Hoje é dia de estreia no Teatro Camões. Ou melhor, é dia de festa. De 12 a 29 de março, comemora-se a existência de uma das companhias de dança mais emblemáticas em Portugal: o Ballet Gulbenkian. Foram escolhidas três peças e é feita uma estreia absoluta. Há dez anos, o Ballet Gulbenkian encerrou, mas o seu contributo na dança nacional ainda é visível.

 Quem era o Ballet Gulbenkian?

O Ballet Gulbenkian é criado em outubro de 1965, com o nome de Grupo Gulbenkian de Bailado. O primeiro diretor artístico da companhia foi Walter Gore, que dentro do reportório clássico inclui  nomes como Serge Lifar e Leonide Massine. Durante a sua direção, a companhia também tem um papel determinante na descentralização dos espetáculos de dança com atuações por todo o país, ilhas e colónias ultramarinas. Em 1969, tem também a sua primeira digressão internacional, em Paris.

Em 1970, a companhia tem como diretor artístico Milko Sparemblek, que já havia colaborado com a companhia. O novo diretor investe no reportório de cariz contemporâneo e na criação coreográfica de artistas portugueses, como Carlos Trincheiras ou Armando Jorge. Também cria os Estúdios Experimentais de Coreografia, onde se revela um dos coreógrafos deste espetáculo: Vasco WellenKamp. Mas o incentivo não seria apenas para os coreógrafos, desde o início que a companhia incentivava artistas da música como Joly Braga Santos ou artistas plásticos como Júlio Resende.

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A bailarina Graça Barroso juntamente com Hans van Manen,  Jair Morais e Carlos Trincheiras

Após um período conturbado em 1974, em 1977, Jorge Salavisa assume a direção artística da companhia, que encaminha para um percurso de dança contemporânea. A temporada de 1977/ 1978 é a última que contem peças de cariz clássico. A companhia começa a ter contacto com as linguagens de Maurice Béjart ou Hans van Manen.  Também é durante a direção de Salavisa que surgem nomes como Olga Roriz, Benvindo Fonseca ou Vera Mantero e surgiu o Curso de Formação Profissional de Bailarinos, que permitiu a preparação de bailarinos portugueses. O ensino neste curso era complementado com mestres de bailado internacionais. Tudo isto, permitiu que a companhia se tornasse em pouco tempo formada maioritariamente por bailarinos portugueses. Também tornou possível uma maior visibilidade no estrangeiro, quer pela qualidade dos bailarinos ou das peças apresentadas.

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Treze Gestos de um Corpo de Olga Roriz

Após 19 anos de direção, Iracity Cardoso sucede a Jorge Salavisa. Em 2003, Paulo Ribeiro torna-se diretor e associa nomes como Rui Lopes Graça ou Regina van Berkel à companhia. A temporada de 2004/2005 é a última apresentada pela companhia, depois do Conselho de Administração da Fundação Calouste Gulbenkian anunciar a extinção da companhia em junho de 2005.

Passados 10 anos da sua extinção, a Companhia Nacional de Bailado comemora a sua dança com a seleção de quatro peças que caracterizam a identidade do Ballet Gulbenkian.

Treze Gestos de um Corpo: cada corpo, cada gesto

Treze Gestos de um Corpo é uma das peças mais emblemáticas do Ballet Gulbenkian. A coreografia pertence a Olga Roriz,  um dos nomes de referência do Ballet Gulbenkian. Olga Roriz ingressou na companhia em 1976 e iniciou a sua atividade como coreógrafa nos Estúdios Coreográficos da Gulbenkian e deixou peças importantes como Encontros, Três Canções de Nina Hagen ou Três Gestos de um Corpo.

Esta última peça, estreada em 1987, junta treze homens a palco. O corpo de treze bailarinos da Companhia Nacional de Bailado enfrenta o desafio de combinar os seus movimentos num só, como se fosse um espelho e uma tentativa de procurar um objetivo comum. Mas a procura não fica por aqui, cada bailarino tem o seu corpo e o seu gesto, como o grito ou o golpe. Os vários solos acumulam-se num último corpo. Nas palavras da coreógrafa:  “É como se em cada um houvesse uma evolução, uma transformação do movimento, uma continuação do gesto do anterior.”  Esta é uma peça com um impacto visual e sonoro muito forte, seja pelas luzes e batidas das portas ou pelo dinamismo no corpo dos bailarinos.

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 Será que é uma estrela?: ao som de música brasileira dança-se para Graça Barroso

Vasco WellenKamp, outro dos coreógrafos iniciados nos Estúdios Experimentais do Ballet Gulbenkian, cria a estreia do espetáculo. Com música de Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Caetano Veloso e Edu Lobo, duetos fazem uma homenagem a uma das bailarinas mais emblemáticas do Ballet Gulbenkian: Graça Barroso.

Ao som da cantora Maria João e do pianista João Farinha, três duetos dançam intimamente e com um movimento muito fluído. A cumplicidade entre os seus corpos exprime a dedicação e entrega que Graça Barroso teve no mundo da dança. Um dos seus últimos trabalhos foi a fundação da Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo, juntamente com Vasco Wellenkamp.

 Twilight: um encontro ao pôr-do-sol

Twilight é um dueto cheio de ritmo, que explora a relação algo conflituosa de um casal. Interpretado por Carlos Pinillos e Barbora Hruskova, é um dueto muito mecânico e com alguns movimentos muito marcados. O próprio cenário industrial e a partitura The Perilous Night preparada por John Cage conferem um caráter ritmado e parece que os minutos se contam até ao final do pôr-do-sol. A dança é o meio que utilizam na sua luta de amor. O tempo passa e o ritmo vai progredindo até que a escuridão da noite chegue.

Esta é uma coreografia de Hans van Manen, um dos criadores estrangeiros mais dançados pelo Ballet Gulbenkian, a quem pertence peças como Cinco Tangos, Canções sem Palavras ou Grosse Fuge.

 Minus 16: quem não gosta de dançar?

Minus 16 é pela primeira vez dançado pela Companhia Nacional de Bailado. O Ballet Gulbenkian dançou o Minus 7 entre 2002 e 2005. Esta foi uma das últimas peças dançadas pela companhia. É também esta peça que termina o espetáculo. Esta versão tem muitas surpresas e promete fazer com que todos se sintam parte desta homenagem.

Minus 16 é coreografado por Ohad Naharin e tens os elementos essenciais para esta comemoração. A dinâmica corporal exigida aos bailarinos, uma banda sonora que vai desde música tradicional israelita ao mambo de Dean Martin e um dueto que contrasta pelo tom mais íntimo, mas que não destoa na peça. E claro, os famosos movimentos improvisados e divertidos também não são esquecidos. Este é definitivamente um dos momentos auge do espetáculo pela energia que os bailarinos transmitem ao público.

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A homenagem ao Ballet Gulbenkian não termina a 29 de março. A digressão nacional inicia-se nos dias 10 e 11 de abril às 21h30 no Teatro Rivoli. No dia 18 de abril viaja até ao Teatro Garcia de Resende em Évora. O Teatro Municipal de Almada recebe o espetáculo nos dias 17 e 18 de julho.

Fotografias do espetáculo Programa de Homenagem ao Ballet Gulbenkian de Bruno Simão