É difícil viver sob o espectro de um grande álbum. Incontáveis são os músicos que cederam à esmagadora pressão colocada sobre eles, por parte dos fãs e da crítica, depois de um disco tão insistentemente rotulado de “brilhante” ou de alguma espécie de “clássico moderno”. E apesar de não muita gente ter duvidado do talento de um dos mais universalmente adorados rappers do momento, a verdade é que good kid, m.A.A.d city afigurava-se um esforço demasiado completo para ser desde já destronado na ainda curta discografia de Kendrick Lamar. Uma breve história de amor, desejo e sobrevivência na ímpia cidade de Compton, o álbum é todo ele cercado de um implacável realismo ao qual parece impossível ficar indiferente.

Se tal proeza soa a inconcebível aos 25 anos de idade, que se afirme que hoje ela foi batida: ao longo de 78 minutos da mais imersiva, contagiante e extasiante experiência musical, To Pimp a Butterfly chega às alturas que good kid falhou em alcançar, cimentando definitivamente a hegemonia de Kendrick Lamar no rap game da actualidade. Dito isto, e mesmo que descrever este álbum fazendo-lhe justiça pareça-me impraticável, permitir-me-ei uma sumária tentativa.

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Para um músico que fora outrora considerado intrinsecamente biface, com um pé no hip-hop comercial e outro no apelo alternativo, tudo indica que Lamar escolheu o seu lado: longe vão os tempos dos refrões catchy de estação de rádio ou das melodias pop de acariciar os ouvidos. Aqueles que esperavam por um eco de Money Trees ou uma espécie de Bitch, Don’t Kill My Vibe 2.0 em To Pimp A Butterfly ficarão decerto desapontados com o resultado. Ao invés disso, Kendrick aconchega-se às melodias de jazz e soul às quais já se havia aproximado em esforços anteriores, expandindo-as e adaptando também influências do R&B e do funk, com algumas guitarras e sopros à mistura,  num verdadeiro retrato da black music norte-americana.

Esteticamente, o disco assemelha-se bastante ao mais recente trabalho de Flying Lotus (que, aliás, também faz aqui a sua aparição): os sons fundem-se num misto anárquico de acordes dissonantes e batidas efervescentes, e ainda que se tenha perdido um pouco da sujidade da produção de g.k.m.c, o resultado nunca deixa de ser incrivelmente interessante. Esta camada de instrumentação pinta todo o álbum a cores mesmerizantes, ligando-se às letras para a formação de imagens quase surreais. O que sobrou de m.A.A.d city foi incrementado e aperfeiçoado em To Pimp a Butterfly, desde as bruscas mudanças de instrumentação no interior das próprias músicas aos pequenos skits que as interligam, moldando-as num todo coerente e significante.

Liricamente, Kendrick Lamar apresenta uma entrega de igual calibre e uma evolução de comparável importância. As letras, que antes incidiam sobre descrições de eventos e divagações introspectivas, centram-se agora em conceitos abstractos – motivos, intenções, princípios, valores, ideologias – que cada vez mais pedem uma análise para além do literal. Mais uma vez, Lamar conta-nos uma pequena história de um período da sua vida, ainda que esta surja impregnada de simbolismos e analogias. É através destas extensas metáforas, aliás, que Kendrick utiliza episódios da sua vivência para abordar temas maiores como o Bem e o Mal, a virtude moral, a hipocrisia, a justiça, a ganância, Deus, e talvez o mais importante tema de To Pimp a Butterfly: o racismo.

Seguindo uma tendência que já havia sido encontrada no segundo single promocional, The Blacker The Berry, Kendrick ataca incansavelmente a discriminação racial e as condições precárias a que são sujeitos os negros nos Estados Unidos, assumindo-se como perpetuador do legado dos direitos afro-americanos com a convicção de um verdadeiro Pantera Negra. Para tal, não poupa esforços em apontar as suas influências e fontes de inspiração: Kunta Kinte é o protagonista de King Kunta, onde também aparecem referências a Michael Jackson; o fime 12 Years a Slave é mencionado em Complexion, tal como Mandela, Malcolm X e Martin Luther King em i e Tupac  em Mortal Man. No entanto, estas referências não são dispostas de forma propriamente linear, bem como quaisquer outras letras que se encontrem aqui. Lamar larga os seus versos de forma quase sempre desorganizada, atropelando ideias e criando um emaranhado de frases e pensamentos que contribui para o sentimento geral de psicadelismo e entorpecimento do álbum.

 

Ouvir este LP do início ao fim é experienciar, por quase 80 minutos, a mente de um Kendrick perturbado e arrependido, mas também ciente de quem é, daquilo em que acredita e do que deve fazer. Agarrar-se às pequenas e raras falhas de To Pimp A Butterfly, como os motifs algo cansativos de For Free? e Hood Politics ou as faixas relativamente menos conseguidas (These Walls e You Ain’t Gotta Lie seriam exemplos, apesar de não inteiramente) é deixar escapar a verdadeira grandeza do disco como uno. Com este álbum, Kendrick Lamar não só fez música de qualidade destinada a ser apreciada por milhões em todo o mundo, mas criou uma obra de ambição, densidade e mensagem inigualáveis – tocante, mas não melosa; política, mas não condescendente; profunda, mas nunca pretensiosa – capaz de elevar o hip-hop ao estatuto de arte aos olhos dos mais cépticos e elitistas.

9.5/10

*Por opção do autor, este artigo foi escrito segundo o Acordo Ortográfico de 1945