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Portugal Fashion: Lisboa mergulhada em negro e oversized

Mais de 30 desfiles marcaram presença nesta 36ª edição do Portugal Fashion. Sob o tema REFLECTOR, o evento que celebra 20 primaveras passou por Lisboa antes de seguir para o Porto. Storytailors, HIBU, Carla Pontes e Alves/Gonçalves trouxeram como propostas para o próximo outono/inverno coleções dominadas pelas cores escuras e pelo oversize.

Aquela que foi a única noite lisboeta de Portugal Fashion REFLECTOR começou no Palácio da Foz, nos Restauradores. Os Storytailors abriram as hostes com El Diablo, a Velha Menina, La Sayona Del e a Cabaça Dela, uma nova história que nos remonta a serões junto à lareira, onde se contam mitos assustadores e misteriosos.

A coleção foi inspirada nos contos e personagens que os designers, João Branco e Luís Sanchez, ouviam na sua infância, pela voz das suas avós, no Alentejo ou na Venezuela. As histórias da Capuchinha e da Velha e a Cabacinha convergem com “personagens como a Sayona, a Llorona e os Diablos Danzantes, o que é fantástico porque descobrimos pontos em comum entre as nossas próprias culturas, por exemplo, os Diablos Danzantes têm muito a ver com os Caretos de Trás-osMontes”, comentam os Storytailors.

As celebrações que envolvem “máscaras com cornos, cabeças de animal, pinturas tribais” – elementos presentes na coleção – e que servem o propósito de “afugentar o mal, ou seja, são uma espécie de amuletos” foram um dos pontos de partida.

A primeira parte do desfile pautou-se pelo preto, materializado em coordenados de capas e capuzes – um elemento que está presente nos trajes populares “de norte a sul de Portugal” – com o propósito de esconder e desconstruir a silhueta. Estabelece-se um contraste com a segunda parte, onde-nos chega a sensação envolvente de calor e as cores do fogo e das brasas das noites junto à lareira, numa explosão de cores vibrantes em vestidos, fatos, crop tops e saias estruturadas.

A segunda parte do desfile “é uma identidade de revelação, ao passo que a primeira é uma identidade de sugestão ou de proteção”, partilha João Branco. Esta “identidade de revelação” constitui, também ela, “uma outra forma de camuflagem”, porque existe a exposição de alguém através “da excentricidade, também cria uma persona para si”, comentam os designers.

Quanto à construção, “os cortes são todos ramificados e revelam a sua própria estrutura”, afirmam os criadores, que trabalharam com materiais como lãs, pelo e algodão. Tal como nos têm vindo a habituar, os Storytailors voltam a criar um elemento iconográfico que simboliza a coleção. O “diablo”, visto em várias das criações, vem suceder aos “pássaros” da coleção que apresentaram no Portugal Fashion, no ano passado.

A noite de moda continuou mas mudou de cenário. A Carpintaria de São Lázaro foi o palco para os restantes desfiles. A marca de Marta Gonçalves e Gonçalo Páscoa, HIBU, inicou os desfiles do Bloom, a plataforma promotora de jovens criadores emergentes. Impression #1 é o nome da coleção que propõem para o próximo outono/inverno e trata-se do “início de um livro de memórias”, como é apresentada em nota de imprensa, “sem substância” e “aberta a sugestões”.

A HIBU ainda não tinha uma estética bem definida”, confessa-nos Marta Gonçalves, “percebemos que todas as nossas coleções antigas não tinham um fio condutor e então quisemos renovar”. A nova coleção da marca vem estabelecer a sua identidade futura, mantendo “algumas caraterísticas das coleções anteriores“. O estilo desportivo, urbano e desconstrutivo que a HIBU tem apresentado em trabalhos anteriores permanece bem visível nesta coleção, onde o oversized domina, os capuzes abundam, e o conforto é a palavra de ordem.

Substituir o conceito de androgenia pelo conceito de unissexo foi um dos objetivos principais dos designers, que acreditam que o sexo não deve ser um elemento distintivo na moda.  Para o evidenciar, dois modelos, um masculino e um feminino, desfilam na passerelle, ao mesmo tempo, com as mesmas roupas.

Os coordenados apresentados são variados, assim como a paleta de cores, que passa pelos cinzentos, azuis, verde, rosa e amarelo, muitas vezes num padrão geométrico. Marta Gonçalves considera que “esta coleção foi mais gráfica” mas “manteve a desconstrução”.

Lã, linho, rib e fleece italiano foram alguns dos materiais usados. Destaque para as curiosas sandálias, feitas à mão, com “solas de ténis (…), dois bocados de plástico cosidos à sola e com uns atacadores”, para usar “com ou sem meias”.

Os jovens criadores realçaram ainda a importância de trabalhar em conjunto, dadas as dificuldades e todo o trabalho de gestão que uma marca requer, salientando que, apesar de as vendas estarem a aumentar nos últimos tempos, ainda não conseguem dedicar-se somente à HIBU e ambos têm outros trabalhos, enquanto procuram estabelecer o seu lugar no mundo da moda: “tudo leva o seu tempo e achamos que, aos poucos e poucos, com todo este desenvolvimento, venha a dar muito mais frutos e consigamos fazer disto o nosso trabalho a 100%”.

Carla Pontes foi o segundo nome a apresentar-se através da plataforma Bloom. Depois de ter representado Portugal no International Fashion Showcase, em Londres, em fevereiro, passa agora para terras lusas com a sua coleção Órbita.

Uma coleção muito coesa, que prima pelo conforto e onde a paleta de cores é quase monocromática. Lã 100% natural ou fundida com algodão gera looks com peças reversíveis – “todos os materiais são de dupla face (…), podemos usar mesmo os casacos virados ao contrário” – extremamente wearable, dominados por malhas e jacquard. Vestidos e casacos compridos são as peças de eleição nesta coleção.

Tal como o nome explicita, as órbitas foram a inspiração-base de Carla Pontes: “é uma visão aérea sobre o nosso planeta, não são propriamente as órbitas celestiais”, explica a designer. São, então, órbitas terrenas: as órbitas criadas “à volta de um lago vazio”, “a forma como a lava vai caindo à volta de um vulcão” ou os “socalcos que são deixados pelas montanhas”.

Um “público descomprometido” é o destinatário da coleção de Carla Pontes, que pretende que as mesmas peças possam ser usadas tanto de sapatos rasos como saltos altos, no dia-a-dia ou em situações mais formais. “A intenção é muito essa”, esclarece, “desenvolver peças, coordenados e looks que não nos prendam a uma situação, que sejam versáteis”.

Recentemente à venda em Paris, a marca de Carla Pontes está “em crescimento”, segundo a própria, que manifesta vontade de uma ainda maior internacionalização.

Por fim, para fechar a passerelle da Carpintaria de São Lázaro em grande, estiveram os veteranos Alves/Gonçalves. Um desfile que começou com algum atraso mas pelo qual toda a gente esperou e que não desiludiu.

Música latina serviu de banda sonora ao desfile que exaltou a mulher latina na sua versão mais sofisticada e sóbria. Apelidada de romântica, sombria, intimista e introspetiva pelos seus criadores, esta é uma coleção variada em silhuetas e materiais. O maxi marca presença, assim como os “laços e botões enormes”, naquilo que os criadores pretendem acentuar como uma “rebeldia sem preconceitos”.

Manuel Alves e José Manuel Gonçalves procuraram criar uma maior liberdade na construção e contrariar “as normas habituais da costura”, desfiando bainhas e combinando “tecidos densos e (…) volumosos” com outros “luxuosos“. “O oversize masculino insinua-se sobre a feminilidade dos detalhes e das formas”, acrescentam os designers, em nota de imprensa.

As peças apresentadas mostraram-se extremamente diversas, indo desde a seda natural às lãs, passando pela renda e alguns tweeds, em pied-de-poule ou com desenhos espinhados, por exemplo. O preto, o branco, o vermelho e o azul foram os tons escolhidos.

Assim terminou a passagem por Lisboa do Portugal Fashion REFLECTOR, que seguiu para o Porto durante os dias 26, 27 e 28 de março, para dar lugar a desfiles de nomes como Miguel Vieira, Luís Buchinho, Pedro Pedro, Katty Xiomara, Nuno Baltazar ou Fátima Lopes, assim como, jovens designers e marcas Bloom.

As celebrações dos 20 anos do Portugal Fashion continuarão depois do evento, com um live sketching dos desfiles e a realização de um vídeo-documentário.

Fotografias de Raquel Dias da Silva

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