Monstra - Song of the Sea

Monstra’15 – Um conto celta e a inovação

Num sábado de competição diurna, a Monstra não desiludiu. Dois filmes interessantes a fechar a competição vieram desafiar o aclamado anime japonês.

Canção do Mar – 8/10

Canção do Mar é um filme surpreendente. Conjuga a mitologia celta, sua estética e sua música, com uma animação característica, para criar um bonito e muito bem conseguido conto. Saoirse é uma criança que cedo se percebe ser diferente, sendo-nos apresentada mais tarde como uma selkie, criatura mitológica relacionada com a foca, que pode assumir uma forma humana. O tempo que passa em terra tem um preço, e o verdadeiro lar da selkie é o oceano. Neste caso a mãe de Saoirse sai do seu oceano por amor, e conta ao seu filho mais velho, Ben, os contos da mitologia celta. Quando a mãe desaparece subitamente na noite em que nasce Saoirse, Ben interpreta-o da pior forma, e culpa a irmã por todos os seus problemas, até que acontecimentos inexplicáveis lhe fazem lembrar as histórias da mãe.

Monstra - Song of the Sea 2

O que se segue é a luta pela salvação de todo um mundo mitológico, ameaçado pela feiticeira-coruja Macha, cujo amor por um filho em sofrimento a leva a um ato que lhe retira toda a esperança. A história apresenta uma moral complexa e nuances muito bem construídas, em que as personagens mitológicas têm correspondência com as humanas.

Este mundo, e todas as suas personagens, apenas podem ser salvas pelo canto da selkie, e Ben revela-se um grande lutador pela salvação da irmã e de um mundo que conhece como a palma da mão, e que acaba de descobrir que é real.

O extremo cuidado com o desenho meticuloso do background, a engenhosa caracterização das personagens e a muito feliz utilização de uma banda sonora de influência folk transformam uma já bonita história num muito bem conseguido filme de animação. O filme de Tomm Moore é claramente uma surpresa, e, sem dúvida, dos melhores do festival.

 

Jack e a Mecânica do Coração – 6,5/10

Mathias Malzieu escreve, adapta, realiza e musica o seu próprio romance para cinema, esse facto isolado poderia ser fonte de elogio, mas o realizador francês resolveu tornar o processo um bocadinho mais interessante.

Jack nasceu no dia mais frio de sempre, e o seu coração congelado é substituído à nascença por Madeline, que se torna sua mãe adotiva. Esta condição precária obedece apenas a três regras que lhe são repetidas durante a infância, nunca tocar nos ponteiros, nunca perder a calma, nunca se apaixonar. Mas Jack cresce, e a sua vontade de sair, conhecer o mundo e ser normal, acaba por vencer o seu medo, e, mais relutantemente, o da sua mãe. Ele descobre que, uma vez fora de casa, as regras são quebradas com surpreendente facilidade. Apaixona-se por Miss Acacia uma dançarina de Flamenco tão bonita quanto míope, que desaparece na sua vida itinerante.

Monstra - Jack et la mecanique du coeur

A humanidade é pouco tolerante para com a diferença, como Jack percebe ao ir para escola, mas um dia, com a ajuda de um mágico que encontra, parte para a Andaluzia à procura de quem o seu coração mecânico nunca tinha esquecido.

Não é do argumento, que tem as suas limitações, que vive o filme, nem apenas da estética e do estilo, que transpira Tim Burton inclusive na própria caracterização, que parece mimetizar personagens sobejamente conhecidas. Há algo que nasce da relação entre a banda sonora e algumas sequências muito originais do filme em termos de planos e perspetiva, que é sim de Malzieu, e que agrada e surpreende. Embora o filme fuja desse seu experimentalismo inicial, que para o fim só se mostra em escassas cenas, ficam marcadas algumas sequências muito agradáveis. O CGI é todo-poderoso no filme, mas parece que Malzieu segue o trilho de alguns animadores digitais, que recriam algumas das características e da textura de stop motion por via digital, neste caso não resultou nada mal.

Malzieu poderá estar a caminho de encontrar algo verdadeiramente interessante, fica a dúvida se alguma vez poderá definir uma identitária mise-en-scène. Para já, ficamos com um filme competente, e com alguma esperança na carreira deste realizador francês.

Estes dois filmes encerraram a competição de longas-metragens na Monstra da melhor forma, com aquele que é claramente um dos melhores filmes do festival, e com outro que é um curioso filme de um realizador que dá boas indicações para o futuro.

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