No “5” desta semana o Espalha-Factos procura explorar uma pequena parte da relação frutífera do cinema com o teatro, aproveitando as comemorações do Dia Internacional do teatro da passada sexta-feira.

Por esta razão, decidimos focar-nos em 5 filmes, adaptados de peças de teatro, que se destacaram pela sua forma original de realização tal como pela força dada ao argumento e à relação entre as personagens, características essenciais na dramaturgia. As fitas aqui enunciadas são por isso plenamente recomendadas, especialmente para aqueles que continuam a ver e viver o teatro todos os dias.

Amadeus (1984)

Esta obra de Milos Forman é indubitavelmente o mais aclamado desta lista, tendo arrecadado 8 Óscares da Academia, entre eles os muito cobiçados galardões de Melhor Filme e Melhor Realizador. Em vez de seguir o modelo tradicional do filme biográfico, Amadeus centra-se na relação de Mozart e Antonio Salieri e, mais concretamente, na inveja deste último compositor pelo talento desmedido do seu par. Em última análise, este é um filme que trata a condição humana de forma sublime, suportado por uma narrativa original e bem organizada.

amadeus

Um Eléctrico Chamado Desejo (1951)

Um Eléctrico Chamado Desejo foi outro filme bastante bem cotado pela Academia, que o premiou com 4 Óscares sendo que três deles foram referentes a categorias de representação. Efectivamente o filme conta com performances absolutamente fantásticas, das melhores e mais icónicas pelas lendas do cinema Marlon Brando e Vivian Leigh.  O clássico atenta na relação da sulista Blanche DuBois com o seu cunhado Stanley Kowalski e na forma como esta dinâmica reflecte um verdeiro choque de culturas e a desmitificação de alguns tabus. Um Eléctrico Chamado Desejo é um filme que continua a ser celebrado hoje.

StreetCar named

O Deus da Carnificina (2011)

O Deus da Carnificina é o primeiro de dois filmes de Roman Polanski (curiosamente os seus mais recentes filmes) baseados em peças de teatro já existentes. A fita de 2011 é aqui destacada não só por ter constituído o primeiro intento do realizador polaco mas pela forma única da sua realização, em que a câmara vai respeitando o espaço mínimo da acção e, simultaneamente, se vai apropriando do mesmo de maneira claustrofóbica à medida que a narrativa progride e se intensifica. O elenco é também uma das peças fundamentais de Deus da Carnificina, pela química e naturalidade das relações personagens, exploradas de forma exímia por Christoph Waltz, Jodie Foster, John C. Reilly e Kate Winslet. Também terá certamente beneficiado a película o facto de ter sido a dramaturga Yasmina Reza a escrever o argumento adaptado directamente da sua peça.

deus da  carnificina

Quem Tem Medo de Virgina Woolf? (1961)

Outro verdadeiro clássico do cinema norte-americano, Quem tem Medo de Virginia Woolf, conta com a participação dos monstros do cinema Richard Burton e Elizabeth Taylor nos principais papéis. O filme trata da tensão despoletada pela relação amor/ódio do casal protagonista, que encontra numa noite de convivência com um casal mais jovem a forma de libertação das suas frustrações. Um dos factos mais interessantes em relação a esta película tem a ver com a forma curiosa da adaptação do argumento. Aparentemente, Elizabeth Taylor, Richard Burton e o dramaturgo da peça Edward Albee detestaram o argumento o que eventualmente os levou a alterar todo o diálogo, de modo a mantê-lo mais fidedigno ao texto de Albee.

who´s afraid

Sweeney Todd: O Terrível Barbeiro de Fleet Street (2007)

Sweeney Todd: O Terrível Barbeiro de Fleet Street é o único filme da lista inspirado num musical da Broadway, uma tendência que se torna cada vez mais e mais comum em Hollywood. A obra de Tim Burton merece porém uma menção honrosa. Para além de constituir mais um exemplo da personalidade artística multifacetada de Johnny Depp, esta versão da peça de Stephen Sondheim e Hugh Wheeler manifesta a atmosfera característica de um filme de Tim Burton de forma muito inteligente. As influências do cinema de terror clássico e das obras da produtora Hammer percorrem o filme inteiro, revelando um estilo muito próprio que acaba por associar o próprio género musical ao cinema de autor. É essencialmente por esta razão que Sweeney Todd consegue libertar-se da sua original inspiração do teatro para se fundir perfeitamente com o mundo do cinema.

sweeney todd