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Panorama 15′: O pensamento frenético e a arte da vagueza

Dois grandes filmes marcaram presença no Panorama esta sexta-feira, dia 17 de abril, Pára-me de repente o Pensamento de Jorge Pelicano e o Indispensável Treino da Vagueza de Filipa Reis e João Miller.

Pára-me de repente o Pensamento – 10

Pára-me de repente o Pensamento tem o seu ponto de partida nos versos de Ângelo de Lima, um escritor boémio diagnosticado com esquizofrenia e internado no hospital psiquiátrico Conde Ferreira. O mesmo hospital é agora palco do documentário, que retrata a vida quotidiana dos pacientes. Uns vivem na sua loucura e ironizam com a sua doença, outros na lucidez explicam os seus fantasmas, tormentas e sintomas. Uns têm medo de enfrentar a realidade no exterior, outros anseiam a cura para conquistar a liberdade no mundo lá fora.

O filme é um ensaio que homenageia e engrandece os pacientes, desmistificando os clichés sociais sobre as doenças mentais. Entre medicamentos e injeções tão comuns nos hospitais, também há a hora do café e do cigarro.  Entre a loucura e a sanidade, os pacientes desenvolvem os seus relacionamentos de amor e amizade, ao mesmo tempo que tentam se integrar nas iniciativas como teatro, música, dança, costura…

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Do mundo exterior, chega Miguel Borges, um ator de teatro que trabalha a sua personagem no hospital. Através das conversas travadas, o espetador aproxima-se do universo dos utentes, que sofrem interiormente, travando uma batalha diária com os seus pensamentos inquietos. Miguel é uma peça fundamental para o sucesso deste filme, pois através dele o espetador coloca-se no interior do hospital, criando empatia com cada doente.

O realizador consegue de forma sublime abordar este tema com um toque leve e simultaneamente profundo, mantendo a dignidade e o respeito por todos os pacientes. As imagens belas transmitem, com planos gerais e aproximados, desfocados e sombreados, a imensidão das salas vazias e  as expressões incríveis dos doentes. Os diálogos são dotados de uma espontaneidade surpreendente, relatos de dor e sofrimento com um toque humorístico para quebrar o gelo. Um filme belo em todas as suas dimensões, que trata com humanidade os doentes e os aproxima de nós.

O Indispensável Treino da Vagueza – 6

O filme é um olhar individual e coletivo sobre a arte, construído a partir do arquivo da escola Ar.Co. O contraste entre o interior e o exterior, as sombras, as colagens e as sobreposições, os corpos no espaço. Tudo é experimentação artística. O treino indispensável da vagueza combina vários fragmentos de arte. Funde trabalhos audiovisuais realizados por alunos da Ar.Co, a voz-off de professores de arte e a auto-reflexão dos realizadores sobre a sua passagem pela escola. Alegrias, frustrações e medos de alcançar o sonho de se ser artista.

O filme é o palco de vários clips de arte, acompanhados pela voz-off de professores que absorvem a audiência nas suas palavras. Essas vozes realizam um ensaio irreverente e arrojado sobre o treino da vagueza. Para além de criticarem a execução da arte por meio de teorias e metodologias, enaltecem o uso consciente do instinto artístico. Salientam ainda que a arte deve ser realizada do interior para o exterior, projetando-se no outro, abstraindo-se do seu ego. A arte move-se com o talento dos artistas, mas nem todos os artistas têm criatividade e talento para mover a arte.

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A parte mais interessante do filme reside nos diálogos estabelecidos entre os realizadores, que intercalam a amálgama de cores, luzes e movimento dos arquivos da Ar.Co. Os trabalhos aglomerados de forma sequencial, quase sem linha condutora abafam o espetador que finalmente respira com as opiniões dos realizadores/intervenientes no filme.

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