“Hollywood, tens cá disto?”: Os Verdes Anos (1963)

“Hollywood, tens cá disto?”: Os Verdes Anos (1963)

Depois de uns anos 40 sinónimos do apogeu do cinema nacional, a produção de filmes portugueses entrou em decadência. A década que se seguiu à de Vasco Santana e António Silva (entre muitos outros) revelou falta de ideias, de inovações e, a certa altura, de público interessado em ir às salas. Em 1955 chegámos ao ponto de ter zero longas-metragens filmadas no nosso país.

Foi depois deste “vazio cinematográfico” que acabou por surgir aquilo que se viria a chamar Cinema Novo Português. Os realizadores deste movimento, inspirados pela Nouvelle Vague francesa e influenciados ainda pelo neo-realismo italiano, tinham como principal objetivo mostrar a realidade de um país e de uma sociedade moderna. Um dos pilares do Cinema Novo é Os Verdes Anos, o filme de estreia de Paulo Rocha, e é precisamente sobre ele que nos vamos hoje debruçar no Hollywood, tens cá disto?.

O protagonista é Júlio, um jovem rapaz de 19 anos vindo da província para Lisboa. Nos seus primeiros dias na capital conhece Ilda, empregada doméstica, com quem rapidamente inicia uma relação. Mas, habituado a um ambiente pacato, a grande cidade é algo completamente novo para ele e são muitas as dificuldades com que se depara enquanto tenta a adaptação a este novo estilo de vida. Dificuldades essas que vão condicionar e muito o seu amor por Ilda e a amizade com o seu tio.

É com este enredo que Paulo Rocha vai apresentar a dicotomia entre o espaço rural e urbano. Desde a sequência de créditos iniciais, onde a câmara começa por nos mostrar paisagens agrícolas para se movimentar depois lentamente para um horizonte recortado pelos prédios lisboetas, até ao último plano, o confronto entre o espaço português provincial e contemporâneo serve de pano de fundo para uma narrativa conduzida por personagens claramente influenciadas pelo espaço onde vivem, principalmente Júlio, de início um rapaz humilde mas que ao longo do filme vai ficando mais e mais desesperado.

Os Verdes Anos apresenta uma Lisboa contemporânea, onde o fado, rádio, santos populares, futebol e outras tantas paixões dos alfacinhas, que tornavam as personagens dos filmes dos anos 30 e 40 algo ingénuas e antiquadas, já não têm lugar de destaque. Agora dominam grandes construções, revelam-se avanços tecnológicos (o metropolitano, por exemplo), novas tendências e os protagonistas levam uma vida dura e os seus comportamentos são muito mais crus e genuínos do que aqueles que alguma vez tínhamos visto no cinema português (até porque, ao contrário das alegres histórias que os nossos cineastas até aí contavam, este filme espelhava fielmente o que se passava fora das salas de cinema).

Basta olhar para o relacionamento entre Júlio e as duas pessoas que lhe são mais próximas, Ilda e o seu tio. Com a primeira, o jovem provinciano tenta manter uma relação amorosa, mas ciúmes, intrigas e o ambiente hostil que o rodeia impedem que tudo corra às mil maravilhas, e o desfecho do romance começa a ganhar contornos bastante imprevisíveis, especialmente se olharmos para a época em que o filme surgiu. O mesmo acontece com o seu tio. A amizade entre os dois já no início é ténue, mas as vivências que Júlio percorre levam a uma rutura total entre os dois, sem espaço para um típico “fazer as pazes”.

Não é só ao nível da narrativa e da apresentação do espaço e das personagens que se observa uma quebra com o cinema anterior. Paulo Rocha, depois de ter estudado cinema em França e ter sido assistente de realização de Jean Renoir em 1962, traz para Portugal muitas inovações a nível estético, como um grande cuidado com os movimentos de câmara e a construção dos planos ou a informalidade e simplicidade dos diálogos. Também a nível técnico é impossível falar de Os Verdes Anos sem referir a brilhante banda sonora de Carlos Paredes, cuja guitarra portuguesa dá todo um ar poético ao filme.

No ano seguinte ao seu lançamento foi premiado no Festival de Locarno e nos tempos que se seguiram Paulo Rocha e, com ainda maior influência, o seu produtor António da Cunha Telles foram das vozes mais importantes neste novo movimento na arte de fazer filmes em Portugal. Até porque, mais que um grande retrato de uma Lisboa e uma sociedade contemporânea, Os Verdes Anos foi um dos principais ventos de mudança que ajudou ao desenvolvimento do Cinema Novo Português.

Ficha Técnica

Realizador: Paulo Rocha

Argumento: Paulo Rocha Nuno Bragança

Elenco: Rui Gomes, Isabel Ruth, Ruy Furtado

Duração: 91 minutos

8,5/10

Hollywood, tens cá disto? promete trazer, mensalmente, até nós aquilo que só Portugal nos dá: o Cinema Português. Não que de Hollywood não cheguem muitos títulos de qualidade, mas de Portugal, ao longo das décadas, têm sido muitos os grandes filmes de que pouco se fala. Esta é a rubrica certa para se falar deles

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