A oitava edição da Festa do Cinema Italiano abriu as suas portas no Cinema São Jorge com a sessão de abertura O país das maravilhas de Alice Rohrwacher, uma história tocante que retrata a vida campestre de uma família italiana de ascendência alemã, que se sustenta através da produção de mel.

A realizadora do filme esteve presente e encantou a audiência revelando o seu apreço por Lisboa. Alice Rohrwacher confessou que a cidade portuguesa despertou a sua paixão pelo cinema e o fascínio pelas sombras e as luzes, elementos sublimemente trabalhados em O país das maravilhas. Regressando a Portugal, a realizadora presenteia a Festa do Cinema Italiano com o seu trabalho que ganhou o Prémio de Melhor Filme em Cannes.

Neste “país das maravilhas” não temos uma Alice que entra num mundo encantado, evadindo-se da realidade que nada lhe diz, mas uma heroína à moda italiana chamada Gelsomina, uma jovem apicultora tornada chefe de família, que lidera a produção do mel. Tal como as abelhas, Gelsomina é uma alma livre e uma trabalhadora nata, que não se deixa amestrar facilmente. Apesar de vermos Gelsomina, no princípio do filme, a obedecer cegamente às ordens do pai, cumprindo todas as lidas do campo e educando as suas irmãs mais novas, a jovem começa a marcar posição e a rebelar-se. Sabendo-se indispensável à produção do mel, Gelsomina quebra todas as diretrizes do pater família e inscreve-os no concurso de produtores agrícolas, intitulado “O país das maravilhas”. Para além de ser a rainha do mel, Gelsomina quer divulgar o seu produto e fazer parte do mundo televisivo que tanto almeja.

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O filme demonstra a determinação e perseverança das famílias que encontram o seu sustento no campo, bem como a ambição da nova geração em ter um futuro melhor na cidade. A história dá também ênfase às dificuldades dos imigrantes em estabelecer o seu negócio e a ser aceites pelos locais. Neste caso, a família de ascendência alemã sofre com o seu isolamento e a falta de recursos para sobreviver.

Para além da vida do campo e da imigração, a mentalidade machista da sociedade italiana é representada no filme, nas várias intervenções dos homens da aldeia ao apontarem constantemente a falta de virilidade do pai em não conceber um filho homem na família. Outro dos temas retratados é a inversão de responsabilidade entre país e filhos. As crianças recebem lugar de destaque, pois são elas a mão de obra necessária para a produção do mel. Desta forma os adultos acabam por ter um papel secundário. Enquanto o pai apenas dá ordens à filha mais velha, a mãe e a tia seguem as recomendações de Gelsomina, tomando esta o lugar de governanta e educadora da família.

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Em termos visuais o filme traz uma nova estética cinematográfica. O jogo de luzes e sombras constante transmite um toque de suspense e singularidade à história, principalmente no início do filme, em que os locais e as personagens não foram ainda apresentados. A luz do sol é usada pelo imaginário infantil, durante as brincadeiras entre as crianças que vivem sem tecnologia. As sombras escondem locais, partes do corpo, pessoas, olhares criando expetativa no público sobre a identidade do quê ou de quem desaparece do campo de visão. Técnicas usadas brilhantemente pela realizadora, que justificam a aclamação internacional do seu filme.

A Festa do Cinema Italiano continuará no Cinema São Jorge até 2 de abril e fará tourné por várias cidades de Portugal, como Porto, Évora, Caldas da Rainha, Loulé e Coimbra. Hoje a não perder a estreia em Portugal da série Gomorra, baseada no bestseller de Roberto Saviano sobre a máfia italiana, estreou em Itália em 2014 e chega ao festival a primeira temporada a ser exibida na íntegra ao longo de 5 sessões.