“Olá. Boa tarde! O meu nome é Albano Jerónimo. Parece-vos pouco, não é?” ´É desta forma que a peça Pirandello se inicia. Os nomes das personagens são os nomes dos atores. E Albano Jerónimo morre, mas volta a viver. O jogo de identidade e os efeitos teatrais predominam na peça. Albano Jerónimo, agora no papel dele próprio, desvenda-nos um pouco esta peça que está em cena no Teatro Nacional  D. Maria II até dia 4 de abril.

Espalha-Factos: No meio de tantas personagens, quem é a sua personagem?

Albano Jerónimo: É exatamente isto. Esta duplicidade, este desdobramento de várias coisas consoante uma necessidade de sobrevivência. Este mote que o Pirandello dá, é de facto incrível, esta possibilidade de o homem morrer e ter a morte associada a uma nova vida. Sobretudo amplia um lado lúdico e esta multiplicidade está ligada com esse lado lúdico que todos nós temos e é muito potenciado pela mala voadora.

EF: Foi um desafio interpretar esta personagem?

AJ:Sim e vai ser até ao fim, porque este claramente é um espetáculo que eu posso considerar mais próximo de uma zona de comédia. Esta comédia é de facto extremamente rigorosa e o desafio é permanente. Obviamente, não é fácil também para o Jorge estar a dirigir dez atores com uma estrutura cénica muito exigente a nível técnico. Portanto, tudo isto é um desafio. Tudo muito complexo, mas altamente prazeroso.

EF: Como se prepara uma personagem destas do ponto de vista artístico?

AJ: Este é dos processos que mais me estimularam por várias razões, mas exatamente sobre essa perspetiva do nunca acabar, todos os dias é diferente. Essa é de facto a coisa mais interessante para mim, que é esta coisa em movimento que é a adaptação do texto. Isto levou tudo muito trabalho.

“Todo o jogo é controlado por nós no sentido em que essas confusões são economicamente geridas pelo público.”

11042135_1046117112069717_1291551145_n

EF: Já tinha feito personagens do género?

AJ: Não. Assim com esta velocidade, com este jogo e com esta potencialidade cómica, não.

EF: Fica confundido com a personagem?

AJ: Não, é exatamente do jogo que vem dessa confusão, que nós queremos dar ao público. Todo o jogo é controlado por nós no sentido em que essas confusões são economicamente geridas pelo público. Agora vão ver isto, agora vão ver mais um bocadinho, agora vamos lá voltar outra vez tudo. É um jogo muito consciente e há um lado racional apurado.

EF: Como foi trabalhar com o Jorge e a mala voadora?

AJ: Foi maravilhoso! É altamente estimulante. O Jorge e o Capela têm feito um trabalho ao longo dos anos que eu sigo, que eu aprecio muito e que é sempre pertinente para o espetador. Estou muito feliz de estar a trabalhar com esta equipa. De facto, esta coisa da ficção e do artificio em cena, como é que tu podes criar um jogo altamente complicado em cena com o intuito de diversão. O Jorge é das pessoas mais estimulantes nesse sentido, tem um universo que nunca acaba.

“Se quisermos adaptar isto de várias formas para uma atualidade existem vários paralelismos aqui, que é esta questão da identidade que se dissolve nesta coisa que é a globalização.”

11063332_1046119005402861_1990457955_n

EF: Acha que é uma peça arriscada?

AJ: Totalmente. A mala voadora passa exatamente por essas temáticas ou formas de abordar o mundo muito particulares.

EF: É um gosto representar algo relacionado com Pirandello?

AJ: Sim, é todo um universo. Pirandello era profissional do artifício, dos jogos, das relações, dos amores e de algo com muita rapidez. A mala voadora apanhou muito bem isso. Existem espetáculos onde tu sentes mais isso e este é um caso perfeito.  Todo o momento que estás em cena é maravilhoso. É mesmo um conjunto de pessoas e artistas que quiseram fazer isto. Isso é ótimo.

EF:Também se questiona o próprio teatro.

AJ:Claro, as camadas que se vão desenvolvendo ao longo da peça são composições, são sinais, indicações claras ao público de diversão. Tudo com o foco no jogo. E o Jorge, que é algo que eu destacaria, faz este jogo do artificio que é extremamente pertinente. Se quisermos adaptar isto de várias formas para uma atualidade tem vários paralelismos aqui, que é esta questão da identidade que se dissolve nesta coisa que é a globalização.

EF:E a forma como contamos o que se passa?

AJ:Exatamente. A forma como tu te desenrascas na vida para seres um sobrevivente. Tens de ser outro. Se formos para este lado, existem n coisas que se podem perspetivar nisto. O facto do cenário ter três perspetivas de três dimensões e brincar-se com essas perspetivas e esta duplicidade. Ou seja, é sempre o outro. O outro que acabamos sempre por ser nós e isso é que é interessante.

“Isto é uma peça que para quem nunca vai ao teatro, é a peça perfeita para vir.”

11068764_1046118025402959_1858190868_n

EF:O que é que o público pode levar desta peça?

AJ:Um elogio à ficção, diversão garantida e um vaudeville avariado.

EF: Como é trabalhar com os atores mais jovens?

AJ: É brutal! É uma forma de não envelhecer e de não cristalizares. Pelo menos eu encaro isto assim. A inexperiência que todos eles têm ou a frescura, para mim é néctar, porque eu consigo renovar-me nessa experiência e nesse desejo de fazer coisas.

EF: Esta peça pode trazer os jovens ao teatro?

AJ: Isto é totalmente para eles. Este espetáculo é interessante porque tem várias zonas de entendimento. Pessoas mais velhas ou mais informadas, o que for, lerão certamente outras coisas ou apanharão o tipo de humor mais mínimo. Isto para os jovens vai ser uma “casa para baixo”. Isto é uma peça que para quem nunca vai ao teatro, é a peça perfeita para vir. Venham para ver o que vai ser esta coisa do jogo do teatro. Isto é perfeito.

Fotografias de João Patrício