas as ruas de Bergen. Por entre ruas e ruelas encontrei a magia nos recantos dos bairros antigos, chegando ao ponto de não saber se estava em terreno público ou a invadir quintais alheios. As crianças brincam na rua, ouvem-se os melros e as gaivotas e todos os que por mim passam, sorriem ou dizem “hei”.

Ziguezagueando num domingo de manhã, em 40min chega-se a Floyen e desfruta-se de uma vista da cidade que vale cada passo dado até lá. Para os adeptos de caminhadas ao ar livre, de Floyen partem percursos pedestres pelas montanhas, passando por lagos, cascatas, por entre um bosque incrível. Como sempre, fui caminhando e pondo limites de tempo, visto que estava sozinha e não convinha perder-me, mas nunca os cumpri e acabei no topo da montanha a escalar rochas para ver a vista. Mais uma vez cada passo valeu a pena. Visto que atingi o limite de altitude, só me restava regressar à cidade. Numa questão de horas as montanhas transformaram-se e havia famílias por todo o lado. De mais velhos a mais novos, toda a cidade tinha fugido em busca da paz na Natureza.

Já de volta, apercebi-me que com o sol a ostentação do poder sai também à rua, transformando-se as docas num parque de estacionamento de iates, onde casais abastados desfrutavam do seu café ou cerveja ao Sol. Outros desfilavam com os seus cães, chegando ao ponto da cidade se assemelhar a uma convenção canina com todas as raças, cores e tamanhos disponíveis. Viajar é isto, é observar estes pormenores… nos países Nórdicos há tanto detalhe a observar que se fosse por aí teria de escrever outro artigo.

Em Bergen já caiu a noite, ao pôr-do-sol as docas foram iluminadas pelo sol ardente, tornando-as brilhantes e em tons de laranja. A banda tocava na rua e as esplanadas continuavam cheias… no fim de contas não estou tão sozinha assim!