As noites de 27 e 28 de Março acolheram, no Grande Auditório da Culturgest, a estreia, em Lisboa, de Pântano, a mais recente criação de Miguel Moreira. A plateia, cheia e diversificada, não poupou aplausos e elogios à obra artística que finda um ciclo de trabalho do grupo Útero.

Em 2011, The Old King abriu portas para Europa, Pele, Under e agora Pântano, criações que se prolongam até hoje como forma de explorar o elemento paisagístico da dança na convivência do civilizado e do selvagem, da beleza e da ruína. Romeu Runa, Francisco Camacho e Catarina Félix dão movimento a Pântano, três peregrinos que “não sabem das emoções. Perderam-nas. Não as identificam.’” (Miguel Moreira, Uma carta para este lugar sombrio).

O auditório, escuro e silencioso, durante alguns minutos viveu da explosão intervalada de sons perdidos de percussão. Em palco, iluminou-se uma figura de vestimenta vistosa que, sentada numa caixa preta, se via perdida no tempo e no espaço. Os ritmos desconcertantes continuaram a acompanhar esta solidão enquanto Romeu Runa e Catarina Félix invadiram o palco: os corpos nus espalharam-se no espaço, de olhos fechados, em movimentos sincopados e selvagens à procura de algo que não se define. A habitar a periferia do cenário, Carlos Zíngaro criou o mundo sonoro.

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Pântano é um lugar de trabalho espectacular de corpos, sons e luz no espaço. Se por um lado parece vazio e apagado de vida racional, por outro lado é inquietante, desconcertante e uma incógnita para quem nele se vê reflectido. Entre focos de luz cor-de-rosa e amarelo, torsos maleáveis e membros flexíveis e apagados de memória, Pântano quase que se figura um ritual numa zona de ninguém, um destapar a medo da face oculta dos seres que peregrinam, que caminham, na sua individualidade, face a um fim.

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Nos meandros do desamparo e sacrifício de um corpo já desgastado, um flash de luz branca rompeu e fixou a plateia. Um dos corpos a nu foi cuidadosamente deixado no colo do público. O lado de cá do palco entrou mais fundo no mundo do desconforto, acedeu ao esmiuçar do obscuro. A inquietude visual e auditiva suplantou-se pelo contacto físico, pelo confronto inesperado com a própria sombra.

Este é o encanto de Pântano: Ainda que, primeiramente, o poder da visualidade e as inebriantes sonoridades do espectáculo possam deslumbrar o espectador, eleva-se a infinita possibilidade de identificação face a uma narrativa que na verdade não existe.

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 ‘’Este lugar belo, perdido, chama-se Pântano. Esta beleza não nos diz nada porque já não sabemos o que isso seja. Só o espectador a verá.’’

Miguel Moreira, Uma carta para este lugar sombrio