O Panorama – 9ª Mostra do Documentário Português abriu as suas portas no dia 15 de abril, às 21h30, no Fórum Lisboa. A sessão de abertura contou com o Concerto Von Calhau e a longa-metragem Fragmentos de um Filme-Esmola de João César Monteiro, sendo o seu olhar cinematográfico um preâmbulo da programação do festival.

Fragmentos de um Filme-Esmola – 7

O realizador João César Monteiro, tal como um convidado intrometido no mundo do cinema documental, irá “comentar” o festival com a sua obra singular. Segundo as programadoras, Amarante Abramovici e Inês Sapeta Dias, nestes filmes estão, inesperadamente, presentes os elementos fundamentais da programação contemporânea deste panorama: a insistência no filmar o íntimo, a família, o espaço da casa ou os percursos de todos os dias; mas também o impulso para filmar as ruínas da cidade, da paisagem ou dos próprios filmes.” Fragmentos de um Filme-Esmola centra-se precisamente nesse círculo. A nível visual as cenas desenrolam-se no centro, onde o foco de luz incide sobre a cama, o sofá da sala, a laranja imaculada e a janela recortada. A temática do filme aborda igualmente o círculo familiar, a esfera privada e as relações íntimas.

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Inicialmente mudo com os créditos escritos rusticamente a giz, João César Monteiro prepara o espetador para um filme que gravita em torno de imagens fixas, confinadas a um espaço íntimo em que as dinâmicas entre pais, filhos, mulheres, maridos ganham maior amplitude. Cada personagem vai adotando um papel diferente consoante o seu par, regendo-se por estados de espírito demarcados, conversas banais do quotidiano e teorias imaginárias. O filme feito em fragmentos, dificilmente ligados, faz um ensaio sobre a família, essa árvore genealógica que dá frutos. Vemos a infância repleta de sonhos espelhada na relação entre pai e filho, a amargura da velhice abandonada tal como a árida paisagem vista pela janela e o amor e a amargura da idade adulta.

A música clássica e as performances de João Perry e Manuela Freitas dão vida a um filme perfeito na sua reflexão sobre as relações familiares e interações sociais, mas que peca pela sua demasiada fragmentação. Cada cena partilha a mesma temática, porém não possui uma continuidade com as cenas seguintes, como se cada plano fixo e demorado fosse um pequeno filme com início e final abertos, apenas uma captação de um momento solitário no tempo.

O festival itinerante continuará de até 19 de abril na Cinemateca Junior, Hospital Júlio de Matos, Paróquia de Santa Joana Princesa, Culturgest, Cinema Ideal, Museu Geológico, Museu Nacional de História Natural, Reservatório da Mãe d’Água e Centro Cultural Malaposta com mais documentários e os melhores filmes de João César Monteiro, figura central nesta 9ª edição do Panorama.