Cartas a uma ditadura

Os 5 melhores documentários portugueses do século XXI

O panorama cinematográfico português não só vive da ficção, também tem contemplado o público com documentários de grande qualidade, que refletem o prisma cultural, político e social do nosso país e o seu intercâmbio com outras nações. A rubrica 5 desta semana reuniu os 5 melhores documentários Portugueses do século XXI,  que obtiveram reconhecimento nacional e internacional em vários festivais de cinema espalhados pelo mundo.

Pára-me de repente o Pensamento 

O filme de Jorge Pelicano (2014) tem como ponto de partida os versos de Ângelo de Lima, um escritor boémio diagnosticado com esquizofrenia e internado no hospital psiquiátrico Conde Ferreira. O mesmo hospital é agora palco do documentário, que retrata a vida quotidiana dos pacientes. Uns vivem na sua loucura e ironizam com a sua doença, outros na lucidez explicam os seus fantasmas, tormentas e sintomas. Uns têm medo de enfrentar a realidade no exterior, outros anseiam a cura para conquistar a liberdade no mundo lá fora.

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O realizador consegue de forma sublime abordar este tema com um toque leve e simultaneamente profundo, mantendo a dignidade e o respeito por todos os pacientes. Os diálogos são dotados de uma espontaneidade surpreendente, relatos de dor e sofrimento com um toque humorístico para quebrar o gelo.

A Última Vez Que Vi Macau 

A longa-metragem de José Pedro Rodrigues e Guerra da Mata (2012) conta a história de um homem que recebe em Lisboa um e-mail de uma amiga de longa data, Candy, pedindo que vá ter com ela a Macau. Ele regressa à cidade Chinesa onde vivera há muitos anos. Esta viagem revela-se um regresso às suas memórias de infância, aos fragmentos do passado, aos tempos mais felizes da sua vida. 

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A Última Vez Que Vi Macau intercala a trama ficcional com um toque de film noir, ao mesmo tempo que projeta imagens documentais das ruas e vivências de Macau, sendo este o foco central da obra. Por questões históricas, o filme toca ainda na questão colonial. Confronta-se Macau de outrora, mais tradicional durante a presença Portuguesa, com Macau moderna, transformada numa Las Vegas do Oriente após a retoma da administração chinesa, que pouco ou nada diz aos portugueses que lá viveram. O filme teve grande reconhecimento nacional e internacional, sendo exibido nos festivais DocLisboa,  Cannes (França) , Locarno (Suíça), Estados Unidos, Canadá, Brasil e outras paragens.

É na Terra, Não é na Lua 

É na Terra, Não é na Lua (2011) explora a mais pequena ilha do arquipélago dos Açores, com apenas 440 habitantes. A segunda longa-metragem de Gonçalo Tocha possui registos antropológicos, literatura, arquivos e histórias mitológicas e autobiográficas.Durante 4 anos, Tocha filmou a Ilha do Corvo. A pequena equipa de rodagem vai  entrando no mundo dos seus habitantes, de modo a reconstruir a história de uma civilização com quase 500 anos de existência.  Contudo essa história torna-se difícil de alcançar, por não haver memórias escritas. A câmara encarna o papel de registo vivo daquela população, que é captada oralmente e visualmente  em todo o seu esplendor.

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Depois da menção especial que recebeu no Festival de Locarno na Suiça, o filme arrecada o Prémio Cidade de Lisboa para melhor longa ou média-metragem do DocLisboa 2011 atribuído pelo júri presidido pelo historiador Peter von BaghO documentário ganha ainda sucesso internacional, obtendo o prémio de Melhor Documentário no Documenta Madrid, Melhor Filme no Bafici e Melhor Documentário no Festival de San Francisco.

 48 

48 (2009) é um documentário intenso e singular, que se centra nas experiências traumáticas do ex-prisioneiros da ditadura Portuguesa. Eles narram o seu quotidiano na prisão, enquanto fotografias dos registos da PIDE são apresentadas no ecrã. Um grupo de 16 pessoas, 8 homens e 8 mulheres, ex-prisioneiros do regime, partilham as mesmas histórias de violência. Muitos foram presos quando eram muito jovens e envelheceram na cadeia. Outros foram encarcerados com a sua família e testemunharam o seu sofrimento. Mesmo após a sua libertação, as memórias de horror ainda os aterrorizam e nem todos foram capazes de refazer as suas vidas.

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Apesar de 48 não ter sido homenageado nos festivais portugueses, o documentário obteve grande reconhecimento internacional, arrecadando prémios em vários festivais internacionais, Festival Internacional do Documentário e Cinema de Animação (Alemanha), o Festival Cinéma du Réel (França) e Festival Internacional Punto de Vista (Espanha), entre outros.

Cartas a Uma Ditadura 

O filme Cartas a Uma Ditadura (2006) baseia-se na vida de várias mulheres que apoiaram o regime Salazarista. Cerca de 100 cartas escritas em 1958 foram encontradas escondidas num antigo alfarrabista. As autoras das cartas faziam parte de um misterioso movimento feminista fiel à ditadura, grupo desconhecido até hoje, pela falta de registos históricos. A realizadora Inês de Medeiros filmou uma série de entrevistas com os membros do MNMP (Movimento Nacional das Mulheres Portuguesas), de modo a perceber a posição destas mulheres relativamente à ditadura. O filme transporta-nos para o lado mais intimista destas mulheres, revelando o seu papel no passado e o que se tornaram hoje, após a queda do regime.

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O documentário participou no DocLisboa 2006 e ganhou o prémio de Melhor Documentário na competição nacional. Internacionalmente foi condecorado com o FIPA de Prata no Festival de Biarritz, Prémio do Público na Mostra do Cinema de São Paulo, Prémio Femina do Festival do Rio de Janeiro, entre outros.

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