Estreou este domingo a nova aposta da TVI na ficção nacional. Anunciada como “a novela do ano” – prática habitual da estação – A Única Mulher prometia ser uma produção realmente diferente. Com a ação a desenrolar-se entre Angola e Portugal, a trama conta com Luís Miguel (Lourenço Ortigão) e Mara (Ana Sofia Martins) como personagens principais. O Espalha Factos analisa as primeiras emoções da novela A Única Mulher.

A promoção foi intensa e até mesmo os noticiários da estação dedicaram parte da sua emissão a reportagens sobre esta estreia. A música do genérico dá nome à novela e é da autoria de Anselmo Ralph, outro dos pontos fortes desta mega campanha de lançamento, com o tema A Única Mulher a garantir o sucesso junto do público e a atrair mais a atenção dos telespetadores.

A abertura de A Única Mulher acaba por se revelar simples, embora eficaz. Um plano sequência manipulado digitalmente, com animação 3D e que mostra várias paisagens, ao som do tema de Anselmo Ralph. Uma abertura interessante, mas que resulta sobretudo pelo tema escolhido, pois visualmente não acrescenta muito ao longo dos cerca de 50 segundos.

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Sendo o capítulo de estreia de uma telenovela, houve um cuidado especial a nível técnico, com recurso a grandes artifícios visuais, provando que a ficção nacional consegue acompanhar o que de melhor se faz em outros países. Planos aéreos que revelaram várias paisagens portuguesas e africanas, movimentos de câmara acompanhando a ação das personagens, enquadramentos bem idealizados – com a realização a destacar-se nestas primeiras imagens – conferindo a este episódio um nível semelhante ao de um telefilme.

Ainda assim, a estreia de A Única Mulher pecou por alguns excessos, nomeadamente no número de imagens aéreas de paisagens, nos momentos de transição dominados pela banda sonora, em alguns movimentos de câmara utilizados sem grande contexto narrativo ou na escolha musical que explorou até à exaustão alguns dos temas que compõem a banda sonora da novela. O melhor exemplo disso foi o recurso ao cover de All Of Me, com letra em português, interpretado por Kataleya, que dominou por completo o episódio e que provou como uma música pode passar, em poucos minutos, de bestial a besta.

Já a história da telenovela pouco ou nada acrescenta ao que já foi feito até agora, não fosse o facto de o elenco se dividir entre atores portugueses e angolanos: um rapaz e uma rapariga vindos de famílias rivais apaixonam-se e vivem um amor proibido, que terá que lutar contra todas as barreiras sociais, raciais e geográficas para vingar. Neste campo, Maria João Mira já nos tinha contado histórias com pontos de partida semelhantes e é por isso que o fator diferenciador são as personagens envolvidas e esta luta pelo preconceito racial que se transmite na história central.

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No primeiro episódio, a narrativa desenvolve-se de forma gradual, com alguns saltos temporais estranhos e que fazem com que a relação de algumas personagens se desenvolva muito depressa e de uma forma um pouco incoerente – a amizade de Luís Miguel e Artur (Leandro Pires) é um bom exemplo, com uma empatia imediata entre os dois, mas que acaba por ser forçada no decorrer da trama. Como aspeto positivo, temos algumas sequências de maior ação e muito bem conseguidas, onde o recurso ao movimento da câmara e o ritmo da montagem imprimem dinamismo à ação. A cena de pancada no bar, entre Artur e Diogo (Graciano Dias), assim como a sequência passada em Angola, em que uma criança foge de Mara para não ser vacinada, são dois bons exemplos disso mesmo, aliando-se a todos os aspetos já referidos a escolha acertada a nível musical.

O elenco de A Única Mulher divide-se entre caras bem conhecidas dos portugueses e outras que não são tão recorrentes na ficção da TVI. Começando pela protagonista, Ana Sofia Martins, e grande parte do elenco do núcleo angolano, que de uma forma geral mostraram ter sido bem escolhidos para os papéis que representam. No elenco português, Lourenço Ortigão mostra uma clara evolução desde o seu papel em Morangos com Açúcar, altura em que se estreou em televisão. Já a dupla formada por Pilar (Alexandra Lencastre) e Concha (Paula Neves) revelou-se uma das mais divertidas da história, num misto de glamour e simplicidade, mostrando que Alexandra Lencastre está de volta ao papel de uma vilã interessante, bastante mais humana e não tão linear como outros papéis anteriores.

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Por outro lado, alguns atores não estiveram à altura do que era exigido pela sua personagem. Graciano Dias, no papel de Diogo, foi uma das maiores surpresas, pela negativa. O ator que este ano já foi nomeado para vários prémios pelo seu papel na longa-metragem Os Maias, mostrou que nem sempre um bom ator de cinema ou teatro poderá sair-se tão bem em telenovela. Nas suas primeiras cenas, Graciano mostrou-se um pouco exagerado, fugindo de uma postura mais próxima da realidade que a sua personagem exige. Uma interpretação que em nada retira o mérito do ator e que poderá melhorar ao longo da trama, uma vez que esta é apenas a segunda telenovela na qual participa. Enquanto isso, Joana de Verona, outra presença assídua no cinema português, em A Única Mulher é Sara, a mulher de Diogo. Aqui, mostrou estar à altura, no papel de uma mulher fria e calculista, o elemento desestabilizador da família, neste que é o seu regresso às telenovelas portuguesas.

A Única Mulher ainda agora começou e parece já ter conquistado os portugueses. O primeiro episódio venceu a concorrência – à mesma hora, a SIC emitia um episódio especial de Mar Salgado. Resta saber se o confronto direto das duas produções, de segunda a sexta, continuará a ser dominado pela novela da TVI ou se a novela da SIC mantem o título de programa mais visto em Portugal.

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Para já, é certo que a estação de Queluz apostou tudo em A Única Mulher. A promoção continua intensa – com emissões especiais e passatempos para casa, entre outras medidas de aproximação ao público – e toda a gente já ouviu falar da nova novela portuguesa. Será que este excesso de divulgação acabará por cansar os espetadores ou, por outro lado, terá o efeito pretendido e agarrará os portugueses à história de Mara e Luís Miguel? Resta esperar para ver como se comportará A Única Mulher e se realmente tudo é “impossível até acontecer”.