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‘Doce Pássaro da Juventude’: a tentativa de voo até ao passado

Até dia 26 de abril ainda vais a tempo de ver Doce Pássaro da Juventude no São Luiz Teatro Municipal. Uma atriz devastada pelo tempo e um galã em conquista de uma paixão de juventude entram em cena em mais uma peça brilhantemente encenada por Jorge Silva Melo. Maria João Luís e Rúben Gomes dão vida a duas personagens criadas com a mestria de Tennessee Williams.O desempenho dos dois autores louva a criação do autor norte-americano. 

Os anos passam e a idade avança, com ela vai-se a juventude e o sucesso. Alexandra del Lago (Maria João Luís) é uma atriz com um passado de glória na representação, onde a imagem era um elemento determinante. O tempo tem transformado a sua figura, agora o que resta? Uma manhã de Páscoa em St.Cloud na Flórida e Chance Wayne (Rúben Gomes). Alexandra acorda com falta de ar, são os sinais visíveis do seu lamento com a vida, do que ela já foi e da ansiedade do que ainda pretende ser. No mesmo quarto está Chance Wayne, um antigo morador daquela cidade, que volta para reconquistar o seu passado. Um tempo que também já foi, passou, mas há o desejo de reconquistar uma antiga paixão: Heavenly (Catarina Wallenstein), a filha de um poderoso político da cidade.

Os dois estão num quarto de hotel e procuram caminhos para o seu futuro. A primeira prova para os dois atores é esta primeira cena onde colocam a nu as suas fragilidades. Ambos estão à beira do precipício dos seus desejos, do que já foram na juventude e do que não conseguiram agarrar. Agora, começa a corrida para o alcançar. Uma carreira e um amor estão em jogo, o tempo começa a contar de novo depois do toque dos sinos do domingo de Páscoa. Em que sentido? Naquele em que o tempo quiser.

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Muda a cena, surge um político. Um homem que nos seus argumentos utiliza os seus interesses. Com ele tem uma família acionada pelo que é melhor para a opinião pública. Um filho que atinge os objetivos pelo dinheiro e uma filha que abandonou o seu amor há 10 anos e é atualmente a imagem da castidade e bons costumes deste político, a Heavenly. Esta é uma personagem que também surge corrompida pelo tempo, que lhe trouxe desgostos de amor e uma vida manipulada.

Tudo em St. Cloud parece demasiado monótono até que chega a cena do bar do Hotel. Chance Wayne reencontra-se com antigos conhecidos e o momento não é agradável. A saudade deixada não é partilhada por todos, apenas a tia Nonnie recorda com nostalgia a peça de teatro representada por Chance e Heavenly. Daí e devido à proximidade a Alexandra del Lago surge a ideia de criar um concurso de teatro em que ele e Heavenly sejam os vencedores e partam para os estúdios em Beverly Hills. Nesse mesmo dia, os olhares dos dois encontram-se no manobra política encenada pelo pai de Heavenly. Entretanto também na vida de Alexandra surge uma reviravolta, a sua crítica e amiga Sally anuncia o seu regresso estrondoso ao cinema. Chance é abandonado nos seus planos, apenas conquista o público a quem pede uma margem de manobra:

“Não vos peço piedade, só vos peço compreensão… Não, nem isso. Apenas que me reconheçam a mim dentro de vós, e reconheçam o inimigo que temos: o tempo, o tempo que passa em todos nós”

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Esta é a segunda das peças de Tennessee Williams encenada por Jorge Silva Melo. Depois de Gata em Telhado de Zinco Quente estreada em setembro de 2014, espera-se por A Noite da Iguana para 2017. Em folha de sala, Jorge Silva Melo expressa a necessidade de dar estas peças aos atores “tão extraordinários, tão dotados, tão livres, tão únicos” com quem trabalha nos Artistas Unidos. De facto, estes são textos são generosos para boas interpretações e estão dotados de uma crítica sublime a uma sociedade que faz de tudo para mostrar que o tempo não passa. Mas o resultado só é possível devido a uma interpretação tão intensa de Maria João Luís que capta uma Alexandra decadente, mas com esperança. Como a própria explicou aos jornal Público: “Aquilo que procuro quando faço a personagem é essa zona do túnel escuro e do desespero.” Rúben Gomes também dá identidade à peça. O ator personaliza uma procura que todos fazemos: tentar ser melhor, mesmo que para isso tenhamos de voltar a um passado incorreto.

Numa peça em que começa ao som dos sinos do domingo de Páscoa, todos procuram o melhor caminho da redenção. Como diz Jorge Silva Melo: “O tempo é de Páscoa, mas não haverá ressurreição, mas todos procuram voltar a um passado que imaginaram feliz.” Apenas quem sai dali com alguma esperança é o público, que vê os defeitos duma sociedade que apesar de viver noutro tempo, podia bem chegar ao século XXI e representar os mesmos desgostos de amor e de uma vida que podia ter acontecido. O tempo passa , mas certos problemas ficam, a juventude já lá vai, fica um doce pássaro que procura a melhor forma de ser feliz!

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Texto: Tennessee Williams
Encenação: Jorge Silva Melo
Tradução: José Agostinho Baptista
Assistência: Leonor Carpinteiro e Nuno Gonçalo Rodrigues
Cenografia e figurinos: Rita Lopes Alves
Som: André Pires
Luz: Pedro Domingos
Produção executiva: João Meireles
Interpretação: Maria João Luís, Rúben Gomes, Américo Silva, Catarina Wallenstein, Isabel Muñoz Cardoso, Mauro Hermínio, Nuno Pardal, Pedro Carraca, Pedro Gabriel Marques, Rui Rebelo,  Simon Frankel, Tiago Matias, Vânia Rodrigues, Eugeniu Ilco, Alexandra Pato, André Loubet, Francisco Lobo Faria, João Estima, Mia Tomé, Tiago Filipe e a participação de João Vaz
Uma produção: Artistas Unidos, Teatro Nacional de São João e São Luiz Teatro Municipal
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