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‘a falha de onde a luz’: a cumplicidade

Na passada quinta-feira, o Espalha – Factos foi assistir a mais um espetáculo de Cumplicidades, o Festival Internacional de Dança Contemporânea de Lisboa cuja primeira edição terminou no fim de semana. Sónia Baptista apresentou o espetáculo a falha de onde a luz no DNA, um local irreverente, ainda em obras para uma pequena plateia. Este espetáculo subiu a cena durante quatro dias seguidos, tendo-se estreado neste festival.

“A beleza é uma categoria imperfeita e é um peixe, um peixe” a expressão repete-se durante todo o espetáculo de Sónia Baptista. A bailarina apresenta-se em palco com o actor Francisco Goulão numa performance mais teatral. A peça a falha de onde a luz vai-se desenrolando como uma conversa entre os dois artista em que o público é constantemente convidado a interagir. No fim, Sónia consegue a beleza, Francisco oferece-lhe um peixe. A cumplicidade dos dois é evidente, num espetáculo de vivências onde a falha não existe realmente.

Em a falha de onde a luz, Sónia Baptista apresenta uma narrativa poética sobre uma cartografia pessoal. Neste avançar de descoberta vão-se criando assuntos, escondendo outros, divagando e discutindo temas mais sérios. A intérprete é a peça fundamental deste puzzle, no entanto o ator é um elemento fundamental cuja presença é indispensável. Lado a lado os performers vão-nos conduzindo por este percurso falado, onde umas falhas vão sendo colmatadas e outras vão aumentando. É uma peça que foge aos padrões da dança, escorregando propositadamente para o teatro, precisamente pela falta de movimento coreográfico e pela elevada dramaturgia.

Assim que se entra na sala já a bailarina está em cena. De saia comprida amarela e camisa branca, Sónia vai passeando pelo cenário. Uma mesa com duas cadeiras está centrada na sala. Uma chaleira ferve água, cujo vapor é evidenciado por um forte foco de luz. Pela sala estão espalhados diferentes folhas com riscos sem que se entenda qual o seu sentido. No chão, folhas desfeitas estão espalhadas por toda a sala. Sónia inicia uma coreografia com pequenos gestos simples e do quotidiano. Vai repetindo os gestos e à uma primeira vista nada se altera, mas sob um olhar atento percebe-se que vão sendo introduzidos pequenos pormenores. Francisco entra em cena enquanto Sónia começa a declamar textos, embalando o público no seu tom de voz. O ator vai abrindo envelopes num segundo plano com a ajuda do vapor da chaleira.

a falha de onde a luz

“Se eu te mostrar a minha, mostras-me a tua?”, um sorriso e um olhar de cumplicidade. O público ri para aligeirar o momento. Os artista tocam-se na testa um do outro, é hora de abrir a mente e de mostrar aquilo de que cada um é feito.

As palavras vão correndo, a pontuação é quase inexistente e por vezes sente-se o cérebro a falhar e acaba-se por perder o fio à meada. Fala-se de beleza, de estrelas, de porcelanas, de ursos e de macacos, de pessoas em cima de macacos, ou dentro deles? Os performers vão contando histórias, fazendo referências a coisas do quotidiano, falando de assuntos que forçam o pensamento.

Sónia diz que agora vai dançar, Francisco pergunta se para disfarçar. “Não, para desembaraçar”, responde-lhe. Uma coreografia com contrações e relaxamento, de movimentos pequenos e singelos. Regressa-se ao texto. As cartas anteriormente abertas por Francisco vão sendo lidas. No entanto “Isto que está a ler é um gesto, não são palavras” e esses ditos gestos não são vagos, mas sim cheios de sentido.

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