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Dia Mundial do Teatro: fomos conhecer um teatro amador!

Não é só nos grandes palcos que se faz teatro! Ele está em todo o lado: é uma arte de todos e para todos! Neste Dia Mundial do Teatro fomos à procura da realidade de um grupo de teatro amador. O Teatro Independente de Loures (TIL) abriu-nos as suas portas para o conhecermos por dentro! De que estás à espera? O espetáculo vai começar!

Chegam por acaso, por arrasto, ou pela paixão pelo teatro. O certo é que vão ficando. A maioria já conhecia alguém no grupo. Quando vem assistir a um ensaio, é desafiado a participar. Todos são bem-vindos ao teatro amador.

Catarina, atriz amadora há seis anos, Sofia, que está no grupo há oito anos, e Isabela, que chegou há apenas dois meses, todas contam histórias semelhantes: foram desafiadas, gostaram da experiência e decidiram ficar.

David, ator amador no TIL há cerca de 1 ano, revela que, no seu caso, foi ele quem procurou ativamente o grupo. “Eu gosto de teatro porque acho que é a maneira artística de expressar mais completa”, confessa. Admite que teve a sorte de, ao entrar, “participar logo na peça” que estava a ser ensaiada porque “precisavam de um substituto”.

Eu gosto de teatro porque acho que é a maneira artística de expressar mais completa”

Mas este não é o percurso normal. Antes de se passar a representar em cima do palco, primeiro aprende-se a tratar das questões mais técnicas por detrás deste. Desde luzes à construção de cenários. “Todos nós fazemos um bocadinho de tudo”, afirma Sofia, “é a parte mais interessante: não estares fixo a uma tarefa, poderes colaborar em tudo o que é necessário, é realmente sentires que fazes parte de um grupo por inteiro. Tudo o que tu podes dar é importante para o grupo, independentemente da área em que seja”.

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O ambiente de uma grande família é evidenciado por todos. Riem, brincam e discutem entre si ao longo do ensaio. As diferenças etárias não constituem entrave algum para a relação de proximidade: dentro dos cerca de 20 ativos atualmente, as idades vão desde os 14 anos até “aos 60 e muitos”, como diz Sofia. As mulheres e os jovens são quem está em maioria.

Ensaiam 3 vezes por semana, entre 2 a 3 horas por noite, mas “não há dias fixos para ensaiar”, tudo é flexível e gerido conforme a disponibilidade de todos. Catarina e Sofia explicam o ritual: “quem chega mais cedo vai preparando os cenários e os adereços. Quando entretanto os mais atrasados chegam, procede-se ao ensaio”.

Sempre que há uma nova peça, começa tudo de novo: a atribuição de papéis é sugerida pelo encenador, depois fazem-se “bastantes ensaios de leitura”, durante aproximadamente um mês, “ensaios em que estamos só sentados a treinar as entoações, a ver esses pormenores. Quando passamos para o palco são-nos dadas mais indicações. É um trabalho que se vai fazendo”, esclarece Catarina.

A caminho dos 50 e muitos mais

São 21h30 e estão apenas duas pessoas no Cineteatro dos Bombeiros Voluntários, a casa do Teatro Independente de Loures. Estão em cima do palco, a rever detalhes técnicos da apresentação que irá ocorrer dentro de dias. Os restantes intervenientes chegam enquanto entrevistamos Luís Paniágua Féteiro, diretor de Relações Públicas do TIL, que, de momento, abarca também a tarefa da direção dramática do grupo.

Começou como “Teatro Amador dos Bombeiros”, precisamente neste espaço onde nós estamos hoje”, conta-nos Luís. Na verdade, a História do TIL é já longa e preenchida. Foi há cerca de 48 anos que uma senhora foi bater às portas do pai de Luís, Carlos Paniágua Féteiro (o Mestre Paniágua, fundador do grupo, que recentemente se viu afastado do mesmo por problemas de saúde), a pedir-lhe que criasse um grupo de teatro urgentemente! O Mestre Paniágua tinha feito teatro nas Caldas da Rainha, o que não passara despercebido aos habitantes de Loures: “no Natal de 1967, houve uma senhora que veio bater à porta do meu pai, a pedir-lhe que formasse um grupo de teatro em Loures porque o filho ia para a tropa no ano seguinte”, desvenda. “Naquela altura, em 67/68, ir para a tropa era ir parar a África, à Guerra do Ultramar. O filho queria fazer teatro e nunca tinha feito e ela não queria que ele fosse para o Ultramar sem fazer isso”.

“O filho queria fazer teatro e nunca tinha feito e ela não queria que ele fosse para o Ultramar sem fazer isso”

Com esta motivação se forma o grupo, cuja primeira apresentação acontece a 13 de julho de 1968, “e teve mesmo que ser, porque ele assentou praça no dia a seguir!”, colmata Luís. Reza a lenda que o “rapaz-origem” não foi parar a África e continua, ainda hoje, a colaborar com o grupo enquanto técnico.

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As histórias que circundam o percurso do grupo sucedem-se: “O meu pai costuma dizer que o teatro de amadores é um importante socializador de classes, (…) as classes aqui esbatem-se todas”, diz Luís. Consta que existiam dois cafés centrais em Loures, frequentados por grupos sociais muito distintos: “num, estava o pessoal (…) menos abastado da terra, que começava a trabalhar e a deixar a escola mais cedo. No outro, estavam os que começavam a ir estudar para a universidade”. Segundo Luís, o teatro começou a fazer “muito boa figura e a rapaziada mais letrada também quis entrar”. Inicialmente a ideia da chegada dos novos membros não foi bem acolhida pelos atores já residentes, mas os dois grupos acabaram por misturar-se e criar laços entre si.

“O teatro de amadores é um importante socializador de classes”

Desde então o grupo amador tem construído o seu percurso com altos e baixos, sempre ultrapassados. Em 1975, desagregam-se dos bombeiros e passam a denominar-se Teatro Independente de Loures.

O trabalho recente do TIL tem-se estendido desde 1992 até ao presente, sem interrupções. Depois de vários anos a ensaiar em salas de diferentes escolas do concelho, voltam ao Cineteatro dos Bombeiros, o local que os viu nascer. Admitem que as instalações “precisavam de uma “cara lavada” “, mas salientam que “infelizmente, (…) há muita companhia profissional que não consegue ter as condições que nós temos”.

Quando questionados sobre os momentos mais importantes no trajeto do grupo, o TIL destaca a participação nas jornadas Maio-Nordeste, promovidas pelo Movimento das Forças Armadas em 1975, logo após a revolução, “quando se levou o teatro ao Portugal profundo, a sítios onde nunca ninguém tinha visto teatro”. Foram 15 dias no nordeste transmontano, que todos os membros do TIL dessa altura recordam com nostalgia: “o guarda-republicano de uma aldeia despediu-se de nós a chorar e a pedir que voltássemos lá”. Luís Paniágua Féteiro afirma que a missão do TIL tem sido “divulgar o teatro, muitas vezes onde ele não vai” e reforça que não é preciso “ir para longe: às portas de Lisboa há muito sítio que não recebe teatro”, daí a preocupação em fazer produções “que sejam itinerantes”.

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Outras referências são as colaborações com o autor Jaime Salazar Sampaio, que escreveu inúmeras peças para o TIL até ao fim da sua vida. Pontos altos foram ainda algumas apresentações em que o auditório de 170 lugares foi “invadido” por 300 e 400 pessoas e foram obrigados a fazer várias sessões seguidas no mesmo dia e, em 2001, a participação no Festival de Teatro Experimental do Cairo – “um dos maiores festivais do mundo, (…) estamos a falar de 87 produções de companhias de 74 países!”, onde eram o único grupo amador – uma “experiência inolvidável”.

Recentemente, participaram no Festival de Teatro Internacional de Portalegre e no Concurso Nacional de Teatro. Bienalmente realizam o Teatrartes, uma mostra de teatro no concelho de Loures. “O teatro amador é dar muito de nós à comunidade, é quase como um trabalho voluntário, digamos assim, porque nós aprendemos muito, ganhamos muito (…) mas também damos muito”, aponta Sofia. A componente pedagógica é também referida por David: “o teatro amador, por estar mais perto das pessoas, tem esse lado de aprendizagem”, e, para estes atores amadores, é precisamente aí que reside a vantagem do teatro amador, nesta “ligação que é mais pessoal”. Quanto ao futuro do TIL: “continuamos a insistir, o presente é bom e o futuro promete”.

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