Boeing Boeing, a famosa peça francesa da década de 60, regressou a Lisboa no dia 19 de março, e ficará em cena até dia 12 de abril no Teatro Villaret. Um espetáculo sobre o sprint que é a vida de Bernardo, um Casanova da Era do Jato, que mantém uma rotina excitante, cronometrada ao milímetro, para que as suas três noivas, todas hospedeiras de bordo, nunca se encontrem. 

Boeing Boeing iluminou o humor pariesiense nos anos 60, tendo sido premiada na Broadway com dois Tony Awards  (Melhor Peça e Melhor Ator) e registada no livro do Guiness World Records como o texto mais adaptado em todo o mundo. Esta comédia de enganos de Marc Camoletti, traduzida e adaptada por Marc Xavier e Paulo Sousa Costa, conta com a encenação de Claudio Hochman.

O Teatro Villaret esgotou no passado dia 19 de março, tendo sido preciso acrescentar mais cadeiras às centenas de lugares já existentes. Entrar na sala de espetáculos foi um processo demorado (e até cansativo para alguns), que só não aborreceu pela distração que as muitas caras conhecidas, com direito a passadeira vermelha e a alguns fotógrafos, permitiram. De qualquer forma, depois de estar toda a gente confortavelmente sentada, Boeing Boeing pôde finalmente começar na sala de estar do apartamento do protagonista. As paredes são interrompidas por várias portas: três quartos, uma casa de banho e uma cozinha. Num estilo bastante minimalista, de brancura esmerada, a sala de Bernardo faz lembrar as dos hotéis dos filmes americanos.

A história é simples e despretensiosa, com o único objetivo de fazer rir e sorrir, apesar de abordar um tema tão sério como a poligamia. Bernardo (Luís Esparteiro) está noivo de três mulheres, todas hospedeiras de bordo: a brasileira Janete, a italiana Julietta e a alemã Judite. Para evitar que se encontrem, mantém uma agenda organizada ao milímetro, em função dos horários das diferentes companhias aéreas. Conta ainda com a ajuda da sua fiel empregada doméstica, que, apesar de achar que não é vida para uma senhora como ela, passa os dias a trocar as fotografias, as roupas de cama e as ementas, tudo para agradar às hospedeiras e garantir que continuam a pensar ser as únicas na vida do seu “lobo solitário”.

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A gestão dos amores de Bernardo torna-se mais atribulada com a chegada do Boeing-Boeing, um avião que torna as viagens mais rápidas e as escalas impossíveis de coordenar. Com a presença de Roberto Seguro (João Didelet), um amigo de longa data do nosso Casanova que aparece como caído do céu, Berta passa a ter de lidar não só com mais um careca, mas também com o frenesim de portas a abrir e a fechar, quando de repente as três noivas não cumprem os horários estabelecidos e transformam o apartamento num engarrafamento de trânsito aéreo invulgar. Elsa Galvão representa a empregada de uma forma genial, usando e abusando do humor físico, que por vezes faz rir mais do que os problemas de comunicação com as hospedeiras, e tornando, sem sombra de dúvida, a sua personagem na mais hilariante de todas.

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Quem também soube usar a expressão corporal foi Bárbara Norton de Matos (em substituição de Patrícia Tavares), que dominou a força sexual da rígida Judite, a noiva de Bernardo que mais se destacou, apesar de tanto Julietta como Janete terem os seus muitos e deliciosos momentos de comédia. Sofia Ribeiro voltou com a sua brasileira caliente, depois da estreia em palco no Teatro da Trindade, e ninguém ficou indiferente ao episódio excitante com “Robertinho”. Quanto à prestação de Melânia Gomes como “bambina”, além do sotaque italiano perfeito, não aqueceu nem arrefeceu. De qualquer forma, no conjunto, tudo funcionou harmoniosamente e a sensação final é a de que se assistiu a uma peça icónica com um elenco de ouro.

Boeing Boeing é uma história universal a não perder, recheada de momentos cómicos e com um final feliz, sem ser previsível: afinal de contas, há hospedeiras para todos, até para aqueles que não chegam a entrar em cena.

A peça está até dia 12 de abril no Teatro Villaret, de quinta a sábado às 21h30, e domingos às 17h00.

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