Estava uma noite chuvosa de sexta-feira, mas o público acorreu em massa para assistir a mais uma sessão do Shortcutz Xpress Faro. Entre os convidados desta semana constava João P. Nunes. O realizador de 24 anos, vencedor da edição de 2014 do MOTELx com Pela Boca Morre o Peixe e representante de Portugal em Los Angeles enquanto vencedor do Castelo Branco 48h Film Project, falou com o Espalha-Factos sobre o estado do cinema português, a sua geração e o seu novo projeto: Ninho. Podes apoiá-lo e acompanhá-lo na página de Facebook oficial.

Formaste-te na Lusófona e tiraste um Mestrado em Desenvolvimento de Projeto Cinematográfico na ESTC. Achas que a via de pegar numa câmara sem instrução académica continua a ser viável para se tentar ter uma carreira no cinema?

João P. Nunes (JPN): Acho que sim. O que importa é filmar, ter ideias para filmar e ter ideias para histórias. A única coisa que as escolas nos dão, e falo tanto numa como noutra, são algumas ferramentas para saltares alguns passos. Eu estudei 4/5 anos e durante esse tempo o que fiz foi ter os meios para treinar e para fazer os filmes que tenho feito. No fundo, o que é preciso é contar histórias e faz-se da forma que quiseres e da forma que puderes. Não precisas de nenhum curso para isso.

Cada realizador e argumentista tem um processo criativo diferente. Qual é o teu?

JPN: Eu parto sempre da história e esta surge sempre de formas diferentes. A história do Pela Boca Morre o Peixe surge de um jantar que tive com o meu pai, em que ele se magoou na boca do peixe enquanto o estava a arranjar e a partir daí surgiu toda a ideia da vingança do peixe. A história do Do Céu Já Não Caem Lágrimas surge de uma ideia mais política, onde quisemos retratar uma alegoria do mundo em que há uma geração mais nova, que é a nossa, que está descontente com o mundo que lhes foi dado, criando-se, a partir daí, todo um universo. A história do Ninho é muito pessoal, que parte da minha infância na Ria Formosa e no contacto que tive com os pescadores. Havia sempre o medo destas casas em que eles vivem eventualmente serem demolidas, o que vai acontecer agora. Depois foi uma conjugação com a própria metáfora do “ninho” adaptada ao que se está a passar na minha vida neste momento. Por isso tem esse lado pessoal da história e um lado mais político. O centro do filme e a ideia do mundo fantástico, no fundo, parte de uma crítica a vários grupos sociais através dos olhos sensíveis de uma criança.

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Os teus três realizadores favoritos são…

Tenho mais de três. (risos) O que me acompanhou sempre é o Terry Gilliam. Tanto nos Monty Python, como no Brazil ou no Baron Munchausen. É o meu favorito porque tem muito a ver com o que eu faço, por ser um realizador que edifica um mundo com um imaginário forte para contar histórias que podiam ser realistas. Ele conta a história que quer contar disfarçada, de forma a que a mensagem seja passada de uma forma mais simples. Outro realizador será o chileno Alejandro Jodorowsky, que me influenciou bastante através do filme Holy Mountain, pelo simbolismo das imagens e por tudo aquilo que significou para os anos 70. O outro pode ser o Jean-Pierre Jeunet, também por causa da plasticidade dos planos, mas talvez mais ainda pela maneira como ele trata os atores.

Aquando da apresentação do Pela Boca Morre o Peixe, disseste que és um “regular” do MOTELx. Sentes que os filmes de festivais têm tanta influência na tua realização como os dos teus realizadores favoritos?

JPN: Sem dúvida! Creio que fui ao primeiro MOTELx, devia ter 17 ou 18 anos porque ainda não tinha entrado na faculdade. Escrevi o meu primeiro argumento depois de lá ter ido. Era uma história de terror, onde a ideia era haver um vilão que sintetizava todos os vilões clássicos do cinema de terror trash. O filme chamava-se Lobizombievampiro e nunca o cheguei a fazer, como é óbvio, mas tenho o guião religiosamente guardado. (risos) Claro que o ir todos os anos ao MOTELx fez com que a vitória na edição de 2014 seja especial e um ponto de partida perfeito. E falo não só da influência do MOTELx e do seu cinema de terror no cinema que eu faço, mas também de outros festivais como o Fantasporto, o Indie, o Doc, o festival de cinema francês e italiano. São tudo oportunidades de ver e seguir coisas novas, que eu faço sempre questão de aproveitar. Ainda no ano passado no Monstra havia um filme que me influenciou brutalmente para o Ninho, que é O Menino e o Mundo de Alê Abreu. É simplesmente brutal. Estou à espera que o filme saia em DVD para o oferecer aos meus irmãos. E é isto que os festivais fazem, consegues ver obras fora do circuito e fora dos ambientes em que normalmente os verias.

Achas que os filmes do dito “cinema independente” português tentam inovar ou sentes uma padronização do mesmo?

JPN: Eu sinto que há uma nova geração de realizadores que estão a aparecer e que surgem indignados com o cinema que se fazia e com a forma como o cinema se gere cá em Portugal. Essa indignação e essa maneira de pensar faz com que o cinema saia também inovador. E são pessoas com a minha idade que têm vontade de fazer coisas e mostrar quem são. Acho que o cinema português é muito fetichista e muito baseado na imagem, esquecendo-se que o essencial é contar uma história. Eu sou mesmo a favor do “contar a história” e sinto que há muita vontade de o fazer por parte desta nova geração.

Venceste o 48h Film Project de Castelo Branco com o filme Do Céu Já Não Caem Lágrimas. Como foi a 47ª hora?

JPN: (risos) Foi passada tranquilamente, porque entregámos o filme nessa mesma hora. Mas os últimos momentos da pós-produção do filme são extremamente stressantes, porque é aquele momento em que já o tens filmado e editado, já tens a cor feita, só estás à espera que o raio do computador faça o render. E a única coisa que tens e podes contar é um timer no ecrã que te vai dizendo “faltam três horas e meia”, mas tu tens quatro para entregar. E ficas do género “se este gajo encrava vai o trabalho todo por água abaixo!”. Mas lá está, fazer um filme em 48 horas é fantástico por isso mesmo. Foi provavelmente o dia de rodagem mais produtivo que tive na vida. Acho que filmámos quase 24 horas seguidas, sempre a rodar, sempre a produzir planos, ao ponto de que o limite de tempo que tínhamos era de sete minutos e nós fizemos uma curta de 11. Essa curta está a ser editada, com duas cenas extra.

Qual foi a reação do público em L.A?                   

JPN: Bom, nós não ganhámos nenhum prémio, mas foram a concurso 125 filmes fantásticos de 125 cidades. Mas para minha grande surpresa, embora estivéssemos a ombrear com belíssimos filmes do mundo inteiro, houve uma ovação em pé. Houve imensas boas críticas, principalmente à imagem e ao tema da história. Independentemente de termos ganho ou não, o facto de termos tido convites para trabalho e de termos visto o nosso filme bem recebido já fez valer a pena.

Sentes-te com mais responsabilidade para com o teu país por seres reconhecido a um nível internacional?

JPN: Não sei se há propriamente responsabilidade em relação ao país. Acho que me dá responsabilidade para agora ter mais ânimo e vontade de continuar a fazer projetos melhores e nos quais eu acredito, como o Ninho.

Um filme em Castelo Branco, uma nova produção em Olhão… É um dos teus objetivos enquanto realizador descentralizar a produção de cinema de Lisboa?

JPN: Sim, sem dúvida. A nova produção é, não só em Olhão, mas também na Moita. Uma das coisas que me tenho vindo a perceber, depois de entrar na produção do João Botelho, Os Maias- Cenas da Vida Romântica, que foi um dos filmes com maior orçamento português, é que o filme foi gravado não só em Lisboa como em Ponte de Lima, Celorico de Basto e em Azeitão. Embora Lisboa seja a capital e o sítio com mais produção cinematográfica, temos todo um país para filmar! Afinal de contas somos portugueses, não somos lisboetas. (risos) Estou a fazer um filme que, no fundo, é algarvio e o Do Céu Já Não Caem Lágrimas foi albicastrense. Acho que é importante filmar e dar apoio regional aos filmes, daí a importância das Film Comissions.

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Fala-nos do Ninho.

JPN: Esta é uma pergunta que eu me posso alongar aqui durante várias horas… (risos) O Ninho é um filme que surge há 19 anos porque eu passo férias na Ria Formosa desde os meus seis. Na Fuseta, na Armona e na Culatra sempre convivi com os pescadores e sempre senti que este demónio da ameaça da destruição da casa é algo de tal forma presente na vida destas pessoas que merecia ter uma história e merecia ter uma ficção associada a ela. E o Ninho surge daí. Embora as histórias que eu quero contar sejam reais, o cinema acaba por ser fantástico como uma forma de poder aumentar essa realidade. Esta será a história de um avô e do seu neto, que vivem completamente isolados de todo o mundo. O avô decidiu proteger o neto da cidade, mas este, como é óbvio, cresceu fascinado com ela. Ele vê a cidade através da Ria, vê as luzes nas águas da Ria e sonha um dia poder ir lá e isso acaba por acontecer. Os protagonistas são forçados a adotar uma vida na cidade porque a sua casa é demolida. Uma vez chegados à cidade são confrontados com a sua dura realidade. O neto não é afetado por esta realidade, porque, afinal de contas, é o que ele sempre tinha sonhado. Ele entra então no mundo dos seus sonhos, um mundo que não é real, mas sim repleto de cor, alegria e música, onde as pessoas vivem felizes. Ele vai conhecendo os vários grupos sociais desta forma até se desiludir e regressar à ilha, onde assume o papel que era anteriormente do seu avô: um velho que está descontente com a sociedade. Até ao dia em que encontra uma criança que, tal como ele, está deslumbrada pelas luzes da cidade e eis que chega à conclusão: “eu só cheguei à minha tranquilidade atual por ter passado pelo que passei.” E ele, ao contrário do seu avô, dá um apoio a esta criança para concretizar os seus sonhos. O filme, de certa forma, faz um círculo e a certa altura eu decidi chamar-lhe Ninho porque é um pouco a história que os pássaros passam. Enquanto está no ninho, na segurança do seu ninho e dos seus pais, sonha em sair. E quando finalmente sai, cai até se aperceber que deve abrir as asas, voar e fazer o seu próprio ninho. Por isso, acaba por ser uma metáfora para a vida associado ao que se está a passar agora na Ria Formosa.

Revês também um pouco do que se passa com a tua geração na história do Ninho?

JPN: Eu revejo muito o que se passa comigo. Eu sinto que preciso de sair do ninho, de sofrer a dureza de sair da minha zona de conforto. De repente, surge uma série de preocupações novas que não te eram naturais e que te surgem de uma forma brusca. E isso está-me a acontecer agora, é por isso que é tão importante para mim fazer o Ninho. Eu acho que se isto é válido para mim, também é válido para as pessoas da minha geração.

Porque que é que o público deve ver e ajudar as tuas produções?

JPN: Eu acho que o dever é algo que tem de partir do público e não pode partir de mim enquanto artista. O Ninho conta com uma plataforma de crowdfunding, além de todos os apoios que temos conseguido de Câmaras Municipais e todas as pessoas que têm acreditado na história. O dever de apoiar parte do querer ser parte do filme e neste caso, embora seja muito pessoal, este deve ser um filme comunitário. Se as pessoas sentirem que a história lhes toca então que o apoiem e que façam parte dele da forma que o conseguirem fazer.

Achas que os portugueses já se reconciliaram com o seu cinema?

JPN: Francamente acho que não, e isso deixa-me bastante triste. Por outro lado, deixa-me contente que existam plataformas como o Shortcutz e tantos festivais em que podes mostrar o teu filme a toda a gente. Agora sinto que o público acha que o cinema português é mau. E eu percebo porque é que existe esta mentalidade e de certa forma até concordo, mas é preciso dar oportunidade ao novo cinema português e aos novos realizadores. Eventualmente serão realizadores como nós, que fazem filmes sem dinheiro nenhum e sem algo que os obrigue a ser de determinada forma que irão alterar o rumo do cinema nacional e conquistar o público português. Eu, acima de tudo, creio que a minha geração está a fazer cinema livre. Há tantos realizadores que saem das escolas, e mesmo os que nem sequer lá vão, que acreditam na necessidade de contar histórias para as pessoas. Por isso façam filmes, escrevam filmes e vejam filmes.

Ou seja, acreditas que o cinema ainda consegue mudar o mundo.

JPN: Sem dúvida! Tanto o cinema como o teatro, a música ou uma simples conversa entre um jovem e um velho.

Fotografias por Elsa Beatriz Carmo.