Jennifer Aniston está de volta às salas mas desta vez num registo bastante diferente daquele que nos tem vindo a habituar. Cake – Um Sopro de Vida é um drama mais leve que a sua premissa indica, mas não deixa de mesmo assim afirmar-se como um título interessante.

Após ter sido vítima de um acidente de viação, Claire Simmons é perseguida pela dor física e pelas mazelas psicológicas que fizeram dela uma mulher deprimida, amargurada e incapaz de se relacionar com os outros. Quando descobre que Nina, uma “colega” do grupo de apoio que frequenta, cometeu suicídio, fica obcecada em descobrir o porquê de tal acontecimento.

Os dados estariam lançados para um drama potente, um character study fortíssimo ou uma jornada pelo doloroso caminho da depressão se por detrás das câmeras e da máquina de escrever que datilografou o argumento de Cake estivesse um cineasta experiente, capaz de transformar esta premissa numa tempestade de sentimentos que levaria o espectador a viver uma experiência difícil de suportar. Mas acontece que quem assina este filme é Daniel Barnz, realizador que ainda não se conseguiu afirmar no panorama atual do cinema, e um estreante Patrick Tobin na parte do argumento.

O resultado não é a tal tempestade sentimental mas, no mínimo, uns pequenos aguaceiros emotivos que vão e vêem ao longo da narrativa, indo pelo meio aparecendo uns raios de sol otimistas caraterísticos de um espírito mais americanizado. Mas isto não é consequência de falta de ambição ou sequer falhas na construção da história. Os criadores de Cake sabem as suas limitações e em vez de dar muitos passos em falso vão desenvolvendo com contenção o enredo, apostando por vezes em clichés muito bem disfarçados e usufruindo de um tema que, mesmo que pegado de maneira desajeitada e descuidada, há de ter sempre o mínimo impacte na audiência.

Neste caso o impacte não se fica pelos mínimos. Há sempre algo de interessante a prender-nos ao ecrã, nomeadamente as cenas onde Claire se vai confrontado não só com as descobertas relacionadas com o suicídio de Nina mas também com o avançar da sua própria batalha com os fantasmas do passado. Em todos estes acontecimentos o que brilha mais é uma estrela improvável: Jennifer Aniston. O nome da atriz está sempre associado a comédias de segunda ou até terceira categoria, mas desta vez provou que é uma intérprete de mão cheia, capaz de dar vida e entregar-se de corpo e alma a uma personagem mais complexa que as incontáveis e uni-dimensionais loiras burras que encarnou desde que saiu da série Friends.

O mérito da boa qualidade de Cake é maioritariamente de Aniston, mas não podemos deixar de destacar a boa construção da narrativa que não toma caminhos previsíveis (outros dramas iriam apostar muito mais num amor entre Claire e o marido de Nina que entretanto conhece) e sabe jogar sempre bem com as cenas mais fortes e os momentos mais enternecedores, protagonizados pela nossa protagonista e pela sua empregada Silvana (bem interpretada por Adriana Barraza), que mantêm uma amizade improvável mas agradável de se ver. E há sempre uma ou outra surpresa a aparecer ao longo do filme. O passado, por exemplo, de Claire é facilmente adivinhado, mas a maneira como vai sendo revelado oferece sempre alguns pormenores mais imprevisíveis.

O filme conta ainda com meia dúzia de segmentos bastante tocantes. Como um todo pode ficar aquém das expetativas, mas a verdade é que por diversas vezes Barnz e Aniston conseguem reproduzir momentos de enorme nível sentimental, pegando no tema da depressão e do suicídio, que toca a tanta gente de tantas maneiras, e ilustrando-o através de imagens fortes com elevada carga emocional, capazes de levar uma lágrima ao olho dos mais sensíveis e de arrepiar a espinha até dos menos suscetíveis.

Barnz falha apenas ao tentar dar um tom simbólico e místico ao seu trabalho. Nina pode ter-se suicidado mas não deixa de aparecer ao longo do filme em aparições fantasmagóricas produto da imaginação (e da paranóia) de Claire, algo que até poderia ser interessante se não fosse utilizado em excesso como acontece. Também o argumento apresenta algumas falhas, especialmente quando tenta introduzir algum humor negro nos diálogos, como se vê naquela entrada a matar na cena inicial onde Claire “deita tudo cá para fora“, o que resulta numa fala muitíssimo forçada e que faz com que Cake tenha uma falsa partida.

O que vale é que até final a fita consegue ir compensando e bem estes problemas. Porque, mesmo não sendo o drama com D grande que tinha condições para ser, também não é mais um produto desprezível. Cake – Um Sopro de Vida consegue, através de uma grande e potente interpretação de Jennifer Aniston e uma narrativa bem definida, ir conquistando aos poucos o espectador e este vai sentindo cada vez mais de perto as vivências de Claire e a sua própria depressão.

7/10

Ficha Técnica

Título: Cake

Realizador: Daniel Barnz

Argumento: Patrick Tobin

Elenco: Jennifer Aniston, Adriana Barraza, Sam Worthington, Anna Kendrick

Género: Drama

Duração: 98 minutos