Na última sexta-feira, Sofia Dias e Vítor Roriz apresentaram a sua ultima criação na Culturgest. Satélites é uma peça onde os corpos se encontram fora da órbita da dança, onde a exploração da palavra tem um papel de destaque.

Em cena estão cinco grandes painéis pintados. A plateia esgotou para a estreia de Satélites, o novo espetáculo de Sofia Dias e Vítor Roriz. A luz da plateia está quase sempre acesa. Vítor Roriz sai de trás do painel central com uma tela na mão. Como todo o cuidado, vai manobrando o pano pelo espaço. Sofia e Clément juntam-se a Vítor em cena. Aos poucos vão desdobrando os panos que revelam imagens: um gorila, recortes de jornal, letras. Os seus corpos fundem-se com os cenários e os objetos que manipulam são como uma continuação dos seus membros. Os movimentos dos interpretes são mecanizados. De tão precisos e rigorosos parecem verdadeiras máquinas. Já não vemos pessoas em palco, apenas robots. Insistem na repetição da mesma fração de movimento, em pausas repentinas e em simulações de gestos.

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Há uma grande tela pintada com salpicos amarelos que vai surgindo em palco pela mão de Raúl Maia, o quarto intérprete, que funciona como teletransportadora. Quando a tela para em frente de um intérprete, sabemos que irá haver uma mudança: ou uma troca do performer ou uma troca de lugar. A palavra parte de Sofia que começa a descrever o seu movimento. De forma cantada os intérpretes exploram a palavra, uma matéria elástica que permite uma pesquisa e uma investigação imensa. A voz acaba por ser uma continuação dos movimentos dos bailarinos. Para os criadores, esta peça tem uma “ideia coreográfica relacionada com o conceito de órbita, enquanto percurso ou trajetória de um corpo em relação a outro.”

“And something change in the woods, a different light, a different colour, in the woods.” Esta frase vai sendo repetida e cantada. Sem se perceber como, Clément sai de cena e quando regressa traz consigo panos que vai deixando pelo palco. Na frente do palco, o intérprete anuncia que algo vai acontecer: “E os gestos tornam-se peculiares. Tudo pode acontecer no bosque. Nós estamos no bosque.”

Os quatro intérpretes cobrem-se com estes panos e transformam-se em pedras. Embrulhado nos panos os intérpretes começam a pronunciar palavras: rochas, montanhas, árvores, gruta, buraco, olhos. Vai deixando de haver ordem e instala-se uma cacofonia. É Sofia quem quebra este momento e muda o registo. É através da sua voz calma que o espetáculo é conduzido para o fim. As luzes vão diminuindo até à escuridão total.

Direção artística: Sofia Dias & Vítor Roriz 

Interpretação: Clément Garcia, Raúl Maia, Sofia Dias, Vítor Roriz 

Cenografia e figurines: Catarina Dias

Desenho de luz: Nuno Meira

Som: Sofia Dias 

Colaboração artística: Filipe Pereira 

Direção técnica: Nuno Borda de Água

Operação de som: Miguel Lima, Sérgio Milhano (PontoZurca)

Produção executive: Carla Nobre Sousa

Produção: Materiais Diversos