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Tribruto, Chavascal

Entrevista EF: Tribruto – o punchline quer-se bruto

Os Tribruto: três brutos – ou não fosse esse o single de apresentação, que mostram punchlines credíveis e defendem que o novo álbum, Chavascal, é um “punchline de smoking”. Em entrevista ao Espalha-Factos, falaram sobre tudo e mais alguma coisa, com bom humor à mistura.

EF: Quem são os Tribruto?

RealPunch: Os Tribruto são um grupo oriundo do Algarve, constituído pelo RealPunch, pelo Kristóman e pelo Gijoe.

EF: Essa é a resposta que dão sempre, porque aposto que vos fazem sempre esta pergunta. Quem é que são mesmo os Tribruto?

RP: Somos pessoas que gostam de fazer música. Gostamos muito de punchlines e de ser gozões, com uma parte séria.

Gijoe: Três pessoas que se cruzaram na música, no Algarve, que se cruzaram em cima do palco e que se aperceberam de que isto funcionava e decidiram fazer música a partir daí.

EF: Quando é que se conheceram em palco, como é que isso se deu?

G: Já fazíamos parte de uma editora e eu, enquanto DJ, era convidado para alguns eventos e acabava por levar um pack de MCs da editora. Eles os dois já tinham sons a solo e acabámos por juntá-los e apoiavam-se um ao outro.

RP: Porque o estilo era parecido e decidimos, a certo ponto, “temos de preparar originais, para ver como é que resulta”. Quando começámos o processo de preparar os originais vimos que tinha de ser um álbum. E então nasce Tribruto, do palco para o estúdio.

EF: E sentiram dificuldade em passar do palco para o estúdio?

RP: Não, foi um processo natural e evolutivo. Queria mesmo dizer isto.

G: A cena de passar do palco para o estúdio foi natural, porque precisávamos de músicas novas para voltar para o palco, então a cena em estúdio foi muito já a pensar nisso. Foi um processo natural, em que todos estávamos a evoluir – eu enquanto produtor e eles enquanto MC -, o estúdio fez-nos muito bem para nos conhecermos melhor e para prepararmos coisas nossas. O nosso objetivo era voltar para o palco.

EF: Em relação ao Chavascal, quais são as principais características? Se tivessem de vender o vosso álbum a alguém, como seria?

K: É um álbum com uma sonoridade com instrumentais agressivos…

RP: São punchlines audíveis, como é que hei-de dizer…

G: Quando tenho de vender, digo às pessoas “tens lá uma mesa em casa com uma perna mais curta? O CD é mesmo ideal para isso.” Aí é que eu consigo vender.

K: As rimas são agressivas, são trabalhadas metricamente. Hoje em dia é difícil haver um público que consiga captar esse tipo de rima, mas…

RP: Cada vez há mais.

K: Cada vez há mais e é essa a nossa missão. E aí está, o punchline é uma arte para nós, aquela rima a “atacar”, que as pessoas gostam de catalogar dessa maneira. Eu diria que, ao comprar o nosso álbum, vais entrar no mundo do punchline.

G: Eu agora vou ser completamente sincero: quando tento vender o álbum, a única coisa que digo é “espera tudo deste álbum”. E deixo assim, porque realmente é isso que é o Chavascal, de tudo um pouco que possas pensar e que não prevês.

Tribruto, Chavascal

EF: Falaram na dificuldade de haver um público que estivesse preparado para o punchline. Por quê?

K: Agora já nem tanto. Mas, antigamente, o punchline era um bocado “estás a querer atacar as pessoas” e havia até pessoas que, às vezes, se ofendiam. E havia o estereótipo de que o rap é só para a mensagem, estares a fazer uma coisa diferente disso era estragar o rap. Hoje em dia já não se sente tanto isso, mas esta é a nossa missão, nós Tribruto temos esta missão de mostrar que o punchline é uma das vertentes do rap.

RP: E, acima de tudo, o que nós queremos fazer também é punchlines credíveis e muito técnicas, que é esse o nosso objetivo. Nós queremos também tornar as punchlines que surgiram das battles, queremos musicá-las e queremos vender punchlines bem feitas e maduras, ao mesmo tempo.

EF: Quais são as principais diferenças do Algazarra [registo anterior] para o Chavascal?

RP: Passaram quatro anos, aconteceu muita coisa.

K: Novas influências, também…

EF: Como por exemplo?

K: No Algazarra foi Slaughterhouse, Heltah Skeltah… No Algazarra referimos sempre estes dois grupos, porque realmente foram os grupos impulsionadores de Tribruto. Mas hoje em dia já ouvimos um pouco de tudo. Agora temos estado a ouvir Kendrick Lamar, nesse estilo mais ou menos…

G: Sentimos que a evolução do álbum tem a ver em tudo com a nossa evolução enquanto…

RP: Pessoa e enquanto artista a solo, também.

G: Todos andámos a experimentar coisas, todos andamos a ouvir coisas diferentes. E o grupo também funciona muito com a troca, com o “olha o que eu ando a ouvir” e discutimos os nossos gostos musicais e depois isso reflete-se em Tribruto, já desde o primeiro álbum, é mesmo um momento em que conseguimos trocar informação.

K: Neste álbum trabalhámos as palavras de uma forma diferente, aí está, tu podes falar de um telemóvel e podes fazer uma rima a dizer “não sei quê, não sei que mais, -óvel”. Neste álbum notou-se mais “te-le-mó-vel”

RP: Aprendemos técnicas que aplicámos aqui, as chamadas duplas rimas, que em vez de rimar só com a última palavra vai rimar com as duas últimas palavras… A nível de flow, também estamos com coisas completamente diferentes. Eu acho que este tempo de intervalo que tivemos foi muito bom e, como estava a dizer, a nível de experiências pessoais, porque o Algazarra… eu, pelo menos, tinha 19 anos, não tinha se calhar a percepção daquilo que realmente queria, enquanto músico. Hoje em dia, tenho a certeza. E isso reflete-se neste álbum, notas que é…

K: Está mais maduro.

RP: Está mais maduro, é brincalhão, é gozão, mas é sério, ao mesmo tempo.

K: Está um punchline adulto. Hoje posso dizer que o Algazarra é aquele punchline dos putos e que o Chavascal é o punchline dos homens.

RP: É o punchline de barba rija.

K: O Algazarra é o punchline do boné para trás e o Chavascal é aquele rap de smoking e charuto. O Algazarra é rap de suspensórios. Mas, sim, é uma diferença brutal, em todos os aspectos.

Capa (Algazarra), Tribruto

EF: E qual é que tem sido a reação do público?

RP: Tem sido super positiva.

K: Nós apanhamos vários tipos de público e isso é fixe. Desde o Algarve até ao Porto e há públicos mais difíceis de cativar, aí está, o punchline não é tão bem recebido por essas pessoas.

RP: Falo por mim e acho que também falo por eles: fizemos um ótimo trabalho neste álbum e sinto que as pessoas também ficaram com essa percepção e que gostam mesmo da música. Tocámos na apresentação do CD do Regula, no Lux, e, apesar de ter sido um público que tivemos de conquistar, notava-se que havia pessoas que realmente conheciam o nosso novo trabalho e que nos acompanhavam em algumas músicas.

G: Em relação à conquista do público, há uma coisa que sempre nos deu muito gozo. Vamos a uma festa de hip hop e é normal que o público esteja preparado para nos ver. Mas quando estamos no meio de bandas que não têm a nada a ver – e já aconteceu estarmos em cartazes de hardcore e a única banda de hip hop é Tribruto, ou na Semana Académica, em que o cartaz tem de tudo um pouco – é chegarmos a um público que não ouve rap e conseguirmos conquistá-los. Isso dá-nos muito gozo.

EF: Falaram de terem feito a primeira parte de Regula no Lux. Como é que correu, curtiram?

Regula, Lux, 12 março, Casca Grossa
Foto retirada do Facebook Lux Frágil.

K: Bué. Casa cheia.

RP: Casa cheia, esgotou, ao barrote…

K: O público foi muito fixe.

EF: Sentiram muito aquilo de serem a banda da primeira parte?

RP: Um bocadinho. Mas isso é normal, as atenções estavam todas apontadas para o Regula.

G: Mas nós gostamos desses desafios. Chegar lá, ser a banda que vai abrir e conquistar aquele público.

K: E acho que conseguimos fazer isso.

G: Não ouvir aquela cena do “é a última. Yeah!”. Ouvimos logo na segunda música (risos).

K: Mas foi fixe. Foi uma grande oportunidade, uma oportunidade de luxo. Uma oportunidade de Lux.

EF: Falando em oportunidades. Como é que surgiram as oportunidades de colaborações do álbum?

K: Foram acontecendo. Primeiro fizemos as faixas…

RP: “Foram acontecendo.” Caíram de pára-quedas.

G: Nós fomo-nos cruzando com estas pessoas todas em palco. E, quando estávamos a fazer este álbum, íamos fazendo as faixas e percebíamos “ok, esta faixa puxa aqui uma participação”. E víamos, de quem tínhamos contacto, quem é que fazia sentido naquela faixa. Depois convidávamos, normalmente acho que não houve ninguém que não pudesse ou que não quisesse, e toda a gente alinhou. E houve muita gente que, quando se cruzou connosco, deixava em aberto “olha, devíamos fazer uma faixa juntos” e guardámos para o álbum. E basicamente foi isso.

EF: Não houve ninguém que vos obrigasse a correr atrás, que se fizesse assim de mais difícil?

G: houve situações de, por agenda, estarmos a chegar assim ao limite do tempo, mas não era para fazer, era só para entregar as coisas.

K: Houve uma pessoa que tivémos pena de não ter entrado, até porque ele tinha dito que gostava de trabalhar connosco, que foi o Fred Ferreira, de Orelha Negra. Ele podia ter feito uns samples de bateria para nós… Olha, fica para uma próxima oportunidade. Acho que faltou Fred. O álbum está muito bom, mas com Fred ficava uma grande cena.

RP: Guardamos para o próximo.

EF: Por falar em próximo: próximos projetos. O que é que querem fazer, o que é que já têm agendado?

RP: Agora é desfrutar ao máximo do Chavascal.

K: Lançar videoclips, já temos dois quase preparados. Lançámos esta semana O que é esta #####, saiu pela Antena 3… Mas vamos continuar a promover o álbum, temos já algumas coisas marcadas mas top secret ainda…

G: Vamos tocar em bailes de finalistas, funerais…

K: Funerais e batizados.

EF: Festas de divórcio, não?

RP: Isso era brutal!

K: Aquele ambiente do casal separado, cada um com o seu advogado e nós a tocarmos, enquanto eles assinam…

G: Em cenas de punchline acho que faz todo o sentido. Era um do lado e outro do outro. Bom conselho, acho que vamos vender isso. Não temos ainda datas cem por cento certas e que possam sair, por isso é que não podemos revelar datas, mas estão coisas na calha. Este concerto foi mesmo para arrancar.

K: E vamos também lançar faixas soltas, que não são do álbum, que vamos querer soltar, esses registos diferentes.

RP: Fizemos isso no Lux e correu bem, vamos continuar.

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EF: Projetando um bocadinho o vosso futuro: imaginem uma colaboração daquelas mesmo top, que quisessem fazer?

G: José Cid. Para os três.

RP: Eu curtia muito que ele tocasse aquele CD dos 10 mil anos

G: O dos sintetizadores?

RP: Aquele de rock psicadélico, é tão bom.

K: Neste álbum já entrou muito gente que nós ambicionávamos.

RP: E falta ali pessoal com o qual nós queríamos trabalhar.

K: Falo por mim, gostava de um dia fechar uma faixa com o Boss AC ou com o Regula. Regula porque é do nosso registo de punchlines… Com o Boss AC, se fosse, era mesmo para ele entrar naquela onda do punchline à Boss AC, aquele Boss AC de 98.

RP: O Boss AC manda-chuva.

K: Eram os dois artistas que podiam entrar no próximo álbum. E é isto Tribruto.

EF: Querem dizer mais alguma coisa?

RP: Comprem o Chavascal. Está aí nas ruas. Se não quiserem comprar, oiçam no Spotify, para irmos ganhar aqueles royalties

EF: Agora por falar em Spotify: já receberam realmente royalties?

RP: Nem sei se já recebemos ou se iremos receber. Aquilo basicamente pagam cêntimos de cêntimos por cada play.

G: Mesmo nós no Youtube com as views… Só a partir de grandes números é que em Portugal começa a ser significativo.

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