Entrevista EF a Roni Nunes, programador do FESTin 2015

Entrevista EF a Roni Nunes, programador do FESTin 2015

A 6.ª edição do FESTin – Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa arrancou com o pé direito no passado dia 8 e promete continuar a celebrar a lusofonia no Cinema São Jorge até à próxima quarta-feira dia 15, com muitos filmes e grandes iniciativas.

O Espalha-Factos teve a oportunidade de fazer algumas questões a Roni Nunes, um dos programadores e membro da organização do festival, que falou dos objetivos do FESTin, dos principais motivos de interesse desta nova edição e de outros aspetos do certame numa entrevista que podes ler de seguida.

Espalha-Factos: A diversidade dos filmes é cada vez mais visível, com a programação a ser composta por fitas de todos os cantos do mundo lusófono. O objetivo de celebrar a cultura da língua portuguesa já foi totalmente alcançado ou ainda há caminho a percorrer?

Roni Nunes: Vai sempre haver um caminho muito árduo a percorrer. Como sabemos, sofremos uma influência massiva da indústria cultural norte-americana e, no caso do cinema no mundo ocidental, somente os franceses conseguem, a muito custo, oferecer alguma resistência a esse domínio. Depois há uma questão mais grave: o cinema português continua a ser muito mal visto no seu próprio país e o brasileiro, a despeito de toda a diversidade e de um reconhecimento maior dentro das suas fronteiras que, também com dificuldade, vem conseguindo alcançar nos últimos anos, em Portugal é praticamente ignorado.

Já o cinema africano tropeça, por vezes, nas suas próprias dificuldades de produção. Por isso um evento radicado no conceito de lusofonia é fundamental e o crescimento contínuo que o FESTin tem experimentado desde o seu início demonstra que existe espaço e interesse suficiente para continuarmos a apostar no seu futuro.

EF: Atualmente o mundo avança tão rapidamente que nos esquecemos das nossas raízes, da nossa história e da nossa cultura. De que forma pode o FESTin ser uma ferramenta importante para nos reaproximar e relembrar da nossa identidade como cidadãos da lusofonia?

RN: Esse bombardeio de ficção popular em língua inglesa já vem de décadas e, sem entrar na questão do mérito das obras em si, é um facto que isso não nos ajuda nada, enquanto países de língua portuguesa, a conhecermos e valorizarmos a nós próprios. É claro que a questão da identidade não se prende com nacionalismos no sentido negativo do termo, mas simplesmente como uma questão de auto-conhecimento. Sem isso é completamente impossível uma sociedade evoluir seja em que sentido for.

EF: Quase a chegar a meio da 6.ª edição, qual o feedback em relação aos anos anteriores?

RN: O FESTin começou com um evento muito pequeno, com muito poucos filmes e pouquíssima divulgação. A distância desta primeira edição e a do ano passado, por exemplo, é enorme. Em 2014 a programação foi muito boa, a acolhida do público substancial e a divulgação que se conseguiu foi considerável. Apesar dos poucos apoios, que implica num esforço enorme para concretizá-lo, o FESTin tornou-se numa estrutura grande e complexa. Pelo que já pudemos ver até agora, este ano podemos acreditar num avanço ainda maior.

EF: De entre os muitos filmes das várias secções, quais aqueles que considera imperdíveis e capazes de atrair ainda mais público?

RN: Os filmes de ficção são sempre os mais atrativos para o público, embora a Maratona de Documentários, criada há dois anos, tenha-se revelado uma aposta ganha. O ano passado houve sessões cheias para várias destas sessões. No universo da ficção nós tentamos um grande equilíbrio entre cinema de género e de autor, entre filmes acessíveis e outros que exigem bastante do espectador. No caso destes últimos, um dos mais interessantes é o O Rio nos Pertence, que traz uma grande atriz, Leandra Leal, a investir mais uma vez, como intérprete e coprodutora, no cinema de arthouse.

Nos géneros a Mostra da Globo traz, por exemplo, comédias populares, como SOS Mulheres ao Mar e Loucas para Casar. Depois há policiais, como Alemão e Jogo de Xadrez, suspense e terror, com Quando Eu Era Vivo e dramas de alto nível, como Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa, Entre Nós, Apneia, Um Filme Francês e A Despedida. A mostra infanto-juvenil este ano está muito forte, com quatro longas-metragens dedicadas as crianças, mais uma sessão de curtas. Considero isso fundamental para habituar os mais pequenos a gostar da produção audiovisual em língua portuguesa que, hoje em dia e tirando-se a questão da espetacularidade e dos orçamentos milionários, é tão boa quanto a norte-americana.

EF: A programação do festival é muito rica, mas continua a notar-se um “domínio” de filmes brasileiros e portugueses nas principais secções. Há planos para inserir mais obras oriundas de outros países nas próximas edições?

RN: Sim, claro. Na verdade o cinema africano já teve anos com uma presença mais forte no FESTin, como foi o caso de 2014. Este ano tivemos menos longas-metragens de ficção por culpa deles próprios: houve dois filmes angolanos e um moçambicano que, mesmo com os prazos prorrogados, não nos foram enviados. De qualquer forma, já estamos a pensar em novas ideias para contornar o problema decorrente do facto das produções do continente serem muito pequenas e, no caso de Timor-Leste, inexistentes.

EF: Esta 6.ª edição traz consigo muitas surpresas e novidades. Haverá ainda espaço para novas iniciativas, projetos e formas de desenvolver ainda mais o projeto?

RN: Há espaço para muita coisa! As possibilidades de diversificação de um evento em língua portuguesa são infinitas, principalmente se continuarmos a constatar na prática aquilo que acreditamos, ou seja, que há interesse do público por algo desta natureza. Pessoalmente pretendo levar para discussão na equipa vários projetos para o ano a fim de serem melhorados e de terem a sua viabilidade analisada. Há sempre formas de aperfeiçoamento, de sermos criativos e ousados.

EF: Para terminar: para além daquilo que já foi divulgado oficialmente pelo festival, o que é que o público vai ainda encontrar de surpreendente no FESTin 2015.

RN: De uma maneira geral o FESTin tem um ambiente fantástico, algo que se reflete, por exemplo, na vinda espontânea de muitos participantes dos filmes ao festival. Isto, por si só, através da simbiose com o público que vai ao São Jorge, cria uma vivência de cinema muito forte e animada.

Mas, ainda dentro de toda a programação do FESTin eu destacaria, pela pertinência, o debate Culturas Digitais e Consumos Alternativos do Audiovisual: Oportunidades e Desafios para o Cinema em Português, que vai decorrer no dia 14. Este tema é muito interessante porque discute as transformações e o futuro do universo do cinema depois da explosão da internet. Isso passa pela questão, por exemplo, da pirataria e da frequência às salas de cinema, mas também pelas possibilidades que as novas tecnologias oferecem aos produtores de filmes fora dos grandes centros – nomeadamente a nível da distribuição.

Fotos retirados do Facebook do FESTin

Mais Artigos
Anya Taylor-Joy, a Beth de ‘Gambito de Dama’, celebra 25 anos