Boca de Cena

Boca de Cena #9: João Mota, o artista persistente

Nas artes existem sempre momentos de ruptura. Alturas em que é necessário dar uma volta à corrente das coisas e lutar contra uma maré de comodismo, familiaridade e previsão. Para além de emocionar e tocar, o propósito de qualquer arte é surpreender, impressionar e evoluir de modo a acompanhar o que acontece na dimensão que a mesma reflecte (leia-se a realidade). Assim, este é sempre um processo de luta e de persistência. Para qualquer corrente singrar será necessário um conjunto de mentes irrequietas e sedentas que felizmente sempre vão aparecendo ao longo dos tempos.

Se quisermos referir uma das personalidades que mais funcionou como agente catalisador de mudança no teatro português, teremos de evocar vários nomes e um dos primeiros que nos virá à cabeça será provavelmente João Mota. Um homem que aos oito anos se estreava no teatro infantil da televisão estatal, crescendo por isso, em cima de um estrado de espectáculo. Actor, encenador, professor e figura por si só puramente teatral, João Mota foi e continua a ser uma influência colossal no seu ramo. Desde os tempos em que ergueu a Cornucópia até aos mais recentes anos onde dirigiu o Teatro Nacional D. Maria II, desistir da sua visão nunca foi algo que ousou fazer.

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Após o seu período de teatro infantil, o jovem João Mota ingressa na companhia do Teatro Nacional D. Maria II em 1957, com a tenra idade de 15 anos. Decidido a fazer-se notar por uma brilhante carreira nas artes performativas, o João Mota actor permaneceu 10 anos na prestigiada instituição onde cresceu a trabalhar com personalidades como Amélia Rey Colaço, Palmira Bastos ou Carlos Avillez. Nestes anos cultivou o gosto e a experiência de estar em palco na companhia deste admirável conjunto de notáveis e veteranos, algo que foi certamente influente no seu percurso. Mas a revelação do seu primeiro potencial ainda estava para vir e o Teatro Nacional  Dona Maria II foi a casa que o viu em fase de gestação.

Mota sai da companhia com 20 anos e é a partir daí que começa a construir o seu próprio percurso independente dentro do teatro, criando vários projectos e grupos dramáticos, entre os quais, uma experiência no estrangeiro a assistir o encenador inglês Peter Brook e os Bonecreiros, um espectáculo juvenil que obteve moderado sucesso em Portugal, com dezenas de exibições e até um prémio da Crítica para Melhor Espectáculo Infantil e Juvenil. Um acumular de experiências e rotas que acabaram culminar numa das suas criações mais aclamadas e notórias em Portugal: a fundação do Teatro da Comuna em 1972.

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Juntamente com Carlos Paulo, Melim Teixeira, Francisco Pestana e Manuela de Freitas, João Mota vai erguer o símbolo máximo da sua ruptura (pelo menos a nível artístico) com o Estado e usá-lo como o veículo de uma pura expressão artística, livre do olhar castrador de um Estado Novo que por esta altura queimava os seus últimos cartuchos. Recipiente de uma visão progressista e socialmente desperta, João Mota lutava por uma arte livre e aguerrida que pudesse estimular e ajudar o espectador, o cidadão comum. Assim, à semelhança de Silva Melo e Miguel Cintra, também João Mota foi um dos grandes impulsionadores de um teatro social, consciente e desafiante. Tudo isto com aquela pitada vanguardista que é tão (re)conhecida nas produções da Cornucópia.

Como encenador sempre se mostrou uma figura notável, quer pela extensão do seu espólio como pela variedade de autores e temas que aborda. Assim, consegue contar no seu currículo peças clássicas como A Mãe, de Brecht ou O Tartufo, de Molière, trabalhos de Gil Vicente, dramas de Shakespeare e até uma adaptação bastante contemporânea com Berlim, baseada na obra homónima de Gonçalo M. Tavares. De destacar também Do Desassossego, espectáculo que se inspira na megalómana obra de Bernardo Soares e Vicente Guedes.

Para além de ter sido um proeminente actor e encenador nas décadas que se foram seguindo, João Mota também se destacou fortemente na dimensão pedagógica das artes, tendo sido um pioneiro na sua criação em Portugal com o seu trabalho na Escola Superior de Educação Pela Arte. Em 1972, foi nomeado professor da Escola Superior de Teatro e Cinema, no departamento de teatro, cujo conselho directivo eventualmente acabou por presidir entre 1996 e 2002. Actualmente aposentado, Mota continuou a ser activo neste campo nos últimos campos, dando cursos de teatro pelas mais variadas cidades como Lisboa, St. Etienne, Bolonha e S. Paulo.

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Muito discreto quanto à sua vida privada, João Mota é uma figura que se destaca e é falada quase exclusivamente pelo seu trabalho nas artes, quer no palco, na televisão ou na educação. Todas estas provas de valor são mais que factores suficientes para levaram a que o artista, em 2011, seja convidado pelo Secretário de Estado da Cultura para se tornar no Director Artístico do símbolo máximo do teatro luso, o Teatro Nacional D. Maria II. Assim, este ano marca a data de um regresso a uma velha e primordial casa na vida do actor, seis décadas depois. Neste cargo, ofereceu o seu cunho e visão pessoal ao repertório, que muitas vezes evocou autores e peças reminiscentes dos seus tempos na Cornucópia.

Das peças que dirigiu e onde representou, destaca da sua carreira trabalhos como A Castro, Guerras de Alecrim e Manjerona e Príncipe Bão, peça de Augusto Fernando que esteve em cena durante nove anos. Contudo e face a um currículo tão vasto e recheado, cada um de nós é capaz de escolher inúmeros e variados destaques de um percurso que sempre foi marcado por uma vontade de inovar, de mudar e de fazer as coisas de forma diferente e não parar até conseguir. Atitude esta que conserva até aos dias de hoje:

Se não desisti durante o 25 de abril quando fundámos a Comuna, porque é que o haveria de fazer agora? Não faz parte da minha maneira de ser“.

E eternamente gratos estamos todos nós por assim ser, caro João.

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.

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