Neste mundo vertiginoso que vivemos, é difícil não nos sentirmos por vezes sufocados e desanimados com o constante bombardeamento de informação, stress e mudanças que sucessivamente se manifestam na sociedade. Numa era comandada pela globalização e uma sucessiva artificialidade das experiências e inclusive das relações, é rara a pessoa que discorda que estes são tempos algo bizarros para se ser humano.

Tó Trips e Pedro Gonçalves, nos seus sublimes Dead Combo, já têm vindo a constatar esta problemática e a colocá-la em forma de som há já mais de dez anos. As ruas tingidas de sol ardente, o cheiro a comidas forasteiras, os eléctricos a rebentar pelas costuras, os estrangeiros de Alfama ou os magotes de pessoas que se passeiam pelos cantos desta Lisboa mulata são algumas das emocionantes vistas que o duo nos faz ouvir de forma tão vívida. É o cosmopolitismo algo árido que acaba sendo transversal a todo este belo país que chamamos Portugal.

Agora sentado sozinho no banco, com a cartola provavelmente deixada no bengaleiro de casa, Trips lança-se numa viagem solitária pelos cantos mais escondidos de uma espiritualidade que tem tanto de intrigante como de bucólica. Guitarra Makaka – Danças a Um Deus Desconhecido é o segundo registo a solo do músico português e para trás fica qualquer traço de civilização moderna. Ainda que familiar, aqui faz-se um culto diverso a uma Mãe Natureza que se entranha na alma e nos faz sentir algo que vem de um lugar desconhecido. Um lugar bizarro e atraente erguido pelas cordas que Tó Trips faz vibrar.

Quem esteve atento ao último registo dos Dead Combo, no passado ano, percebeu certamente que os Meninos tomaram a liberdade, mais do que nunca, de se desviar do roteiro português. Canções como B.leza e Havai em Chelas acusaram influências e sonoridades fortemente sul-americanas e africanas. Tó Trips, agora com a sua guitarra makaka, decidiu aprofundar esse caminho e embrenhar-se nas cortinas de sol e num tribalismo de uma África muito tropical, ora fresca, ora quente, mas quase sempre meditativa e profundamente contemplativa.

Tó Trips Guitarra Makaka - Danças a um Deus Desconhecido (Mbari, 2015)

A viagem abre-se com First God e paira no ar a presença de Rui Carvalho. Os ritmos repetitivos e hipnotizantes encaixados numa composição altiva e serena trazem logo à mente os dedos pródigos de Filho da Mãe, o que faz todo o sentido tendo em conta o recente projecto ao vivo que os dois músicos têm levado ao vivo. É uma excelente faixa de abertura, que desde os primeiros segundos cativa e nos coloca no espírito certo para o que a seguir virá.

Danças é a faixa que se segue e aqui denota-se logo a maneira bastante particular de tocar que já é do guitarrista. Os acordes acutilantes, precisos e tecnicamente briosos são entregues de uma maneira que faz parecer com que tudo isto seja fácil. Contudo, o que mais cativa em Danças é o som emocionado que Trips tira tão bem da guitarra. Em muitas alturas já a vimos chorar, mas aqui o instrumento sorri e rodopia em padrões confiantes e luminosos. O mesmo se pode dizer de Cuca, pequeno complemento da faixa anterior, com apenas um minuto e quarenta e quatro de duração e que serve de rampa para o próximo momento, a mais séria Makumba das Foncas.

Chegamos a metade do disco, encontramos uma Briza e lembramos Dead Combo. A melodia principal é extremamente semelhante a Ouvi o Teu Texto Bem De Longe, a faixa que fecha o aclamado disco Lisboa Mulata. Desta vez sem Camané e num tom muito mais frágil e nu, é com algum atrevimento que se diz que Tó Trips criou aqui uma versão melhorada da canção acima referida. Uma das peças mais belas do disco e uma perfeito exemplo da aura primitiva e delicadamente emocionante que este registo cria. Para ouvir numa praia deserta aquando a morte do dia.

Contudo, há mais sensações a tirar deste disco apetrechado de belas texturas, que nem por isso têm de ser sempre as mais bonitas. Também somos levados a explorar lados mais negros, a provar a solidão e a lembrar a desolação que é tão própria do espírito humano. Em canções como Sacrifício, Tó Trips leva-nos numa corrente de desequilíbrios e quebra de conforto. Mais uma vez, o peso e o luto vêm até aos nossos ouvidos num tocar que agora acusa descontrolo e ansiedade.

Trips mostra-nos que mantém os dedos e o ouvidos despertos e entrega-se a esta Guitarra Makaka com um tocar cheio de nuances e belas dinâmicas. O valor das composições, à semelhança do que já acontecia com os Dead Combo e em outros grandes guitarristas como Filho da Mãe e Norberto Lobo, vai além da incontestável perícia técnica. O que realmente fascina o ouvido e estimula a mente é a forma como o músico consegue criar estas paisagens de belos verdes e castanhos que usa para pintar os cenários que faz sentir. Daí, fazer com que acenemos a cabeça em concordância quando a canção que ouvimos corresponde ao seu nome (que se tome a faixa Migratória como exemplo).

O disco despede-se com Adeus Muchassa, composição minimalista e intimista que põe um fim comovido e morno a um trabalho que prova o seu valor por si mesmo. Para trás fica a enigmática ortografia por detrás do título da canção, mas depois de tanta sensação, tanta busca, intriga e tanta bela paisagem, podemos perdoar a Tó Trips que algumas coisas fiquem por dizer. O que seria uma viagem destas sem algum mistério?

Nota: 8,1/10

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.