Giovanni's island japan soviet union animation

Monstra’15 – Amor, morte e um apocalipse de fruta

A competição de longas prossegue na Monstra. Neste artigo falamos de mais dois filmes, num Dr. Jekyll e Mr. Hyde inesperado, que nos dá do pior e do melhor desta edição do festival.

Lisa Limão e Maroc Laranja: Uma rápida história de amor – 4,5/10

Realizado por Mait Laas, este filme é construído com imaginação por um estónio bastante ambicioso. A história de amor em forma de ópera stop motion, entre uma laranja marroquina (para quem ainda estiver na dúvida, Maroc) que migra para a europa com os seus compatriotas à busca de uma vida melhor, e a filha rica do proprietário da exploração de tomates que explora até ao tutano a laranja e os seus compatriotas, coloca Romeu e Julieta no epicentro da vergonha europeia das migrações pelo mediterrâneo. E embora na animação seja possível um desfecho menos trágico para a obra de Shakespeare, fica a dúvida (ou não) sobre o desfecho de muitas outras histórias, as reais, que não acabam tão suavemente, tanto no mar como em terra, entre África e a Europa.

Lisa Limão e Maroc Laranja

É com tristeza que digo que a ambição e a explosão imaginativa do realizador não encontrou proficiência semelhante em outros aspectos do filme, com epicentro dramático na incapacidade de integração das diferentes nuances do argumento, que nos provoca uma intensa experiência dissociativa, e possivelmente uma forte dor de cabeça. A técnica de stop motion e a utilização do 3D são academicamente interessantes, mas tornam o filme numa completa confusão estética que, juntamente com a confusão de género, de estilo e de argumento, assassinam de uma vez só a experiência do espectador.

A Ilha de Giovanni – 7/10

Esta longa-metragem de Mizuho Nishikubo centra-se numa relativamente desconhecida faceta da II Guerra Mundial. A grande guerra poupa a pequena ilha de Sakhalin do império do Japão, mas a paz invade-a com violência com a ocupação da URSS após a capitulação de Hirohito. Perante as enormes tensões entre povo ocupado e ocupante, as crianças russas e japonesas, alheias a todo o contexto que as ultrapassa, travam amizades constantemente ameaçadas por um mundo que as ultrapassa.

A Ilha de Giovanni

A luta de dois irmãos pela sobrevivência e pela felicidade por entre as amarras da história, que os afastam da família e amigos, e os fazem enfrentar dificuldades que não compreendem, é bem conseguida e comovente, assim como os encontros e desencontros de Jinpei, o irmão mais velho, e Tanya, filha do comandante russo, cuja amizade dura para além de uma vida de separação. O romance de Miyazawa, Night on the Galactic Railroad, constitui o mundo imaginário que os irmãos recorrem para se refugiarem das dificuldades, um mundo onde tudo é possível e onde mesmo a morte não detém poder.

Embora o filme contenha momentos de alguma excessiva ingenuidade ao abordar alguns dos momentos mais sentimentais, este anime é visualmente bastante interessante, sendo possível desculpar alguns momentos desastrosos de utilização do digital, que um realizador com mais discernimento abortaria no primeiro minuto de edição.

A Monstra caminha para a conclusão, com os vencedores a serem conhecidos no mesmo dia em que são mostrados os dois últimos filmes da competição de longas. Fora de competição ainda há muito para ver nas várias salas invadidas pelo festival de animação. Passem pela Monstra!

Mais Artigos
Governo e promotores de festivais reúnem para preparar 2021