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Festival Cumplicidades: a 1ª semana

A edição zero do Festival Cumplicidades (Festival Internacional de Dança Contemporânea de Lisboa) já completou uma semana. O Espalha – Factos acompanhou alguns dos espetáculos que invadiram a capital portuguesa.

13 de março de 2015 foi dia de inauguração de um novo festival. Durante toda a semana seguiram-se espetáculos e percursos um pouco por toda a cidade.

Hale – estudo para um organismo artificial 

O festival iniciou-se na Estação Ferroviária do Rossio. Com o público sentado no chão e sem lugar marcado, seis intérpretes começaram uma performance que questionou a relação do corpo com o artificial. Com 23 kg de plástico e 1710w de potência de ventiladores, os seis artistas construíram um “monstro” de plástico que representa toda a nossa envolvência  com um mundo repleto de “próteses” como as tecnologias .

Durante pouco mais de meia hora, o corpo de Aleksandra Osowicz, Filipe Pereira, Joana Leal, Helena Martos, Inês Campos, Matthieu Ehrlacher, Flora Detraz foi de plástico.  Criado por Aleksandra Osowicz, Filipe Pereira, Helena Martos, Inês Campos e Matthieu Ehrlacher esta foi uma abordagem atual e crítica ao mundo intensamente dominado por extensões não-humanas. Envoltos nesse plástico, os intérpretes representaram a nossa permanência no mundo, ora mais entorpecidos ou mais energéticos, conforme a potência do ventilador. O plástico ficou sem forma quando a eletricidade se desligou, ou seja, quando o sistema colapsou.

O impacto que poderia ter sido obtido sofreu com a fraca luz e a localização do espaço da demonstração. Contudo, não deixou de ser cativante ver sentimentos como o amor revestidos em plástico. Razões para dizer que o Cumplicidades começou mesmo com a questão que percorrerá todo o festival: como anda a relação do nosso corpo com o mundo?

8.15.23

Pedro Prazeres, pela primeira vez a atuar em Portugal, apresentou na Casa da Imprensa a sua instalação 8.15.23. De 16 a 19 de março, a partir das 18h, o intérprete reuniu um grupo de pessoas de 30 em 30 minutos, para que pudessem “experimentar” uma instalação performativa inspirada na relação entre a memória e o lugar.

O espetáculo iniciou-se com um pedido do intérprete: o grupo de participantes teria de se sentir confortável. Com almofadas, candeeiros e mp3 dispostos ao longo da sala, cada um tinha de aproveitar o facto de estar naquele espaço. Através de auscultadores, ouvia-se um poema em várias vozes e o intérprete movimentava-se pela sala.

Em vinte minutos, um grupo esteve numa sala confortável consigo próprio. Foi um momento introspetivo e com uma presença humana indiscutível, onde os olhares dos participantes se trocavam e a localização do corpo com as palavras ouvidas muitas vezes se questionou. Aliás, a questão do intérprete partia da memória do corpo no lugar e como nós percepcionamos a nossa presença.

No final, Pedro Prazeres fez um último pedido: podem sair ou podem escrever uma palavra, ou seja deixar a sua inscrição no lugar. Quem se sentiu à vontade deixou as suas palavras no papel de parede.

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Cinemateca

No dia 19 de março, foi a vez de Bruno Alexandre partilhar o solo Cinemateca. O intérprete utilizou entrevistas a realizadores de cinema como base na sua criação. De facto, o intérprete desempenhou um solo com um movimento que se assemelhou à rodagem de um filme.

No início, os movimentos foram mecânicos, como se o seu corpo fosse a claquete que iniciasse um filme. Da rigidez passou para um tremor, uma inquietação que se assemelhou ao terror de uma solidão ou um sonho ( ou pesadelo) a matéria de que também são feitos os filmes. Depois tudo se desenrolou com intensas corridas em círculos e com gestos expressivos e com muita utilização das mãos, afinal estava a realizar vários um filme através da dança.

Mas como alguns dos realizadores em que se inspirou como  Fritz Lang, John Cassavetes, Federico Fellini, Ingmar Bergman e Aki Kaurismäki, Bruno Alexandre deixou um último suspense na sua peça: o tiro de morte, mas sem morte. Afinal o cinema é uma interpretação e o intérprete estava apenas a transmitir isso para o seu corpo.

A diversidade e expressividade de gestos, assim como um jogo de luzes cinematográfico suscitaram uma interpretação absorvente. Cinemateca foi um reservatório de expressões rodadas em público no District of New Art (DNA), um novo espaço que pretende reunir novos espetáculos.

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Quadratura do Espaço Curvo 

Na mesma noite, Pedro Ramos apresentou também um solo. O tema era complexo: o espaço, o tempo e o corpo. Para isso, Pedro Ramos marcou num tempo e num determinado espaço o seu corpo , ou seja com um giz desenhou no chão distâncias entre o seu corpo. Essas linhas de distância transformaram-se em círculos e numa linha de tempo em contagens de 16 tempos, muito frequentes na dança.

O intérprete confrontou a organização do tempo e a forma como nós lidamos com ele. Com atrasos, antecipações, correrias ou momentos mais calmos, Pedro Ramos interpretou uma das prisões a que estamos constantemente sujeitos: o tempo.  Por isso, se mostrou essencial a utilização do círculo vicioso desenhado no chão, que ao longo do espetáculo deu origem a outros círculos.

Durante a última semana, a relação do nosso corpo com o que nos rodeia foi o assunto mais debatido no Cumplicidades. Neste festival, a dança é o principal meio de nos relacionarmos com a realidade e evidenciarmos que precisamos de pensar melhor em certos problemas.

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Ainda podes ver…

O Festival Cumplicidades continua a decorrer até dia 29 de março. Ainda podes assistir a The Very Boring Piece de Cristina Planas Leitão e Jasmina Krizaj (21 de março), Pequenos Mundos de Joclécio Azevedo e Teresa Prima (22 de março), IIa falha de onde a luz de Sónia Baptista (24 de março) ou Romance de Lígia Soares (27 de março). Também podes participar num percurso de dança nos dias 27 e 28 de março.

Consulta mais informações, aqui.

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