Monstra As Asas do Vento

Monstra ’15 – O Balanço e a apologia do cinema de animação

A Monstra chegou ao fim nesta edição que marcou os seus quinze anos. O Espalha-Factos seguiu-a de perto mais uma vez, e cabe-nos agora fazer uma reflexão sobre o papel do cinema de animação, e um balanço sobre o festival que traz a animação a Lisboa todos os anos.

Ao contrário de outros géneros cinematográficos, a animação transforma o real por definição. Navega nas infinitas possibilidades conferidas pela sua condição primordial, a representação, a analogia. Nela somos confrontados com representações caleidoscópicas das realidades que conhecemos. Diferentes objetos, diferentes ideias, podem vestir-se de inúmeras formas e com inúmeros estilos.

A animação também pode ser um lugar de ideias, de política, de educação e de intervenção. Existe para todas as idades e para todos os feitios, assume inúmeras formas. O cinema animado pode tornar-se no primeiro contacto de crianças com problemas complexos, onde não existe um bom e um mau, onde a história contada tem significados que transcendem o óbvio, situações de complexidade moral que exigem julgamentos complexos. Nem toda a animação o faz, e nem todos os realizadores de animação acedem a todo o seu potencial.

Vários filmes têm utilizado a animação para muito mais do que o entretenimento infantil. Na última edição da Monstra, tal ficou mais do que provado com O Menino e o Mundo, mais recente, ou com o menos conhecido e menos recente Animal Farm, mas muitos estaremos lembrados da Fuga das Galinhas, sendo os dois últimos fábulas cinematográficas que ousaram ser mais do que duas horas de bonecos para entreter a cachopada.

Monstra O menino e o mundo

Das lendas japonesas em anime, passando por transfigurações de obras e de realidades, ao retratar da injustiça ou da sociedade de forma simples e eficaz, a animação é um mundo de possibilidades.

A Monstra – Festival de Animação de Lisboa, tem desempenhado ao longo da sua curta vida (está agora algures na sua adolescência) o papel de nos trazer tanto a brilhante animação que se faz hoje em dia fora da lógica das grandes distribuidoras, como importantes retrospectivas de obras históricas e importantes para a história da animação e do cinema. Este papel tem sido desempenhado com inegável sucesso, e o festival está, tanto agora, como desde a sua primeira edição, de parabéns.

Considero desnecessário elogiar mais detalhadamente o esforço que implica trazer ante-estreias de obras que de forma incompreensível as distribuidoras não trouxeram a Portugal, de atrair à sua competição obras relevantes e interessantes pela sua qualidade, inovação, ou mestria. Mas tudo isso se verga à evidência das sessões esgotadas, das crianças que acorrem à Monstrinha, da presença de realizadores que vêm apresentar os seus mais recentes filmes, e ainda à resistência do festival, que mantém uma programação interessante em tempos difíceis.

O cinema de animação em Portugal esteve de facto em festa na Monstra ’15, e o Espalha-Factos seguiu-a de perto. Da vitória e consagração de Isao Takahata, cujo mais recente filme, O Conto da Princesa Kaguya, venceu o Grande Prémio, ao bonito testemunho histórico de A Ilha de Giovanni, passando pela mitologia Celta no muito inspirado Canção do Mar, que recebeu mais do que justamente o Prémio Especial do Júri.

Monstra O conto da princesa Kaguya

Há ainda muito que pode ser feito. Por exemplo, a retrospectiva do cinema húngaro, assim como as homenagens da passada edição foram mais bem conseguidas do que os eventos externos à competição desta edição do festival. Por outro lado, a competição sofreu o efeito de ter dois mediáticos nomeados para oscar entre os filmes em competição, e embora seja compreensível que a capacidade de atracão destes filmes poderá ter um impacto importante no número de espectadores, teve o efeito nefasto de tornar a competição menos interessante e algo desequilibrada. Nem sempre trazer grandes filmes a competição justifica tornar a mesma previsível, e certamente a experiência desta edição permitirá tanto este como outros ajustes.

Houve Monstra para todos os gostos e todas as idades, houve tempo para recordar a história e para dar visibilidade à inovação. Das curtas às longas, dos realizadores Portugueses aos de todo o mundo, a Monstra está de parabéns.

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