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Como é homenagear o Ballet Gulbenkian? Quatro jovens bailarinos explicam-nos

Por estes dias, o Ballet Gulbenkian é homenageado pela Companhia Nacional de Bailado. O espetáculo está até dia 29 de março no Teatro Camões e depois segue caminho para outras cidades do país: Porto, Évora e Almada.

Para esta homenagem foram escolhidas três peças emblemáticas do Ballet Gulbenkian e é feita uma estreia absoluta. Foi há 10 anos que o Ballet Gulbenkian terminou a sua atividade, mas a sua influência não terminou a junho de 2005. O Espalha- Factos falou com quatro jovens bailarinos da Companhia Nacional de Bailado que nos explicam a importância do Ballet Gulbenkian e deste espetáculo nas suas carreiras.

Depois do ensaio geral e antes de receberem certas anotações sobre a sua exibição em palco, Andreia Mota, Miguel Ramalho, Leonor de Jesus e Lourenço Ferreira disponibilizam-se para falar sobre o que tem sido dançar num espetáculo de homenagem a um nome tão grande na história da dança: Ballet Gulbenkian.

Andreia Mota: “É um privilégio para mim, uma vez que o Ballet Gulbenkian faz parte da história da dança em Portugal, poder estar a dançá-lo.”

AndreiaMota@Rodrigo de Souza

Este é o terceiro ano de Andreia Mota na Companhia Nacional de Bailado. Depois de uma amiga a ter inscrito numa audição para o Conservatório de Dança e de o ter frequentado durante quatro anos, diz ser um orgulho ter conseguido entrar na Companhia Nacional de Bailado. A oportunidade de trabalhar com grandes coreógrafos e de dançar grandes produções é o que destaca no seu percurso pela companhia.

Agora tem a possibilidade de poder dançar peças emblemáticas de uma companhia que não é do seu tempo, mas que considera fazer parte da sua história como bailarina. “É uma oportunidade para nós de ir para o palco, voltar a trazer, dar ao público e relembrá-los do Ballet Gulbenkian, para nunca se perder aquilo que foi uma companhia de renome internacional”, considera Andreia.

Tem sido também a oportunidade perfeita para fazer um estudo mais aprofundado sobre esta companhia. A bailarina é de Tomar e nunca chegou a ver dançar o Ballet Gulbenkian ao vivo. Apenas se lembra de ver na televisão a manifestação e os bailarinos a chorar aquando da sua extinção.

Neste espetáculo, atua em duas peças: Minus 16 de Ohad Naharin  e Será Que é Uma Estrela? de Vasco Wellenkamp. Desta última, concretiza um sonho: poder dançar uma coreografia de Vasco Wellenkamp. “Ter visto a paixão e amor que ele tem pela arte da dança, a forma como ele se entregou a nós é que nos fez dar sentido a cada movimento e a cada expressão”, afirma a bailarina.

 Imagem de divulgação do espectáculo GB (ensaio geral).

Miguel Ramalho: “Os bailarinos do Ballet Gulbenkian eram pontos de referência para o nosso crescimento e para a nossa evolução.”

Imagensdos ensaios do espectáculo GB.

Miguel Ramalho dança com Andreia Mota a peça Será Que é Uma estrela? de Vasco WellenKamp. Para Miguel está a ser uma peça muito especial: “Não há nada que possa explicar o que é para um bailarino homenagear uma das melhores bailarinas de sempre da dança em Portugal [Graça Barroso], através da linguagem do grande mestre de dança contemporânea em Portugal, numa noite em que se homenageia o Ballet Gulbenkian.” Miguel já tinha trabalhado com Vasco WellenKamp e diz comunicar muito bem com o coreógrafo: “percebo imediatamente o que ele quer quase antes de ele o dizer.”

Imagensdos ensaios do espectáculo GB.

Ao contrário de Andreia, Miguel recorda-se bem do Ballet Gulbenkian. Lembra-se de ir ver os ensaios gerais em visitas de estudo na escola e de ter ido à manifestação contra o encerramento daquela que considera “a melhor companhia de dança contemporânea da Europa” da altura. “Eu não queria nada que o Ballet Gulbenkian fechasse. Ninguém queria”, afirma com indignação. Um dos seus grandes sonhos enquanto estudante de dança no Conservatório era dançar no Ballet Gulbenkian. O bailarino ficava completamente estupefacto com a qualidade dos bailarinos e das peças daquela companhia de renome internacional.

Há seis anos na Companhia Nacional de Bailado, Miguel nunca tinha pensado em seguir esta carreira. Em criança, o seu desejo era ter sido jogador de futebol. Como vivia num bairro problemático e os seus pais trabalhavam em Lisboa, a sua mãe decidiu inscrevê-lo no Conservatório. Até porque Miguel era um miúdo muito energético, então: “Ela achou por bem que um bocadinho de ginástica e um bocadinho de exercício não fazia mal. Chegava a casa gasto.” Quando chegou a altura de decidir se queria continuar um estudo mais aprofundado da dança a partir do 9ºano, Miguel decidiu desistir do futebol e seguir pela dança. No exame final do Conservatório teve dois convites de trabalho e aí pensou: “Eu realmente até tenho jeito para isto. Foi quando eu decidi que queria ser bailarino.”

Mas só soube mesmo que este era o caminho a seguir quando começou a trabalhar: “Escola é escola, é disciplina, é difícil, é sangue, suor e lágrimas. Quando se está numa companhia, de certa forma é mais individual e a pessoa toma mais conta da sua carreira e torna-se mais divertido e mais excitante.” Antes de vir para a Companhia Nacional de Bailado, trabalhou na Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo onde lidou com o coreógrafo Vasco WellenKamp e antigos bailarinos do Ballet Gulbenkian.

Agora vai voltar a dançar algo que tanto gosta e com pessoas com que já trabalhou. Treze Gestos de um Corpo foi uma das peças que chegou a ver do Ballet Gulbenkian e que destaca como uma das peças de maior impacto de Olga Roriz. Miguel destaca Olga como uma coreógrafa generosa, que procura no bailarino a imagem para a sua coreografia. Embora esta ser uma reposição, Miguel revela que Olga voltou a procurar em cada bailarino um gesto próprio. O gesto de Miguel é o golpe. Questionado sobre se este gesto o caracteriza, Miguel responde: “Sim, caracteriza-me bem como bailarino, mas neste programa o objetivo é tentarmos ser o mais versáteis possível.”

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O bailarino esclarece que este espetáculo não pretende ser uma reprodução das peças dançadas no Ballet Gulbenkian. “Eu  não lido com este programa comparativamente ao Ballet Gulbenkian. Eu acho que nós temos de dançá-lo à nossa maneira, fazê-lo à nossa maneira, com a nossa paixão, com a nossa dedicação e homenagear o Ballet Gulbenkian.” Para o bailarino, a Companhia Nacional de Bailado e o Ballet Gulbenkian têm objetivos diferentes a nível de reportório e até poderiam existir as duas em simultâneo.

A última peça que dança é Minus 16 e tem um papel de destaque. Durante 15 minutos, Miguel interpreta um solo com muito ritmo: “É aquele jogo entre procura de movimento, porque de facto não é só a graçola, é a procura de movimento, por onde é que o movimento passa pelo corpo e por é que ele nasce e por onde é que ele vai até à extremidade da energia.” Também dançar em grupo é determinante para o bailarino: “É isso que o palco tem de especial, é que mesmo lá fora as pessoas não gostem umas das outras, dentro de palco existe uma generosidade que faz com que dançar em grupo seja muito especial.”

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Quanto ao estado da dança em Portugal, Miguel deixa um conselho para a cultura do nosso país: “Nós temos aqui um bailado que é o Treze Gestos de um Corpo e eu acho que existe um gesto de cada povo e esse gesto tem de sair cá para fora.” Para o bailarino, a cultura é a identidade de um povo e nos últimos tempos tem estado um pouco esquecida.

Leonor de Jesus: “Fazer este espetáculo é como reviver esses tempos e fazer com que o público goste cada vez mais de dança.”

Leonor de Jesus@Rodrigo de Souza

Este é o segundo ano de Leonor de Jesus na Companhia Nacional de Bailado. A bailarina considera que a oportunidade de fazer este espetáculo é uma grande responsabilidade. No ano da extinção do Ballet Gulbenkian estava a entrar no Conservatório. Apesar de não ter tido oportunidade de acompanhar o Ballet Gulbenkian, tem ouvido falar muito bem da companhia ao longo do seu percurso na dança.

Leonor sempre quis ser bailarina e estar em palco é o acumular de todo um trabalho ao longo dos anos: “É naquele momento que temos de mostrar, já está tudo trabalhado e tem de estar perfeito.” Neste espetáculo interpreta o dueto de Minus 16, que considera um enorme desafio: “Os olhos estão postos diretamente em nós e há mais responsabilidade.”

Imagem de divulgação do espectáculo GB (ensaio geral).

A bailarina convida todos os que não tiveram oportunidade de ver o trabalho do Ballet Gulbenkian , assim como os que seguiram o seu trabalho, a virem ver esta versão. Contudo afirma que não se pretende imitar ninguém: “Espero que, não é sentir mesmo, mas que sintam um carinho e revivam memórias.”

Lourenço Ferreira: “É algo especial porque o Ballet Gulbenkian deu imenso, aliás, faz parte da história da dança em Portugal. Poder contribuir para o relembrar desses tempos significa imenso.”

Lourenço Ferreira@Rodrigo de Souza

Lourenço Ferreira integra a Companhia Nacional de Bailado desde 2012. Agora diz ter uma oportunidade especial para qualquer bailarino: dançar numa homenagem ao Ballet Gulbenkian. Foi na altura da extinção do Ballet Gulbenkian que entrou para o Conservatório. Afirma ser um sortudo, pois ainda chegou a ver duas peças da companhia. E foi à manifestação.

O bailarino ainda sente a influência do Ballet Gulbenkian na sua carreira: “Eu acredito que o Ballet Gulbenkian tem influência ainda em muita gente da minha geração também, porque os bailarinos do Ballet Gulbenkian já dos tempos finais acabaram por influenciar muitos bailarinos da geração acima de mim, que por sua vez fizeram essa passagem para nós.”

Lourenço dança peças de Olga Roriz e de Ohad Naharin. O bailarino destaca que foram processos completamente diferentes. Em Treze Gestos de um Corpo já era uma peça que conhecia e o facto de dois professores que interpretaram o seu gesto trabalharem na companhia também ajudou. Em Minus 16, o processo exigiu uma maior habituação do corpo, pois nunca tinha dançado a linguagem daquele coreógrafo.

Lourenço Ferreira @Christian Schwarm

O seu percurso na Companhia Nacional de Bailado já passou por trabalhos como Mozart Concert Arias de Anne Teresa De Keersmaeker ou Orfeu e Euridice de Olga Roriz e agora trabalhou com a equipa de Ohad Naharin . “A companhia tem sido muito boa para mim e eu estou a tentar retribuir ao máximo possível”, esclarece Lourenço. O bailarino afirma que ainda está em momento de aprendizagem. “Pretendo descobrir o que é dança para mim ao longo dos anos, se fosse agora de repente também não ia ter piada”, afirma o bailarino relativamente à descoberta da sua identidade na dança.

Fotografias do espetáculo: Bruno Simão

Fotografias dos bailarinos: Rodrigo de Souza

Última fotografia de Lourenço Ferreira:  Christian Schwarm

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