Entrevista EF a Roni Nunes, programador do FESTin 2015

FESTin 2015: A política de Quitupo

Qualquer festival que se preze tem um espírito. As obras que promove devem ser ligadas por um tema e devem fazer sentido num todo. Felizmente isto é algo evidente no FESTin, o Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa que dá primazia à exibição de filmes na língua de Camões.

Neste contexto, tive oportunidade de assistir a Quitupo Hoyé!, um documentário vindo de Moçambique dirigido por Chico Carneiro e Rogério Manjate. Apesar de Quitupo, Hoyé! debruçar-se sobre um assunto que diz respeito ao estado do país, é com interesse que se veem paralelismos entre aquilo que é a sociedade civil moçambicana e aquilo que foi a realidade portuguesa no pós-25 de abril.

Quitupo, Hoyé! leva-nos à península de Afungi, no distrito de Palma, onde vai ser explorada uma reserva de gás natural pela empresa norte-americana Anadarko. Todavia, para tal acontecer existem 12 aldeias nesta região que teriam de ser reassentadas, com toda a sua forma de subsistência altamente alterada. Segue-se então uma série de debates, assembleias e consultas entre o governo distrital e as populações das aldeias.

Estas assembleias são mesmo o ponto alto do documentário. O facto de todas as decisões serem tomadas com a comunidade presente (incluindo crianças) é uma lição de democracia, na medida em que a população se mantém informada sobre o que se planeia para o futuro da aldeia. É interessante ver os paralelismos entre os processos de decisão nestas aldeias e como era na realidade portuguesa pós-25 de abril, sobretudo em ambientes agrícolas.

quitupo

Se, no entanto, há aldeões que decidem dormir na assembleia, não importa. O que conta é a intenção! Depois existe a outra parte do processo, a política. É necessária, eu sei, e vale a pena ver que em Moçambique há pessoas que fazem de tudo para lutar pelos direitos da sociedade civil mas penso que era escusado ver tanto do mesmo.

Os defensores dos direitos das populações das aldeias merecem ser referenciados e seria sempre interessante ver como é que estes processos políticos decorrem. Todavia, penso que as cenas de reuniões de debate político acabam por ser em excesso e que o filme poderia ter ido por outro caminho. Para um documentário feito numa região tão bonita e com populações que vivem da agricultura, pesca e pecuária é uma pena que não se veja mais disto e que não seja possível conectarmo-nos verdadeiramente com as pessoas.

É enfatizado por várias vezes pelos defensores destas populações que estão a pensar no modo de vida das pessoas, mas muito raramente vi, enquanto espectador, esse modo de vida. A realidade destes habitantes, cuja forma de vida seria drasticamente alterada com a construção da central de tratamento da Anadarko, podia ter sido mais mostrada e isso resultaria numa maior preocupação pelo caso por parte dos espectadores.

Quitupo, Hoyé! é um documentário bem realizado e com pontos fortes, mas que acaba por seguir em demasia a vida política de Moçambique em vez de mostrar o que realmente importa: as consequências da abertura económica do país ao exterior e os seus reais efeitos na população.

Nota: 4/10

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