Eyolf_2©Álvaro Rosendo

‘O Pequeno Eyolf’: em busca do sentido da vida

Pela primeira vez nos palcos portugueses, O Pequeno Eyolf é uma das obras mais maduras do escritor norueguês Henrik Ibsen. Encenado por Manuel Wiborg, é um retrato de uma família em busca do sentido da vida, já marcada por perdas e discussões, que acaba por ser um espelho da sociedade.  O Pequeno Eyolf está em cena até 25 de março no Teatro São Luíz.

Alfred (António Filipe) volta de uma viagem pelas montanhas com uma nova missão. O intelectual pretende abandonar a escrita de um livro sobre a responsabilidade humana e aplicar essa responsabilidade ajudando o seu filho com uma deficiência física a adaptar-se ao mundo. Eyolf é uma criança que quase nunca sai de casa e tem poucos amigos. A criança apenas tem uma obsessão pela mulher dos ratos que lhe aguça a curiosidade pela sua voz misteriosa e histórias que conta.

A decisão de Alfred não é bem recebida por todos. Rita (Rita Loureiro), a mulher de Alfred, é uma mulher obcecada e não quer partilhar o amor de Alfred com o seu próprio filho. Asta (Catarina Wallenstein), irmã de Alfred, é uma ajuda na casa da família e na vida de Eyolf. Também para Rita, Asta é um perigo na relação entre ela e o marido.

Num dos dias, em que Eyolf decide ir brincar com as outras crianças, Alfred e Rita discutem e Asta tem um encontro no jardim com Borgheim (Carlos António), um engenheiro de sucesso que tenta conquistá-la. Nesse dia, gritos das crianças na praia despertam a atenção das quatro personagens, Eyolf morreu afogado. Há quem diga que viu a mulher dos ratos a afastar-se depois do afogamento, mas não há nada a fazer: Eyolf morreu. A partir daí, iniciam-se reflexões sobre a atuação humana. Alfred perdeu de novo a motivação por viver e Rita sente remorsos pelo seu egoísmo.

Eyolf_3©Álvaro Rosendo

Este é um drama do final do século XIX construído em três atos (antes da morte de Eyolf, depois da morte de Eyolf e reflexões finais) que questiona as relações humanas. Depois da morte de um filho, o que faz sentido? Qual o caminho a seguir? Eyolf surge como o ponto de partida para o arrefecimento de uma relação, pois Eyolf caiu de uma mesa em bebé porque os seus pais estavam desatentos. A partir desse momento, Alfred isola-se na escrita e Rita é uma pessoa mais solitária.

A morte de Eyolf torna-se num definidor de caminhos. Rita não quer continuar a viver sozinha. Alfred quer encontrar uma missão na sua vida. Asta quer ser feliz sem se intrometer na vida do casal. Até que decidem olhar para o sítio onde Eyolf morreu. Rita nunca desceu até lá, apenas vê as crianças pobres que nunca ajudaram Eyolf. Mas o pensamento inverte-se, o que fez Rita para ajudar aquelas crianças? Um novo sentido nasce a partir daí.

O Pequeno Eyolf relata uma perda intensa e drástica. Nada é pior do que perder um filho. Toda a peça é um simbolismo à condição humana. O egoísmo e a indiferença não são as melhores ferramentas para se chegar à felicidade. Asta é uma personagem que destaca esse facto: “Um multidão não pode ser feliz?”

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Também mais uma vez, surge o símbolo do aprisionamento muitas vezes utilizado na literatura: a mulher dos ratos. Eyolf e a sua família vivem assombrados por esta figura, ou seja, pelas suas vidas demasiado individuais. Ibsen pretendia desconstruir esta concepção e utiliza o teatro como comunicador desses problemas.

Também Manuel Wiborg tentou aproximar esta peça do público, principalmente nos momentos finais em que os atores estão muito próximos da plateia. O Eyolf apenas apareceu em sombra o que confirmou a difícil e ‘assombrada’ busca em palco.  O desenho de luzes de Jorge Ribeiro também ajudou. A iluminação conseguiu intensificar o suspense de algumas leituras de textos como a mulher dos ratos ou nos momentos do diálogo entre Rita e Alfred. A cenografia também não esteve mal, os papéis acumulados na primeira cena ou amachucados num segundo momento transmitiram a confusão que as personagens viveram ao longo da peça.  O cenário pecou por estar demasiado despido, deixando a olho nu demasiados pormenores da maquinaria do teatro. Talvez fosse esta a intenção, mas essa utilização foi demasiado exagerada. Quanto às interpretações, Rita Loureiro foi uma Rita muito dinâmica psicologicamente o que conferiu uma credibilidade no seu papel.

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O Pequeno Eyolf é uma peça clássica do ponto de vista do seu texto, mas a encenação de Manuel Wiborg dá-lhe uma personalidade ainda mais atual, de temas que farão sempre parte do quotidiano.

Fotografias de Álvaro Rosendo

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