O Panorama – 9ª Mostra de Cinema Português esteve na Cinemateca Portuguesa, dia 16 de abril, e apresentou três sessões surpreendentes sobre as memórias de guerra, o olhar feminino e reflexões sobre a linha que separa e une a ficção ao documentário.

A primeira sessão exibiu seis filmes que incidem sobre a memória com relatos díspares dos mesmos acontecimentos, imagens que nos transportam para o passado e cartas lidas, revividas no presente. Já a segunda sessão centrou-se na figura da mulher e no retrato da vida quotidiana através do seu olhar. Finalmente a terceira e última sessão do dia contemplou o realizador eleito para esta edição do Panorama, João César Monteiro, com o seu filme Veredas, uma obra que atravessa o imaginário popular e as vivências do mundo rural, abolindo as fronteiras entre a ficção e o documentário.

Le Boudin – 5

O filme de Salomé Lamas, realizadora que ganhou o prémio de Melhor Longa-metragem no DocLisboa 2012 com Terra de Ninguém, documenta o encontro do jovem Elias Geibler com o testemunho de Nuno Fialho. Ambos relatam as missões, os horrores e a falta de liberdade na Legião Estrangeira Francesa. Le Boudin é uma obra peculiar que se centra quase exclusivamente no discurso. Apenas o interveniente alemão, mais jovem, aparece em vários ângulos, olhando fixamente para a câmara. A imagem a preto e branco demarca o tom sombrio do relato. Em contrapartida, ouvimos apenas o testemunho do interveniente português isento de imagem, tornando o som da sua voz mais poderoso e absorvente. Apesar das histórias surpreendentes, o cruzamento destes dois monólogos não foi suficiente para captar a atenção do público. Era preciso mais matéria visual para preencher o vazio.

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Pabia di Aos – 8

No filme de Catarina Laranjeiro, viajamos pela Guiné Bissau, ao som de cantigas de libertação e de testemunhos de dor, quarenta anos após a guerra. Ouvimos as narrações na primeira pessoa daqueles que lutaram no exército colonial e que foram esquecidos pelos portugueses, como também daqueles que aderiram ao movimento de libertação e foram perseguidos pela nação lusa. Discursos distintos sobre os mesmos acontecimento, que apelam à memória que ainda continua viva nas mentes de quem sobreviveu para contar a história. O documentário consegue refletir a essência dos intervenientes através dos seus discursos, fazendo uma construção da História do país através de locais diversos, marcos vivos que provam e complementam os relatos.

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O festival vai continuar a cativar Lisboa com os seus documentários até dia 19 de abril. Acompanhe a programação no site oficial do Panorama.